Dia estranho

Acordei e abri a janela, meio desconfiado. O céu meio azul. As nuvens meio rosa. Nem pensei em olhar no calendário. Devia ser segunda-feira. Olhei de novo pro céu, e as nuvens não tinham uma forma. Era como se Deus tivesse derramado um balde de nuvem no chão do céu.

Mas ainda estava estranho, e não era sobre o céu.

Então levantei. Me troquei e fui pro serviço, mas no caminho as pessoas pareciam felizes demais. Elas me cumprimentavam, e tinha um sorriso nelas. Que estranho.

Mas ainda não é sobre isso.

Eu cheguei no serviço e trabalhei, como todos os dias que vou, e trabalho. Normal. Mas, de alguma forma bizarra. O restante do dia foi normal, como todos os dias são, mas a paleta de cores do dia foi toda estranha. Com exceção do azul e rosa de manhã, o dia estava pesado e irritantemente cinzento.

Cheguei a pensar na possibilidade de ser o dia da semana que mais odeio e mais odiei nos últimos vinte anos da minha vida, e afastei o pensamento para mais longe da minha mente possível.

Pode ser só coisa da minha cabeça. A divisão dos dias e do tempo, por si só, pode ser uma coisa da nossa cabeça. Uma espécie de delírio coletivo da humanidade. Disseram que teríamos meses divididos em semanas de sete dias, e ninguém reclamou. Disseram que um desses dias se chamaria “Quinta-feira” e nenhum ser humaninho da face da terra questionou a soberania dos dias da semana. Sábado e Domingo são a comemoração do fim e começo do ciclo de jornadas de trabalho que foram forjadas durante anos da história.

Ninguém questiona. Mas todo mundo sente.

Existe algo no universo, na sociedade e no jeito que as crianças correm e brincam nas praças, especialmente ali, que me irrita nas quintas-feiras. Algo no jeito que os carros sinalizam antes de fazerem as curvas, e as calças leg que as velhinhas escolhem para fazer caminhada logo de manhã. E ainda esse céu todo se fazendo de bonitinho para postarem fotos no Instagram.

Eu penso, e foi num dia como esse, há uns vinte anos. Eu nasci, e o dia permaneceu austeramente irritante. Era uma quinta-feira. Não sei como aconteceu mas, desde então, eu venho sobrevivido a cada uma delas. Mais de mil e cem quintas-feiras e até hoje vivo como se cada uma delas fosse a última. Odiando-a, até as 23h59. Permanecendo levemente irritado até a última linha.

Tem Vidas na Tela

– … Aqui nas escavações encontramos um material novo, que não é encontrado na Terra. E como vocês podem ver, há uma grande quantidade dele em toda a escavação, e estudos indicam que sua fonte pode estar a mais de quatrocentos quilômetros abaixo deste ponto. Temos aqui o engenheiro chefe de exploração, Paul Arguilan…
– Exatamente, Xi Yion, estamos explorando esta área há duas semanas. Não há indícios que o material seja radioativo, mesmo estando em exposição a raios solares diretos por tanto tempo. Mesmo assim, como vocês podem ver, os exploradores todos estão trajando seus roupões de radiação, mesmo porque a atmosfera também é diferente. Estamos levando aos poucos esta matéria para ser estudada nos diversos laboratórios, e inclusive algumas já chegaram nas bases lunares para melhor reconhecimento e estudo.
– Muito bem, direto das escavações de Luna XIII, é com você, Evaristo

– Excelente, agora passamos para as notícias da Terra. Um grande meteoro…

– Hahaha! Que besteira

Disse ele, sentado na sua poltrona reclinável suja de gordura e óleo.
– Maggie! Ô Maggiee!
Olhou em volta. A televisão continuava a mostrar notícias da Terra. Ele se levantou. Procurou na geladeira alguma cerveja. Foi até o guarda-roupas e mudou sua vestimenta. Enquanto caminhava até a porta, o telefone tocou

– Alô
– Alô, Mike. Precisamos de você.
– Qual é a merda agora? Um meteoro? Outro Godzilla para cuidar?
– Muito pior, Mike. Vem até o centro de comando
– Ok, já estou indo
Mike desceu as escadas enquanto escolhia sua melhor arma. Quando chegou no estacionamento, e iria escolher seu carro, tocou um alarme. Mike ficou paralisado olhando para o nada, enquanto o mundo, gradativamente, se tornava cinza, e um pequeno “Pause” escrito na sua frente.

