Ladrão mal intencionado

Invadiram a casa do seu Rodrigo.

Seu Rodrigo é vizinho dos meus pais. Ele mora sozinho desde que o pai morreu. É cozinheiro aposentado. Ele tem muitos amigos que gostam de vir visitar. Fica conversando na calçada com todo mundo até tarde da noite.

Às sete horas da noite ele saiu pra fazer um jantar. Quando voltou, por volta das onze horas da noite, o cadeado estava quebrado. O vidro da janela também. Entraram na casa do seu Rodrigo.

Ele correu do lado me chamar, e seus amigos estavam lá também. Eu liguei todas as luzes da casa. Verifiquei perto do muro pra ver se o meliante passou para o lado de casa. Não passou. Ele levou uma cadeira pra perto do muro do outro lado, e por ali deve ter saído. Levou um rádio, um barbeador e uns kilos de linguiça que estavam no refrigerador.

Espera aí…o que ele levou?

Isso mesmo. Uma caixa de som, um barbeador e linguiça. O que você precisa para fazer uma festinha, ter comida na churrasqueira e estar apresentável pras visitas? Bom, eu não quero me precipitar aqui, mas imagino que o ladrão que entrou na casa do seu Rodrigo tinha um objetivo. Ele era um ladrão com foco, comprometimento.

Às vezes ele nem queria vender para comprar drogas, não. Vai ver ele nem tava precisando de dinheiro pra pagar alguma dívida. Era um ladrão ainda mais mal intencionado que o normal.

Querido Jerry

O dia em que eu fui expulso do meu próprio quarto.

Eu estava prestes a dormir, caindo no sono ao mesmo tempo em que caia uma garoa fina. Aos poucos fui ouvindo um barulho que se parecia com o da garoa, mas muito mais…superficial. E mais próximo que as gotas que lá fora caíam. Levantei, e liguei a lanterna do celular. Apontei para a cômoda, embaixo da cama, a poltrona. Nada.

Devagar, me aproximei do guarda roupas apontando o facho de luz para a fresta que ali existia. E ali estava. Um pequeno roedor fazendo barulhinhos com o plástico, como estivesse se divertindo. E estava, até minha luz atrapalhar sua brincadeira. Ele olhou para mim, para o plástico. Eu olhei pra ele, para a fresta do guarda roupa. Ele correu para o outro lado, e deu a volta no móvel grande, fazendo-se perder de vista. E perdi. A vista, a calma, o sono.

Os momentos seguintes passei tomando um resto de refrigerante, e procurando na internet como fazer uma ratoeira com garrafa pet. Fiz a armadilha para o pequeno camundongo e deixei ali, na fresta do guarda roupa, na esperança que ele cedesse ao delicioso cheiro de um pedacinho de carne dentro da garrafa.

Ali eu não dormiria. U-hum. Não mais.

Eles usavam ratos em tortura na Idade Média. Além disso a peste bulbônica tá aí voltando a todo vapor. Vai que ele vem cheirar meu nariz no meio da noite? Não durmo nesse quarto com esse rato nem morto.

Peguei meu notebook, meu celular e fui pra sala. Dormi no sofá. Fui expulso do meu quarto por um roedor que, nos dias seguintes, movimentou a casa e transformou num período de férias de caça ao rato.

Atenção, nenhum animal foi ferido na transcrição deste texto. Até o momento de publicação, nenhum roedor do esgoto foi capturado.

O vermelho patenteado

O lucro da montadora cresceu cerca de 12% no último ano. Segundo os números do fechamento cerca de 40% do crescimento da empresa veio de processos e resultados de entradas em fóruns, devido à decisão controversa de patentear a cor vermelho.

E não é simplesmente qualquer vermelho, mas sim o vermelho da próxima frota de carros que sairá por volta de novembro deste ano. Algumas marcas e agências desavisadas usaram o mesmo vermelho em campanhas e logos, e foram processadas. O mesmo aconteceu com inúmeras empresas que usaram o tom de vermelho para uniformes e campanhas publicitárias.

