Planos jogados

Eu estava animado para 2020.

Nos primeiros quinze dias do ano eu fiquei bastante tempo sozinho. Aprendi a cozinhar coisas básicas, organizei um planner (ou bullet jornal), comecei a escrever um diário. Aprendi coisas novas no violão e no computador. Planejei coisas para este meu blog. Voltei a fazer exercícios.

Não só voltei a fazer exercícios, como comprei um tênis de caminhada, fui na academia e fiz minha matrícula. Viu como eu estava animado para 2020? Então calma.

Eu assinei seis meses de academia adiantados. Semanas se passaram, e eu mantinha meu planner em dia, bem como meu diário e os planejamentos para o blog. Ao final de Janeiro eu ainda ia à academia 5 dias por semana, escrevendo e lendo bastante quase todos os dias.

E, se você fez as contas, caro leitor…a minha assinatura da academia venceu ontem, dia 13 de julho. Até ontem eu poderia ir à academia, porque tinha pago mensalidades que me manteriam indo todos os dias.

Por volta do dia 13 de março, a pandemia do coronavírus já estava perdendo o controle, e o estado entrou em quarentena. Foram exatos dois meses sem perder academia. Perdi 2 dias, para ser justo.

Depois disso não saí mais de casa. Tampouco fiz exercícios em casa.

O meu planner? Está ali jogado no canto do quarto. O diário eu mantenho, junto com um restinho de sanidade. Dos meus planos para 2020, a maioria se foram junto com meu ânimo para vivê-lo.

Pelo menos, toda semana, nos vemos por aqui.

Obrigado.

Só me certificando

Rolando o Feed do Facebook, alguém publicou uma informação: 110 milhões de doses de Cloroquina estavam sendo exportadas para o Reino Unido. Eu abri uma nova aba no navegador, e pesquisei United kingdom chloroquine.

Três palavras. O post do Facebook não continha dados, data ou mesmo qualquer informação, além de uma piada sobre a eficácia do medicamento (que não deve ser discutida aqui).

Nos primeiros resultados de buscas, um link para o jornal do Qatar Al Jazeera, e o principal canal do próprio Reino Unido, a BBC. Duas matérias bem recentes, publicadas há poucos dias. As duas matérias confirmam o mesmo fato. Estudos seriam iniciados ao fim de maio de 2020, dirigidos pela universidade de Oxford, onde mais de 40 mil infectados por Covid na Europa, Africa, Ásia e América do Sul, seriam testados para a efetividade da cloroquina e hidroxicloroquina no tratamento.

A busca pelo medicamento cresceu muito nos meses de abril e maio, especialmente depois do presidente Donald Trump ter indicado que está usando a droga para prevenção da Covid – lembrando que, semanas antes, o mesmo recomendou o uso e consumo de desinfetantes para o tratamento.

Enfim, um professor da universidade disse que não há dados suficientes para definir que quaisquer desses medicamentos são efetivos quanto ao tratamento ou cura da Covid. Por isso milhares de doses serão administradas nos países e hospitais que permitirem o estudo.

A conclusão disso tudo é: Você tem acesso a informação de qualidade.

Série – Contágio

“Por enquanto tá tranquilo. Não tem nenhum caso confirmado aqui na cidade ainda” alguém argumenta para evitar, ou furar o isolamento social. Mas a Covid-19 chega para todo mundo, especialmente na situação em que Brasil se encontra.

Toda semana, aqui no blog, é publicado ao menos um episódio da série Contágio, que mostra como a Covid-19 pode chegar mesmo às cidades pequenas do interior. O primeiro episódio acompanha Carlos, um entregador de uma distribuidora de bebidas, e um pequeno desconforto que sentiu, por ser um transmissor assintomático do novo coronavírus. A partir da entrega em apenas um mercado pequeno, acompanhamos uma das cadeias de transmissão do contágio de uma pequena cidade, que poderia ser a sua.

