Viajante Meteorologista

– Boa tarde, é aqui?
– É aqui mesmo, pode entrar. Sente-se, por favor.
– Ah, obrigado

Ele chegou com suas pastas, contendo documentos e arquivos.

– Você é o..
– Reinaldo.
– Reinaldo. Esse é um nome comum de quando você veio?
– Sim. Quer dizer, mais ou menos. Na minha família é bem comum.
– Ah, claro.

Um breve silêncio. O homem assinava documentos digitais.

– Bom, vamos começar a entrevista. Em que ano nós estamos?
– 2020.
– É isso aí. Você trouxe seus arquivos em papéis…?
– Sim sim, eu também tenho um backup aqui no meu dispositivo, mas não sabia se ele iria funcionar nesse tempo.
– Ah ok. Você sabe que essa é uma empresa séria de meteorologia, Reinaldo. Nós cuidamos de todos os dados da melhor forma possível, para entregar um serviço preciso de previsão meteorológica. Temos clientes fortes em todo o país, e alguns na Europa.
– Sim, sim. Eu sei. Vocês serão gigantes em uns 50 anos.
– Fico feliz em saber, mas guarde suas informações gerais. Eu preciso só dar uma olhada em alguns registros dos seus arquivos.
– Aqui – disse ele, abrindo a pasta e apresentando alguns papéis.

Eram todos uma lista de dias e lugares listados por coordenadas. Tinha uma tabela de chuvas e temperaturas médias de várias regiões do planeta.

– Muito bom, muito bom. É disso que precisamos. De que ano você veio, mesmo?
– De 2086.
– Maravilha. Eu vou te encaminhar pra moça pegar os seus dados. Qualquer coisa a gente te liga mais tarde
– Obrigado!

Reinaldo, do futuro, levantou e foi para a próxima empresa de meteorologia fazer outra entrevista de emprego. Vindo do futuro, ele até poderia saber em qual delas seria contratado. Mas era bom mesmo em registrar o tempo, voltar para o passado e dar previsões muito precisas de muita coisa que ele anotou de memória. De noite elas iriam passar no jornal.


Obrigado @_Veetor pela excelente ideia de texto!

Nascimento da medicina

Os dois estavam sentados no chão, de frente para o corpo. Era uma situação esquisita mesmo ali, para aqueles dois homens do seu tempo, vivendo as suas vidas na tribo.

– É, ele morreu, né
– Como você sabe? Ele pode estar dormindo, sei lá. Ou quando as pessoas quase morrem…
– Não. Ele não está, não. Olha… – disse, levantando as pálpebras. O homem parecia mesmo morto.
– Sei lá, hein. Pode ser que ele esteja…como é que o Mameq falou? …
– Desmaiado.
– Isso. Não gostei muito dessa palavra.
– Também não. Mas ele tá aqui assim faz horas.
– E agora, o que a gente faz?
– É a primeira vez que você vê um desses?
– É. Desse jeito é a primeira vez. Teve o Daok, mas ele foi caçando Mamute, né. Aí morre diferente.
– É.

Os dois pararam, olhando para o corpo.
– O que acontece agora? – Perguntou o mais novo.
– Você tem uma faca?
– O que?! Você vai caçar ele?
– Não, não. Vou só abrir. Ver como é por dentro.
– Como assim, Bal-kuh? Tá ficando maluco?
– Você nunca imaginou como era por dentro? – disse, olhando para o próprio bucho.
– Não. Lógico que não. E você não vai fazer isso com ele. Nós nem sabemos de que tribo ele é, ou o que aconteceu com ele…
Mah-kao, se a gente não fizer…alguém vai fazer um dia
– Não.
– …se é que já não fizeram
– Tá errado.
– É por questão de cultura, Mah-kao.
– Eu não vou participar disso
– Conhecimento. Você não quer sobreviver?

Um silêncio entre os dois.
– Afinal, algum dia alguém vai ter que fazer isso. Vão saber como somos por dentro, fazer…experimentos.
– O que é experimento, Bal-kuh?
Cirurgia. É abrir o bucho com a pessoa viva. Mexer nela por dentro, pra que ela fique mais viva.

Mah-kao fez cara de nojo.
– Vamos. Isso aqui é para o futuro. Logo vamos estar modificando DNA, fazendo implantes no cérebro. Pegue lá a sua faca de pedra.

Mah-kao se levantou. Saiu resmungando…
– Isso vai dar trabalho. Eu já tô até vendo…

Burrice é sinal de Inteligência, diz estudo

Cientistas acordaram muito tarde, e ficaram trinta minutos rolando o feed do Instagram. Depois de procrastinarem um projeto por cerca de seis meses, começaram a analisar o comportamento de pessoas que, assim como eles, tem certa dificuldade em começar coisas, e mais dificuldade ainda em terminá-las.

