Parabéns a todos os envolvidos

É com imenso orgulho deste país que anuncio termos nosso presidente como ganhador do prêmio Ig Nobel 2020!

Primeiramente deixa-me explicar. Eu tomei conhecimento desse prêmio semana passada. E isso me deixou muito feliz.

Ignobel, pela definição do site oficial, é “um prêmio para pesquisas científicas improváveis”. São premiadas “pesquisas que te fazem rir, e depois pensar”. O conceito é excelente. E é um prêmio sério, reconhecido pela Nature, que é uma das revistas mais importantes de divulgação científica.

O Brasil já foi ganhador em edições anteriores, e a deste ano teve dois prêmios. O primeiro é motivo de orgulho real. Resumindo bastante: A pesquisa diz que, em países mais pobres, as pessoas beijam mais na boca.

Agora que você já riu, e já pensou um pouquinho, vamos ao prêmio anunciado anteriormente.

Na categoria Educação Médica, os ganhadores são os líderes Jair Bolsonaro do Brasil, Boris Johnson do Reino Unido, Narendra Modi da Índia, Andrés Manuel López Obrador do México, Alexander Lukashenko da Bielo-Rússia, Donald Trump dos EUA, Recep Tayyip Erdogan da Turquia, Vladimir Putin da Rússia e Gurbanguly Berdimuhamedow do Turcomenistão, por usarem a pandemia viral Covid-19 para ensinar ao mundo que os políticos podem ter um efeito mais imediato sobre a vida e a morte do que os cientistas e médicos.

Todos conseguiram com sucesso ignorar a ciência, eleger medicamentos duvidosos como a salvação, negligenciar a vida de muitos e politizar um vírus! Parabéns a todos os vencedores deste prêmio.

Infelizmente eles ganharam, mas todos nós perdemos.

Nuvenzinhas Cinzas

Caro amigo extraterreno,

Não sei se você ainda nos observa aqui embaixo. Acredito que o universo tem muita coisa mais legal que a gente para ser observado.

Mas, se você ainda faz isso, deve ter percebido umas pequenas nuvenzinhas cinzas onde antes era verde.

Desculpa. Nós que fizemos isso.

Acontece que nós, aqui do planeta Terra, precisamos de oxigênio. Usamos esse gás para quebrar partículas de açúcar, e gerar energia para o nosso corpo. É mais ou menos assim que a vida funciona por aqui.

Esse problema vem de algo que eu ainda não expliquei: Nós não produzimos oxigênio. Só o gastamos, e expelimos outro gás depois. Quem produz oxigênio são as árvores. Elas são essas nuvens verdes que você vê daí. Nas árvores também vivem bichos e insetos que são essenciais para a nossa vida.

Só que a vida tem parado de funcionar direito. Estamos, aos poucos, queimando os pulmões da Terra, meu caro amigo. Parece que é muito melhor tirar árvores e plantar soja. Rende mais desmatar para dar lugar a vacas, e fazer churrascos.

Aliás, churrasco é um ponto forte de visita à Terra. Nós aqui fazemos um churrasco como ninguém. É uma arte que dominamos tão bem, que não consigo explicar direito como funciona, caro ET. Coincidentemente, as coisas começaram a dar errado por aqui quando começamos a fazer churrasco.

Só gostaria de explicar que, quanto menos áreas verdes e mais fumaças cinzas você ver aí de cima, mais perto estamos de deixar de respirar. Venha visitar a Terra enquanto ainda existe vida. Porque, depois disso, pelo visto, vai ser só nuvenzinhas cinzas.

Limpadores 3000

A ideia era fazer um robô ecológico. Simples assim. Nós, da HallTech, criamos máquinas que ajudam nossa vida a ser mais fácil, prática, e que nos dê conforto. Estávamos preocupados com a recepção que nosso novo produto teria, mas estamos felizes por termos atendido grande parte das necessidades humanas por um preço acessível. Próxima pergunta?
– Eu!
– Pois não
– Quais são algumas funções do novo robô?
– Bom, ele possui todas as funções a favor da natureza que nós deveríamos ter. Você pode mandar ele plantar árvores, se tiver mudas próximo a ele. Pode mandar ele jogar o lixo, que é uma tarefa simples, mas vejam aqui no vídeo…instalamos sensores de diversos tipos, e eles conseguem distinguir o lixo, e separar o que é reciclável, o que é orgânico, e coloca nas cores certinhas dos latões de lixo…

Todos aplaudem a imagem. Alguns fazem expressão de maravilhados.

– … Olha, olha! Essa é minha parte favorita. Ele deixa cair um papel de bala. Não é de propósito. Vejam só. Ele para, volta e pega o papel!

Todos aplaudem novamente. Um dos jornalistas levanta a mão.

– Com este novo robô, estamos próximos do primeiro passo de restaurar nosso planeta, senhor. O que vocês esperam de resposta daquelas empresas e governos que procuram apressar o apocalipse?
– Como eu disse antes, estávamos preocupados com a recepção desse novo produto. Até agora não houve pronunciamento de nenhuma dessas empresas e governos. Acredito que o mercado é gigantesco para todas as partes, e todo mundo pode ter seu lugar ao sol, especialmente depois das explosões solares da última semana..

Alguns riram. Outros acharam a brincadeira de mal gosto, talvez só porque perderam algum conhecido ou parente que morreu de câncer.

