Sobre vizinhos e etiqueta

Uma coisa explícita sobre as regras de comportamento é que elas não são explícitas.

Nós somos seres complicados. E isso é totalmente compreensível, se você levar em conta os milhares de anos que vivemos em civilizações aprendendo a lidar um com os outros. Nós criamos regras muito bem definidas de como devemos nos comportar quando estamos sozinhos, ou, ainda mais, acompanhados de outras pessoas. “A ética“, já dizia a professora de filosofia, “é o conviver dentro de casa“. Isso depois de explicar que “filo sofia” é o amante do conhecimento. No final fica bem claro que não aprendemos coisa nenhuma.

Tudo bem criarmos regras pra sobreviver em grupo. É isso que nos difere dos outros animaizinhos desse planeta enorme. O problema aqui é que as regras não são explícitas nem diretas. Elas não são escritas em um código de regras que se aprende em casa ou na escola. Você vai aprendendo durante a vida. E essas regras de comportamento podem ser diferentes de acordo com o lugar onde você mora, ou a pessoa com quem você está se relacionando. É complicado demais.

Complicado demais, mesmo para seres humanos complexos.

Eu me mudei há mais ou menos dois meses. E a questão aqui é que eu não me apresentei para meus vizinhos na primeira semana em que me mudei. Também não me apresentei nas semanas seguintes. Ele tem uma esposa, duas filhas e um gato. E agora, morando há dois meses aqui e vendo eles todos os dias de manhã e de tarde, fica difícil perguntar o nome deles a essa altura. Fica chato eu perguntar agora.

O ser humano é complicado demais. Essas regras de comportamento. Eu só queria fazer uma amizade…

O que não se fala

– Há quanto tempo a gente não se vê, Miguel?!
– Fala, Fernando!
– Como é que você tá?
– Ah, eu tô bem. Quer dizer, levando, né…
– Por quê? O que aconteceu?
– Então..as coisas estão bem difíceis desde que a Angela…
– A Angela..o que?
– Ela… você sabe, né. Nós tomamos a decisão junto, mas ela que..
– Separou?
– É
– Poxa vida, cara. Não sabia disso. Há quanto tempo aconteceu?
– Ah, foi um pouco depois da minha vó…
– Hum
– Acontece, né, cara.
– A sua vó o que, Miguel?
– Ela já não tava bem..
– Ela separou também?
– Não, cara. Ela…Tava doente
– Poxa, Miguel.
– Pois é
– Sua vó morreu?
– Foi

Miguel começou a chorar.

– Caramba. Tudo bem, mano. Vai ficar tudo bem.
– Vai sim. As coisas começaram a mudar depois que eu…
– Eita, Miguel
– Eu…
– Você o quê, Miguel? Caramba!
– Eu não tava indo bem no serviço e…
– Ah, você foi demitido. Eu fiquei sabendo
– Ficou?
– Sim sim, eu encontrei com o Ronaldo
– O Ronaldo?
Fernando tirou um lenço do bolso, suspirando. Seu amigo voltou a chorar.

Ronaldo não estava bem.

E, pelo visto, Miguel também. Mas isso é daquelas coisas de que não se fala.

Coisas que dizemos para o universo

– Tá, tá bom. Pode ir – disse o universo

Lucas se assustou. Não esperava uma voz vindo sabe-se lá de onde respondendo sua afirmação com pouco nexo.

– Oi?
– Pode ir no banheiro. Na verdade eu nem ligo muito.
– Hãn? – Disse Lucas tentando identificar de onde vinha a voz. Todos estavam na cozinha, e ele estava no corredor, em frente ao banheiro.

– Você disse “eu vou no banheiro“. Eu vi. Na verdade eu sempre vejo.
– Falei.
– E você não falou alto o bastante para ser alguém específico, mas também não falou no pensamento. Não foi?
– … É, foi…
– Então – suspirou – imagino que foi para mim.

Lucas começou a procurar nos quartos dos irmãos, mas não achou de onde a voz vinha.
– Você caiu ontem na rua, Lucas

Paralisou.

– Caí?
– Caiu sim.
– Em frente a loja da Márcia.
– Foi mesmo.
– E o que você disse depois de cair?
– É…que…que era uma pedrinha no chão.
– E pra quem você disse isso, Lucas? Foi pra alguém em específico?
– Não, na verdade foi pra…pra, sei lá.
– Pro universo.
– Isso.
– Eu sou o Universo, Lucas.
– Eita – se encolheu no canto do corredor.
– E sabe o quanto eu ligo pra você caindo no chão, indo no banheiro, ou fazendo qualquer coisa errada enquanto dirige?