É difícil dizer exatamente quando o estudo começou a ser feito, já que eles procrastinaram realmente por muito tempo. O que foi bom para a pesquisa, que contou somente com pessoas inteligentes que procrastinam.

O estudo foi feito na universidade de Califórnia, e passou pelas mãos de inúmeros cientistas de diversas áreas, como neurologistas, psiquiatras e psicólogos. Fizeram uma amostra com cerca de um grande número de pessoas, que acabaram ficando com preguiça de contar. Mas, não é por nada, já que eles foram movidos e estimulados por uma pesquisa recente, que dizia que dificuldade em contar números em sequência, e fazer contas de cabeça é um sinal de inteligência.

A divulgação dessa pesquisa se valeu do esforço de inúmeros divulgadores científicos, que acordaram tarde e fizeram seu café hipster. Estes divulgadores foram selecionados à dedo pelos cientistas, já que ela precisava ser divulgada por blogs e revistas de pessoas inteligentes. Acordar tarde, fazer café e ser publicitário são fortes indícios de pessoas inteligentes.

Novos estudos tem aprimorado a nossa percepção do que é um ser inteligente, e graças aos blogs, grupos de whatsapp e posts no Facebook, a divulgação científica nunca atingiu tantas áreas diferentes. Chegamos ao ponto de poder dizer, com total segurança, que quem lê blogs é mais inteligente, sim.

Longe da Terra

– Capitão, recebemos um sinal! – Foi mais ou menos o que quis dizer aquela forma de vida estranhíssima para outra forma de vida igualmente estranha.

O que atendia por capitão se aproximou. Parecia estar atento ao que seu subordinado, se é que essa era a forma dessa espécie estar atenta.

– Que tipo de sinal recebemos?
– Um sinal de Rádio
– Rádio?
– É, uma tecnologia nova em que estamos trabalhando. Olha aqui – e mostrou um mapa da galáxia, e de onde provavelmente o sinal de rádio vinha.
– Interessante – disse o capitão
– Estamos recebendo esse sinal há dias, mas acabamos de decodificá-lo – acrescentou, puxando das tralhas embaixo da mesa uma caixa de som. – Vou tocar para o senhor ouvir.

E ligou os fios, mexeu em uns programas no computador. A caixa começou a tocar Johnny B. Goode.
– tchi, tchi, tchhhhhh, tchiiii…

Pausou o som.

Depois de um breve silêncio.

– É…É estranho, né
– É sim, capitão. Mas acreditamos ser uma mensagem de alguma civilização distante. Podemos fazer pesquisas e descobrir o que querem dizer, e finalm…
Foi interrompido por uma longa risada do capitão. Se é que isso pode ser considerado uma risada.
– Continue fazendo seu trabalho, garoto. Somos só nossa espécie no universo.

E saiu

Meses depois, aquele mesmo planeta foi atingido pela Voyager 1. A maior cidade daquela espécie, e daquela civilização, perdeu grande parte dos seres vivos que moravam sobre a superfície. Acharam isso uma afronta, e vieram à guerra contra o planeta Terra.

Quando chegaram aqui constataram que, há um bom tempo, estavam mesmo sozinhos no universo.

Anda, liga e faz café

Começou com uma brincadeira do pessoal do marketing, ao mesmo tempo que alguns CEOs estavam discutindo a ideia seriamente.

Os jovens do marketing riram bastante. Os executivos começaram a se perguntar se era possível e viável, economicamente, para a empresa. Logo mandaram um pedido para os pesquisadores.

Eles, que eram a equipe tecnicamente mais inteligente de toda a corporação, só recebiam os pedidos e ordens, e tinham que pesquisar, desenvolver, fazer funcionar ou, se necessário, mentir para os jornalistas que o produto foi testado de todas as formas requeridas.

Acontece que fazer um carro com uma máquina de café não é tão simples quanto parece. Existe toda a logística das peças dispostas no curto espaço sob o capô. Além disso, como vai funcionar? Quem vai repor o refil de café? O cara do posto?

Tudo isso foi pensado, testado e equipado no mais novo carro da montadora coreana que logo estará no mercado em diversas cores e sabores. Por um acréscimo de 15 mil reais, temos também a máquina de cappuccino e boatos indicam que está em desenvolvimento a robô barista.

A reação pública foi diversa, assim que saiu o produto de marketing. “Por que uma máquina de café no seu carro? Porque você pode”. Na verdade em pouquíssimo tempo começou a ser analisado se podia mesmo ter uma máquina de café no carro. Soltaram umas fake news de motoristas que acreditaram que um cafezinho os manteria acordados por mais quinze minutos, e causaram acidentes horriveis. No final houve recall da maioria dos modelos. Os clientes reclamaram do café estar saindo forte demais, e com um leve gostinho de óleo de motor.

Como grande parte das ideias da humanidade, a ideias foi maravilhosa. A execução, nem tanto.