Náufrago, mas não sozinho

Então ele abriu os olhos, e olhou em volta calmamente. Demorou aperceber que estava na situação que tinha visto muitos personagens em filmes e livros que amava: Ele era um náufrago

Logo pela manhã, enquanto caminhava pela praia, se lembrando das coisas que deveria saber neste caso – não beber água do mar, não comer qualquer coisa que aparecer na frente, cuidado com babuínos e ursos polares da floresta, por exemplo – e procurava algo para ser seu café da manhã, pensou numa possibilidade infalível.

Já vivenciou situações constrangedoras em toda a sua vida como empregado, e depois como sócio, dono e até como turista em outros países. Já sabia o que fazer.

Adentrou a floresta em busca de feijões. Qualquer feijão. No caminho, achou algumas frutas, tentou balançar um coqueiro, atirou pedras em galhos altos para caírem frutos que nunca tinha visto no mercado.

Comeu outras coisas que nunca tinha pensado em comer na vida, e nem sabia se tinham nome. Lembrava do que via nos filmes e livros. Tinha que fazer uma fogueira, uma cabana para se proteger das chuvas, uma lança para se proteger de animais. Mas ele só precisava de um feijão.

Depois de dar voltas dentro da floresta, e quase completar uma volta na ilha, chegou à terrível conclusão de que estava sozinho. A loucura chegaria à sua mente em algumas semanas. Ele precisava se virar com as coisas que o universo lhe dava. E o Universo, ele é infalível.

Achou feijões.

Os comeu. Do jeito que estavam, crus. Fariam efeito mais rápido.

Esperou alguns minutos sentado na areia da praia. Seu estômago agiu como se estivesse colaborando com seu plano.

Peidou.

Exatamente dois segundos depois:

– Marcos! Você por aqui!

Deve Ser Engano

O telefone de Carlos tocou. E tocou e tocou. Ele atendeu.

– Alô?
– Alô, é o Marcio?
– Marcio? Não..aqui não tem nenhum Márcio
– Quem ta falando?
– Carlos. Acho que é engano
– É, que esse número ta marcado aqui como o do Márcio
– Mas não é não, senhor
– Desculpa, então
– Ah, tudo bem
– Tchau
– Hum..tchau

Na mesa do lado, Matheus achou melhor não comentar nada. Reconsiderou e cutucou Carlos.

– Tudo bem, cara?
– Tudo.
– Você tava mandando mensagem pra alguém?
– Não, não. É que me ligaram. Mas era engano.

Matheus achou melhor não contrariar. Reconsiderou.

– Cara, não é a primeira vez que acontece, e o pessoal do escritório já percebeu…se você quiser parar um pouco, esticar as pernas, sei lá…fica tranquilo
– Não, foi só uma ligação aqui. Era engano.
– Não, Carlos. Ninguém te ligou, não.
– Ligou sim. Queria falar com um tal de Márcio.
– Tá no silencioso?
– Não tá, aqui olha… Ô Rafa, não tocou aqui, agora a pouco?

Rafa subiu o olhar por sobre a baia de frente a de Carlos. 

– Não tocou não, cara.

Olhou no registro de chamadas, e não havia ligação nenhuma.

Carlos viveu cerca de sessenta anos depois deste ocorrido, passando sequer um dia sem pensar nas coisas que aconteciam só pra ele e mais ninguém.

Caro amigo golpista

Caro senhor golpista,

Primeiramente, meu nome não é Antônio. Desculpa gastar parte do seu pacote de SMS, mas eu entendo que é um investimento. De quatro ou cinco mil SMS que o senhor manda por dia, pelo menos uns trezentos são Antônio. E pelo menos duzentos desses estão devendo a alguém. Antônio é um nome muito mais comum que Pedro, por exemplo. Achar alguém que deve à Crefisa deve ser mais comum ainda, imagino.

Se eu me chamasse Antônio, esperaria que a Crefisa soubesse, pelo menos, meu sobrenome. Se eu estivesse alguém devendo pra mim, eu tentaria saber tudo sobre a pessoa antes de cobrá-la assim, descaradamente. Como você sabe, existe um código de ética quando falamos sobre dinheiro.