Ao ler os episódios da série, identifique onde os personagens foram descuidados. Onde poderiam ter evitado o contágio e onde acabaram transmitindo o vírus. Faça o possível, nas próximas semanas e nos próximos meses, para não se contaminar, e não contaminar outros.

Leia a série Contágio, no link abaixo:

Episódio 1

Episódio 2

Episódio 3

Episódio 4

Episódio 5

Eu sou um lembrete

A partir do dia 20 de abril de 2020 eu passei a sair de máscara preta em lugares públicos ou com maiores aglomerações. Vou repetir: Eu uso uma máscara quando saio de casa. Uma máscara preta.

Algumas pessoas olham ainda com cara de assustadas. Outras olham como se eu fosse maluco alarmista, afinal existem poucos casos na cidade. Existem ainda as pessoas que também usam máscara, e olham com certa empatia e identificação.

Eu não estou usando máscara somente para evitar ser contaminado. Até porque, as máscaras caseiras não tem a mesma eficácia de máscaras de profissionais de saúde. Não estou usando máscara só para não transmitir o vírus a outras pessoas. Se quem estivesse contaminado usasse máscara, com certeza os números seriam diferentes, mas este não é o caso. Estou usando máscara em lugares públicos porque eu sou um lembrete.

Eu sou um lembrete de que a humanidade de janeiro de 2020 já passou, e não vai mais voltar. Os planos, as ideias, os costumes e até mesmo hábitos populares e o contato entre as pessoas não é mais o mesmo, e não será o mesmo de 2019 nunca mais.

Eu sou um lembrete de que estamos num novo normal. Esta não é uma fase que #vaipassar logo, e todos estaremos novamente enchendo estádios e cinemas da mesma forma que fazíamos antes. Eu sou um lembrete que o mundo mudou.

E quem está vivendo suas vidas como se nada tivesse acontecendo, ou continuou normalmente no trabalho, no churrasquinho do fim de semana, na confraternização entre família e colegas, me vê e faz cara de assustado.

Para as inúmeras Dorothy’s e Totós com o qual me deparo na rua, eu uso máscara como um lembrete, caro leitor, de que não estamos mais no Kansas.

O mundo mudou. E não tem mais volta.

#ficaemcasa

Contágio #6

Episódio anterior

 – Pai, eu trouxe para o senhor e pra mãe – disse a filha do seu Odair. Eram máscaras que ela mesma fez, junto com sua sobrinha, no último fim de semana. 

  – Não vou usar isso aqui, não – disse seu Odair. 

E o resto do dia foram discussões sobre a máscara afastar os clientes, e não ter casos confirmados na cidade ainda, ou que não é uma gripezinha que vai matar seu Odair, que já sobreviveu a um câncer. 

As vendas do seu mercadinho não caíram tanto quanto pensava. Com os grandes mercados proibindo a entrada de mais de uma pessoa por família, e alguns outros comércios começando a serem multados por não respeitarem a lei da quarentena, muitas pessoas preferiram comprar em mercadinhos menores como o do seu Odair. 

Finalmente, chegou o carregamento de álcool gel. Depois de ter zerado o estoque, e ele ter ligado várias vezes para o fornecedor. 

  – Só assinar, seu Odair Ribeiro?  – perguntou o homem enorme, de máscara. 
  – Isso mesmo 
  – Assine aqui. E aqui – apontou para o papel, deixando em evidência suas luvas brancas. 

Antes de entrar no caminhão, o homem tirou as luvas com muito cuidado, e passou álcool em gel nas mãos. Esterilizou o painel e o volante. Procurou na lista qual seria sua próxima entrega. 

Seu Odair observou, da entrada do mercado. A rua parecia vazia para qualquer lado que se olhasse. 

Voltou para trás do caixa, e colocou a máscara. Se encaixou perfeitamente em seu rosto. Olhou lá para o fundo, e a filha passava pano em um dos corredores, também usando máscara e luvas de limpeza. 

Tudo parecia tranquilo, até então. 

Assim, menos pessoas seriam contaminadas.