– Qual você espera que seja o impacto na natureza e no planeta terra para o futuro? – Perguntou um outro jornalista

Silêncio. O entrevistado parou por uns segundos para pensar na resposta, mas não vinha nada à mente.

– Ah, bom…futuro…a gente sabe que não vai ter, né. Não pra nós. O objetivo deste novo robô, que foi anunciado nessa exposição, é tornar mais confortável nossa vida nos próximos anos ou décadas. Vamos continuar produzindo novos modelos que desfaçam algumas coisas que fizemos de mal para a natureza, e coisas assim…mas isso não vende. Agora, respondendo à sua pergunta, sobre o futuro. Essa primeira linha de Limpadores inteira está programada para se jogar no mar assim que o apocalipse começar. Pelo menos no mar não tem ninguém morando, e as baterias de lítio não vão explodir na cara de ninguém.

Desta vez ele riu, mas riu sozinho.

Cinco anos depois o apocalipse começou. Os Limpadores 5000 começaram a matar os humanos que faziam mal à natureza. Governos caíram. A HallTech fechou e disse não se responsabilizar pelo ocorrido. Hoje o planeta vive super bem, sendo cuidado pelos Limpadores 6000 que não se jogaram no mar, e cuidam da terra como ela deveria ser cuidada.

Abaixo assinado

Pareceu sensato a muita gente daquele país fazer um abaixo assinado contra a mudança de temperatura. Não era nada a ver com as mudanças climáticas, aquecimento global ou coisas desse tipo. Era apenas um desconforto o calor intenso no verão, e o frio do inverno. Também alguns se queixavam das chuvas e do vento em certas épocas do ano, e resolveram incluir isso no documento.

“É para isso que serve a democracia” disse um dos líderes da revolta. O governo publicou uma nota dizendo não ter nada a ver com as mudanças de temperatura, e proferiu se compadecer da indecisão do cidadão de não saber se sai e leva um casaco ou um guarda chuva.

Muitos senhores idosos e frequentadores filas de banco e supermercado se revoltaram contra o documento. Eles alegavam que devia ter mudança de temperatura, senão, não haveriam assuntos nas filas de qualquer lugar.

ONGs que defendem causas ecológicas ficaram felizes, achando que ganharam novos adeptos à sua causa nobre. Publicaram outras notas dizendo que o governo tem muito a ver com as mudanças de temperatura, sim, e começou um papo sobre desmatamento e poluição.

Os assinantes do documento decidiram não se envolver nessas questões complicadas de preservação. Eles só queriam um ar condicionado.

E foi isso que fizeram. Na verdade elas começaram a construir condomínios em prédios gigantescos. Lá elas trabalhavam, viviam e faziam compras. O ambiente sempre na agradável temperatura de 24 graus. Assim ninguém reclamaria de nada.

Porque é assim. Você dá uma solução rápida para quem está incomodado, e ela fica bem até arranjar qualquer outra coisa para reclamar.

Nova Terra

No começo bisbilhotávamos os outros astros do nosso sistema solar apenas por curiosidade científica. Nós, como sereszinhos que exploram tudo à nossa volta desde bem pequenos, continuamos explorando nosso ambiente e outros ambientes com nossos robozinhos.

Apenas por curiosidade, acabamos descobrindo que talvez fôssemos os únicos a sermos vivos, e complexamente vivos, pelo menos nos planetas próximos a nós em nossa galáxia. Descobrimos que existe pouca água por aí no universo. Pelo menos pouca água boa para beber. Até aí, não muito diferente da terra. A questão é que acabamos com a água boa da terra também. Depois de um tempo, acabamos também com a água que não dava para beber. Conseguimos derrubar a máxima “O planeta terra é 70% água” que qualquer paper de “Visite a Terra” diria, mesmo sabendo que ninguém viria nos visitar na terra.

Fomos péssimos anfitriões, e péssimos inquilinos também.

Depois de um tempo, explorar o espaço não era só curiosidade, também, como passou a ser necessidade. Precisávamos de um lugar para morar. Algum lugar quente, mas não muito. Dividido em estações ou regiões sazonais, mas também não muito. Precisávamos de incidência solar, mas bem pouquinha. E precisávamos de água. Muita.

Começamos as excursões para o que chamamos de terra 2. Nome pouco criativo, mas lá tinha água e tudo o que precisávamos para continuar a vida terrestre. Eram alguns anos de viagem, e planejamos tudo certinho. Mandamos primeiro os robôs, depois os trabalhadores braçais que fariam todo o trabalho mais pesado em exoesqueletos. Depois mandamos algumas pessoas que poderiam povoar o planeta, estudar sua geografia de uma forma que os robôs ainda não foram capazes de fazer, e plantar batatas. A essa altura, as humanas já tinham filhos e filhas que nasciam pelo menos um pouco mais habituados à gravidade e ao ambiente do planeta.

Hoje os seres humanos estão super bem, montando suas colônias de férias na Terra 2. Esperam ansiosamente pelo verão, que virá em 152 anos, e promete altas marés nos pequenos lagos da nova terra. O dia, que dura aproximadamente 70 horas, é bem ocupado para todos os novos terráqueos, e contamos com sua ajuda e presença neste novo planeta, para fazer a raça humana crescer e ser alguma coisa novamente, se é que já fomos algum dia.