Além disso, a falta de acentuação me irrita. Unica tem acento, senhor extorsor. Acento agudo. Se escreve “Oportunidade única“. Mesmo se eu realmente estivesse devendo à Crefisa, faria total questão de perder qualquer oportunidade “unica” – sem acento – mesmo se fosse “so hoje” – também sem acento.

Caríssimo senhor charlatão, saiba que não se coloca espaço antes do ponto. É assim. Ponto e o ponto depois. Sem espaço.

Tampouco costuma-se colocar espaço entre o cifrão e o número, mesmo que o valor seja o que o senhor deseja roubar.

Infelizmente não tenho interesse em cair no seu golpe barato (e sem acento), mas fica aí pra uma próxima oportunidade.

PS: Se essa foi uma mensagem real da Crefisa, você deveriam checar melhor os telefones de seus clientes.
PS2: Se você se chama Antônio fica esperto, que tem gente querendo arrancar dinheiro de você
PS3: Se essa mensagem foi real, e você se chama Antônio, e está devendo para a Crefisa, corra atrás dos seus direitos.

Promo

Eu estava terminando o rascunho de um texto que, muito provavelmente, não viria para o blog. Usava uma caneta esferográfica bic azul com pouca tinta que achei no escritório do meu pai.

O rascunho do texto estava ficando bem mais ou menos. Faltavam apenas algumas linhas quando..a caneta…começou a falhar.

Dei aquela chacoalhada de leve, como se chicoteasse a tinta para a ponta. Todo mundo sabe que isso não resolve. Tentei rabiscar o cantinho da folha, pra ver se a tinta voltava. Tirei a caneta do tubo, e estava mesmo vazio.

A porta abriu. Entraram dois caras com iluminação de estúdio, um com uma câmera de TV. Uns moços trouxeram um telão verde e colocaram atrás de mim. Já não cabia quase ninguém quando entrou a diretora e um repórter representante da Bic. Ele deu duas batidinhas no microfone. A diretora deu sinal e, ele gritou:

– Parabéns! Você foi o primeiro do universo a terminar uma caneta bic!
Eu não entendi muito bem o que estava acontecendo. As luzes vieram bem forte na minha cara. Ele começou a falar algumas coisas sobre a história das canetas.

Eles fizeram algumas perguntas, eu nem lembro muito bem o que respondi, e já iam indo embora, recolhendo cabos e equipamentos, quando gritei:

– Moço!
– Pois não.
– O senhor…teria uma caneta pra me emprestar?
– Ah, claro.

Ele tirou de seu terno azul uma maravilhosa caneta Stabilo hidrográfica que uso até hoje.

Show do Brasil

Ninguém entendeu muito bem o que estava acontecendo quando uns gringos chegaram de van, instalando câmeras nos postes de toda a cidade. As vans tinham adesivos de emissoras de televisão, também todas gringas. Os repórteres e técnicos que desciam, com seus equipamentos gringos, eram todos com cara de pessoa de outro país. O que parecia ser o diretor de jornal ou de filme de hollywood dava ordens de posição de câmeras, e onde ficariam os microfones.

Depois chegaram caminhões com banners verdes, bonecos infláveis e cartazes de propagandas. Os moradores do bairro, e os que passavam no centro começavam a especular o que estava acontecendo, mas nada diziam os técnicos enquanto instalavam câmeras e cartazes, além de palavras em outro idioma. Os banners verdes enormes deviam ser para inserirem propaganda depois que gravarem, disse alguém. Isso aí é coisa de espionagem russa, disse outro alguém.

O seu Neno do bar disse que quando teve gravação de filme na rua, eles foram lá no bar dele, pediram autorização e tudo. Não foi assim, desse jeito, sem nem explicação.
Os repórteres aqui da cidade estavam consultando seus livros da faculdade para saber quais eram os códigos éticos do jornalismo ao entrevistarem outros jornalistas. Ao menos é o que pareciam ser.

Depois que instalaram todas suas infra-estruturas, subiram novamente em suas vans, e foram embora. Ninguém, realmente ninguém entendeu o que aconteceu. As câmeras ficaram lá, vigiando todo mundo. Os microfones também.

Dois anos depois saiu um ótimo documentário na BBC sobre a vida dos brasileiros, e como eles faziam para sobreviver sendo, essencialmente, brasileiros.