A montadora disse estar ciente da controvérsia que é patentear uma cor, mas ela acredita que a próxima frota de carros ficará marcada com a cor, no exato tom de vermelho patenteado, e acredita estarem fazendo o certo para o branding da empresa e do novo modelo.

Também disse que se preparou para o ocorrido, contratando o máximo número de advogados e estando atentos a marcas ou bancos de imagens que usarem o tom de vermelho patenteado.

Algumas poucas empresas conseguiram não sofrer processo, ou ganharam causas por argumentarem que o vermelho que usaram era um pouco puxado para o verde, ou tinham alguma porcentagem de ciano que o vermelho patenteado não tinha. Ainda outras conseguiram vencer causas por dizerem que o vermelho patenteado é metálico, enquanto o que eles usaram era digital ou fosco.

Por enquanto não saíram fotos, nem material promocional ou propagandas sobre o novo modelo do carro que levará a cor vermelha patenteada, mas com certeza ele já trouxe mais lucros para a montadora do que muitos outros fizeram.

Quebrando a Quarta Parede

– Ah, finalmente você acordou.

Os dois estavam em uma sala escura com ladrilhos brancos e azuis.

– Quem é você? Onde nós estamos?
– Acalme-se, rapaz. Está tudo bem. Eu me chamo Lírico. Não vou te machucar. Estamos juntos aqui – disse, abrindo os braços e apontando para as paredes frias da imensa sala branca e azul.

– Que lugar é esse?
– Não se preocupa. Já já estaremos longe daqui. Esse é o blog do Pedro.
– Blog de quem?
– Não importa. A questão é que ele se só se deu conta que não tinha texto pra hoje às 9h da manhã, e teve que escrever um texto correndo só pra não passar em branco. – disse, mostrando um calendário enorme em uma das paredes.

– Texto..nós estamos dentro de um texto, presos aqui? – Começou a tocar as paredes.
– Mais ou menos. É só enquanto as pessoas ali leem, olha só…

E eles caminharam por uns passos até verem uma janela.

– Tem alguém lendo isso aqui?
– Claro que tem. Acene para eles.

O mais jovem acenou. Você, logicamente, não acena de volta.

– E quando nós vamos embora? Demora muito?
– Geralmente, não. Ele só precisava de um texto rápido pra hoje. E também ele acha que quebrar a quarta parede faz ele parecer inteligente, igual falar sobre viagem no tempo ou psicologia, essas coisas…
– Hum…
– Agora. Está acabando. Conte comigo…um…dois…
– O quê? – perguntou o mais jovem.

E o mais velho desapareceu. O personagem restante gritou e berrou, mas não havia mais ninguém para ler…

Robô Pedinte #1

Naquela esquina estavam o semáforo, os carros autônomos passando, e o asfalto cansado de tudo aquilo. Ninguém questionou a existência de um semáforo em pleno século XXI, mas também, ninguém notou a presença dele ali. Todos estavam bem atentos às telas de seus dispositivos.

Tanto que não notaram, os transeuntes que por ali passavam, um robô sentado no chão. Era de uma lataria antiga e parecia ser daqueles feitos de ferro. Imersos em suas lentes e telas, e presos a seus fones e dispositivos, não conseguiam ouvir o que aquele pequeno robô parado na esquina tinha a dizer.

Menos o Maicon, que esqueceu o powerbank em casa, e o seu celular já acabou a bateria bem no meio da reunião da empresa. Ele já estava chateado e entediado, porque há décadas todo mundo sabe que ninguém presta atenção em reuniões de empresas, e somente ele teve que prestar atenção, já que não tinha bateria.
Depois de ter recebido uma promoção por isso, saiu em busca de um powerbank ou um carro autônomo para levá-lo para casa. E foi naquela esquina em que ouviu as palavras robóticas vindo do seu lado direito “pode d-dar uma ajudinha, por favor?”

Não dá pra explicar se era a cor da sua lataria enferrujada, o fato de ele ser um modelo super ultrapassado, ou dele estar exatamente ali naquela esquina onde só passavam pessoas presas em suas telas ou carros. Não era o seu discurso, pedindo dinheiro em qualquer quantia, ou qualquer outro tipo de ajuda.

Ele estava lá todo o tempo, mas ninguém percebeu.