Mosquito Fascista

Um experimento biológico reiniciou discussões por todo o país. A decisão polêmica passa hoje pelo comitê de ética do estado para ser aprovada ou rejeitada. Confira a matéria de Renan Marques…

“Estudantes e cientistas do Instituto de pesquisa da Faculdade Estadual fizeram um trabalho um tanto quanto…polêmico. O cientista e reitor da universidade, Roberto Fernandes nos explica mais sobre este experimento”.

“Nós conseguimos mudar geneticamente o mosquito da Dengue, e ao invés de listras, agora ele tem pequenos símbolos da suástica nazista por todo o corpo.”

“Qual foi o objetivo deste experimento, Doutor?”

“Bom, queríamos provar o quanto conseguiríamos mexer no DNA de diferentes espécies. Estudos ao redor do mundo fazem isso. Já fizemos coelhos que brilham no escuro, ratos que resolvem equações matemáticas, e agora temos o Mosquito Nazista”

“Ao aprovar este trabalho de estudantes e pesquisadores, o senhor imaginou como isso afetaria a opinião pública?”

“Com certeza. Entramos em contato e fizemos discussões com os doutores das matérias humanas aqui da faculdade para entender o impacto social do experimento. Também fizemos uma pesquisa entre alguns que frequentam o campus, e foi positivo. Acreditamos que é importante alertar a todos sobre os perigos da Dengue, o Neonazismo, da Zika, e outras doenças que estes mosquitos disseminam, e queríamos chamar atenção para este problema.”

“Alguns dizem que a suástica no novo mosquito foi uma provocação a alguns grupos de direita. O senhor confirma este fato?”

“Olha, pesquisadores e cientistas de vários espectros políticos estavam envolvidos no trabalho. Só queríamos passar a mensagem de que existe um perigo, ele pode ser evitado e só depende de nós. Não deixar água nem cabeças paradas. É isso.”

“Muito obrigado pela entrevista, Doutor Fernandes. Na tarde de hoje será votado no conselho de ética sobre a aprovação da distribuição do novo ‘design’ do mosquito. Enquanto isso, já circulam possíveis nomes para ele na internet, e os mais votados são Aedes Nazigypt e Nazika Vírus.

É com você, Evaristo.

Terapia da Linguística

Um novo método revolucionário, e inusitado, de terapia está ajudando muitos casais em crise, e tem chegado no Brasil com força nos últimos meses. Ele recebeu o nome de Terapia da Linguística, e já foi adotado por casais de diferentes idades, e problemas diferentes, inclusive alguns casais famosos. É isso mesmo, Aninha?

– É isso mesmo, Fátima! O Método é uma junção da ciência da Psicologia com as Linguagens, e vem sido estudada há muitos anos pela maioria das escolas de psicologia, e tem sido posta em prática nos últimos anos lá fora, e chegou aqui recentemente. Estamos aqui com o psicólogo Raj Abdu, que vai nos explicar melhor esse tipo de terapia. Como funciona essa terapia da Linguística, doutor?

– Muito bem, Ana… É assim. A maioria dos casais briga, e não sabem porque estão brigando. Isso acontece muito. Então o que fazemos? Colocamos uma pessoa de outro idioma no cotidiano do casal. Na casa deles. Na cozinha ou na sala. Essa pessoa tem outra cultura, outro idioma, e pra ela a briga faz menos sentido ainda!

– Olha só, muito interessante, doutor…Mas qual foi o estudo que originou essa técnica, como que nasceu esse tipo de terapia Linguística?

– É simples, Ana. Olha. Você briga. Palavras saem da sua boca. São somente sons, que seu marido, esposa, entende e devolve outros sons. Um haitiano vendo você gritar com seu marido, por exemplo, não entende. Ele dá risada. Repete palavras que, pra ele, são engraçadas. A briga, em si, se dilui. O casal entende que brigar não faz sentido. São só barulhos. É magnífico!

– Excelente, doutor! É isso aí…A terapia dá super certo por aqui. O que você achou, Fátima?

Agentes do Futuro

No meio da aula de Semiótica, Beto virou para trás e continuou a conversa com Rafa …

– Mas e se o universo já aconteceu?
– Como assim?
– Exatamente tudo, desde o começo até o final, já teria acontecido, e então nenhuma viagem no tempo mudaria nada.
– …

Pegou uma folha do caderno e uma caneta. Fez um desenho de uma linha com algumas setas, e apresentou para seu amigo.

– Aqui. Imagina que essa é a linha do tempo, e tudo isso já aconteceu. Estamos aqui. Se alguém do futuro viajar para cá, quem é do futuro do futuro não vai sentir diferença nenhuma…

Rafa fez silêncio. Estava pensando em todas as possibilidades que essa teoria lhe apresentava. Beto continuou:

– Isso explica existirem pessoas extraordinárias.
– Agentes do futuro?
– Agentes do futuro!
– E que diferenças fariam?