Lucas se encolheu mais ainda. Parecia ser a primeira pessoa a levar uma bronca do universo, e não sabia como funcionava.

Se fosse igual às broncas da sua mãe, a pergunta era retórica, e se ele respondesse tomaria logo um tapa. E não queria tomar um tapa do universo. Mas ali estava, no corredor, na porta do banheiro.

– Lucas, cê tá bem, meu filho?

Era o pai dele. O universo, pelo visto, tinha ido embora.

– Ah, tudo bem, pai. Eu só vou no banheiro rapidinho…

Náufrago, mas não sozinho

Então ele abriu os olhos, e olhou em volta calmamente. Demorou aperceber que estava na situação que tinha visto muitos personagens em filmes e livros que amava: Ele era um náufrago

Logo pela manhã, enquanto caminhava pela praia, se lembrando das coisas que deveria saber neste caso – não beber água do mar, não comer qualquer coisa que aparecer na frente, cuidado com babuínos e ursos polares da floresta, por exemplo – e procurava algo para ser seu café da manhã, pensou numa possibilidade infalível.

Já vivenciou situações constrangedoras em toda a sua vida como empregado, e depois como sócio, dono e até como turista em outros países. Já sabia o que fazer.

Adentrou a floresta em busca de feijões. Qualquer feijão. No caminho, achou algumas frutas, tentou balançar um coqueiro, atirou pedras em galhos altos para caírem frutos que nunca tinha visto no mercado.

Comeu outras coisas que nunca tinha pensado em comer na vida, e nem sabia se tinham nome. Lembrava do que via nos filmes e livros. Tinha que fazer uma fogueira, uma cabana para se proteger das chuvas, uma lança para se proteger de animais. Mas ele só precisava de um feijão.

Depois de dar voltas dentro da floresta, e quase completar uma volta na ilha, chegou à terrível conclusão de que estava sozinho. A loucura chegaria à sua mente em algumas semanas. Ele precisava se virar com as coisas que o universo lhe dava. E o Universo, ele é infalível.

Achou feijões.

Os comeu. Do jeito que estavam, crus. Fariam efeito mais rápido.

Esperou alguns minutos sentado na areia da praia. Seu estômago agiu como se estivesse colaborando com seu plano.

Peidou.

Exatamente dois segundos depois:

– Marcos! Você por aqui!

Só uma reclamação

Nós, seres humaninhos, chegamos a um patamar excelente nas revoluções sociais e tecnológicas de tudo que nos distancia dos demais animais que convivemos.

Temos o ar condicionado, que nos possibilita controlar a temperatura artificialmente por meios naturais de pressão e compressão do ar. Temos a rede de internet e telefonia, que conecta todos na empresa sem saírem de seus assentos, permitindo até mesmo que eu peça para a recepcionista avisar para meu colega de sala que foi pegar café, trazer um copo para mim também.

Olha só, pessoal. Algumas coisas nos aproximam mais de outros animais do que podemos, um simples vislumbre, pensar.

Quem já teve gato sabe que precisa ter uma caixinha de areia. Seu gato vai até lá, faz suas necessidades e as cobre cuidadosamente com areia.

Quem tem cachorro sabe que precisa ter uma pazinha e uma vassoura prontas para qualquer surpresa que seu cachorro deixar bem frente à porta de entrada da casa. Eles ainda fazem um movimento com as patas, como se estivessem limpando o local, por pura sensação de higiene.

Quem aí é humano, e está me ouvindo aqui, nós fazemos nossas necessidades em vasos sanitários. É para isso que evoluímos tanto social e tecnologicamente, inclusive. Para o maior conforto ao momento de suprirmos nossas necessidades mais básicas. Falando nisso, parabéns a todos os seres humanos envolvidos na descoberta e fabricação da cerâmica, até hoje! Continuando…

O bicho homem, antes de tudo, é um ser social. A gente precisa de aceitação, galera. Não é?

É neste ponto que chegamos à finalidade disso tudo, meus amigos. Na busca de aproveitar melhor o espaço da empresa, colocaram a Natália do Telemarketing na frente do banheiro do segundo andar.

Ah não. Aqui é o limite. É muita pressão

A gente precisa de um pouco de espaço e privacidade antes e depois de fazermos nossas necessidades. É uma questão básica de sobrevivência em sociedade. Vocês não concordam?

Depois de um silêncio na sala, eu respirei fundo. O chefe limpou a garganta, e disse “obrigado pelo seu ponto, Rodrigo. Vamos ver o que podemos fazer a respeito. Mais alguém tem alguma reclamação? Não? Terminamos aqui a reunião da empresa. Estão dispensados. Até segunda-feira”