“bip bip bip”

Mateus toca no despertador. Passara a noite jogando seu novo jogo, que mal fizera um punhado de missões, assistido TV e encontrado pessoas no jogo, já teria que voltar para a vida real. Pegou sua mochila, desceu pelo elevador e caminhava até o ponto de ônibus.
‘porque a vida é tão chata’ pensava, enquanto passava por pessoas de vidas tão chatas quanto a sua. ‘Porque é tão melhor no videogame?’ continuava. Ligou uma música, colocando os fones, e o tempo passou mais rápido. Seu ônibus chegou, ele subiu e pagou a passagem.
Enquanto andava até um assento vazio, o mundo ficou preto.

Deus desligou o monitor.

Restos de vida

A luz do corredor projeta uma silhueta na sala escura conforme eu abro a porta. Não é nenhum filme de terror. A vida não parece com essas coisas. Então fecho a porta e, daqui de dentro, o mundo  fora some com seus monstros. O silêncio e o escuro nos segundos que se seguem são uma descarga de todos os pesos que carrego nas costas. Se esvaem como um respiro profundo. Ligo a luz e a sala se ilumina, revelando restos de pizza na mesa de centro, um sofá marcado de quem passou a madrugada assistindo TV ou jogando um jogo muito melhor do que a própria vida. De novo aquela dor de cabeça ameaça aparecer, dá as caras no canto da porta e some. Vai embora. Ela demora a vir e quando virá, eu sei que virá, será a pior das enxaquecas.

Respiro fundo, mas agora é como um suspiro. Arrumar a bagunça, lavar a louça que empilha dias de pizza, pratos e copos sujos com a gordura e açúcar que não se atreveram a descer ao meu estômago. Depois tomar banho, adiantar o serviço de amanhã, preparar a roupa e os sapatos, fazer aquela planilha, escrever outro texto – ah é, faz dias que não escrevo outro texto – e dormir cedo para acordar disposto. A lista de tarefas começa a pesar, forçando aquela dor de cabeça a voltar, e se instalar com leves pontadas agudas de incômodo – mais incômodo do que dor.

Sim, a vida é um incômodo também.

Ela avança para o estágio de causar uma dor atrás dos olhos, das que costumo sentir no outono. Eu penso nisso tudo, mas ainda não saí de frente à porta e ali mesmo verifico no meu celular: Nenhum e-mail, mensagem ou ligação. O mundo ficou mesmo lá fora.

Daqui caminho até a pia, são sete passos contando o pulo por cima da caixa de pizza, tomo uma aspirina, na segunda gaveta, venho pro sofá e ligo a tevê. Preciso dormir cedo para trabalhar. Preciso trabalhar para viver. Mas antes de pensar nisso o remédio faz efeito e cochilo sobre restos de fandangos.

Chão da Sala

Ele passou as últimas três horas fazendo seu castelo de cartas na mesa da sala.

– Pra quê isso?
Depois de um silêncio ele respondeu
– Disciplina
Queria parecer poético. Só pareceu bobo. Ela deu de ombros e subiu as escadas.

Era o que seu pai dizia para sua mãe há uns vinte anos. Foi para onde, instantaneamente, viajou. Seus irmãos brincavam pulando nas camas do segundo andar da pequena casa em que cresceu. A mãe gritava com eles, e descia pedindo ajuda pra seu pai.
A cena que via: Ele e seu caçula fazendo um castelo de cartas na mesa da sala. De repente o mundo ficou sépia.
– De novo esse castelo? Pra que isso tudo?
– Disciplina – respondia o pai com total firmeza e, por incrível que pareça, poética.