Parou uns segundos. Respondeu:

– Imagina que o Michael Jackson seja do futuro.
– Quê?
– Michael Jackson…ele poderia ser um cantor ordinário do pop de 2052 que veio para cá para ser o Rei do Pop.
– E ele veio pra cá quando criança?
– Ah é, ele não funciona.
Pensou, pensou.
– Thomas Edison!
– Hum…
– Ele veio do futuro, inventou a lâmpada e um monte de outros negócios, e não conseguiu voltar, ficou por aqui mesmo.
– O que ele ganharia com isso?
– Talvez ele, no futuro, soubesse que Thomas Edison do passado inventou as coisas e, como já sabia como essas coisas funcionavam, voltou no tempo para inventar essas coisas.
– E patentear todas elas.
– Exatamente.
Depois de um tempo considerando a teoria como válida, Rafa respondeu:
– Ainda não faz sentido.
– Por quê?
– Como o Thomas Edison do futuro sabe fazer uma lâmpada se foi preciso que voltasse no tempo para a inventar?

Beto parou para raciocinar com base na sua própria teoria. Estava sendo desafiado pelos seus próprios raciocínios, e depois começou a pedir revanches, até que respondeu:

– Simples. No século 17 Thomas Edison aparece. Puft. Então ele inventa os negócios dele, e ninguém sabe de onde ele veio. Ele inventa uma história, que nasceu numa familiazinha em Ohio e tal’s. Abre uma empresa e pow! – Rafa riu – Então ele não consegue voltar para seu tempo. Fica preso aqui.
– Ainda não respondeu a pergunta.
– Calma aí. O Thomas Edison do futuro nasceu, estudou física quântica e matérias futurísticas, e trabalhou na invenção da máquina do tempo.
– Hum…
– E de repente, um dia normal do futuro, ele some.
– E aí?
– E aí que ele tá no passado, vivendo um monte de coisas que já aconteceu
– E a gente também?
– A gente também.

Beto sentiu que conseguiu vencer a conversa, e virou para a frente.

O professor falava alguma coisa sobre a relação e a percepção dos homens com experiências, eventos e fenômenos da natureza.

Viajar para o passado

No meio da aula de Antropologia, Rafa estava inquieto com muitos pensamentos. Cutucou Beto.

– Cara, você acha que a viagem no tempo é possível?
– Uhum.
– Tá, mas como?
– Cientificamente?
– Cientificamente.
– Cara, aí fica difícil.

Beto parou para pensar na possibilidade. Inventou algumas fórmulas malucas na cabeça.

– Ok, pela relatividade, nós podemos viajar para o futuro. Se alguém chegar à velocidade da luz, o tempo vai passar diferente para ele, e é isso.
– E para o passado?
– O que tem o passado?
– Viajar para lá.
– Deve ser possível também.
– Mas..como?

Pausou por uns instantes para formular uma nova ideia.

– Se você viajar para o futuro, chegando lá vai ter tecnologia e conhecimento para viajar para o passado.
– Tá, mas precisamos saber como chegar na velocidade da luz primeiro.
– Exatamente.
– Não faz sentido.
– Faz completamente sentido, Rafael

Virou para frente, rabiscou umas setas e fez umas indicações num desenho.

– Aqui. Nós estamos viajando no tempo neste exato momento. Mas só conseguimos viajar pra frente.
– Isso.
– A gente quer viajar para trás
– É.
– Então é só descobrirmos do que o tempo é feito pra gente modificar ele, e viajar para trás.
– Mas o tempo não é matéria, cara.
– Não sabemos disso.
– É óbvio
– E se for uma matéria que ainda não conseguimos controlar.
– Faz menos sentido ainda.
– Então você acha impossível voltar para o passado?
– Só em filmes de ficção científica, e geralmente eu durmo neles.

Beto se virou para frente. Deu-se por vencido.

O professor explicava alguma coisa sobre relação de seres humanos com o Universo…

O dia em que faltou um dia

Um dia, simplesmente, a humanidade acordou, e era uma terça-feira. Os velhinhos saíram para dar comida pros pombos, os padeiros faziam pão, as fábricas abriram. Nada demais, até se saber que, na verdade, aquele dia era pra ser uma segunda-feira.

Isso acaba com o relógio biológico. Não é que todas as pessoas dormiram um dia inteiro. O que aconteceu foi: todo mundo olhou nos seus laptops e smartphones, e tinha um dia faltando em suas agendas.

Milhões de tweets foram excluídos por conter o habitual conteúdo de “odeio segundas-feiras”, “voltar à rotina” ou “bora trabalhar, senão esse país não vai pra frente” pelas pessoas que twitaram antes de olhar o calendário. Outros milhares de tweets surgiram para discutir o acontecido. Subiu a hashtag #cadeasegunda.

Os astrônomos não previram isso. Todos esperavam comprar seus cafés, e voltar aos seus cálculos que deixaram para serem concluídos desde a última sexta. Assim que perceberam a falta da segunda-feira, começaram novas pesquisas, partindo do ponto de que era um evento inédito, e não tinham a mínima ideia do que estava acontecendo. Evidentemente foram procurados para darem algum parecer científico de toda a bagunça, e tiveram mais uma vez que fingir saber exatamente o que estavam falando.

Os astrólogos disseram para todos seus clientes do fim de semana que deveriam tomar
cuidado com qualquer coisa fora da rotina, e se saíram melhores com isso tudo.

Bilhões de compromissos foram remarcados para a semana que vem. Outros bilhões continuaram sendo adiados até não fazerem mais sentido, e por fim nunca serem cumpridos.

No final, todos adiantaram um dia em suas agendas e continuaram suas vidas. Ficou tudo bem.