Fazendo um Livro #01

Eu já falei por aqui no blog como eu tive a primeira ideia para começar a escrever Clara. Foi uma frase que apareceu na minha cabeça de repente, depois se tornou um parágrafo, depois as primeiras folhas do que se tornou uma história.

Isso aconteceu há mais de quatro anos. Escrevi Clara e publiquei aqui mesmo, no Coisas de Pedro.

Escrever uma história é um longo processo de crises, decepções e frustrações, rascunhos e mais rascunhos, mudanças de planos, quase desistências e breves momentos de inspiração.

Pode parecer horrível, mas não é. Criar personagens, situações e histórias do zero é uma experiência engrandecedora. Você começa no branco do papel (ou, no caso, a tela do Word) e termina com personagens e vidas prontas para serem publicadas.

Uau!

Então, nesta primeira série do meu blog eu vou fazer uma história. Vou escrever um livro do zero. Cada etapa dessa nova jornada será relatada aqui na série Fazendo um Livro, todos os sábados.

Você vai acompanhar minhas crises, decepções, frustrações, etc…

Mais ainda! Você pode participar nos comentários aqui embaixo, na página do Facebook do Coisas de Pedro ou no meu Instagram @coisadpedro.

Vejo vocês semana que vem!

O começo e fim de quase todos os projetos

Eu tive novamente a ideia de um parágrafo perfeito para se iniciar um livro. Aconteceu, como acontece com frequência desde que entendi que livros são amontoados de palavras. Eu penso em formato de livro há mais de vinte anos, só que nem sempre meus pensamentos fazem sentido. Às vezes fazem, e foi assim.

Eu estava lavando as mãos, saindo do banheiro, quando olhei para o espelho. A frase me veio à mente como se eu a lesse sempre num dos meus livros favoritos. Era uma outra sentença perfeita, que descrevia como dois personagens se conheceram.

Enquanto pegava o sabonete, montei todos os personagens da história. Um policial, uma detetive. Um romance futurista. Pensei em como seria a química de dois personagens tão distintos, e fiz e refiz a história inteira na minha cabeça, a partir do primeiro parágrafo.

Até terminar de enxaguar e secar as mãos eu dei um nome e uma capa pro livro. Pensei em quanto tempo levaria para escrever, reescrever e editar. Diagramação, divulgação…até 2020, certeza.

Era uma ideia genial, e eu amaria me comprometer por uns meses num projeto tão empolgante!

Mas, então, eu abri a porta e saí do banheiro…

Minha mãe me chamou, e esqueci completamente tudo o que estava pensando…

Tudo já foi dito

Começou com um filósofo, pensando sozinho, muito provavelmente. Ele não tinha muito mais coisa pra pensar, e acabou chegando nesse ponto. “Tudo já foi dito”. Preferiu não escrever esse pensamento, talvez para não desanimar seus alunos, e ficou por assim mesmo.

Então algum poeta, no meio de alguma crise de inspiração, escreveu. “Tudo já foi dito, escrito e lido”. Inconsequente como só poetas são, acabou publicando isso em algum livro. A princípio ninguém leu, é claro. Mas logo alguém replicou em algum trecho, e viralizou. Virou bagunça.

Os jornalistas não gostaram da ideia. Mandaram cartas para alguma gráfica para reclamar, dizendo que agora seus empregos estavam em risco. Começaram a publicar notícias mais diversas no jornal, como “O look da rainha” ou “Receita do palácio” e quem sabia ler gostava.

A frase já estava aí pelo mundo, e todas as pessoas já sabiam que tudo já tinha sido dito. Mas o engraçado é que continuavam dizendo coisas que, estranhamente, ainda não tinham sido ditas. E ninguém falava sobre isso.

Quando chegaram as maquinas fotográficas é que o negócio ficou feio. Algum chefe de redação mandou botar a frase “Uma imagem vale mais que mil palavras” em algum periódico, e agora que as coisas a serem ditas perdiam ainda mais o valor. As ações das gráficas caíram. Tínhamos máquinas de escrever e impressoras rotativas para correr atrás do atraso.

Então vieram os críticos. O objetivo deles eram dizer coisas novas sobre as coisas já feitas. Comentavam livros e peças de teatro. Não satisfeitos, passaram a criticar coisas não escritas também, como fotografias e artes plásticas, e parece que o jogo virou. Havia alguma arte nova? Novas coisas a serem ditas.

Quando os designers chegaram ninguém entendeu muito bem. Era algo como “tudo foi dito, mas nada foi dito dessa forma”. E, desde então, as coisas continuam sendo ditas e repetidas, só que de formas diferentes. De maneiras diferentes. De jeitos diferentes.

Agora estamos aqui, falando coisas de um jeito só de Pedro. E eu me perguntando se ainda existem coisas a serem ditas às terças e quintas-feiras também.

Não sei. “Só sei que… hm… isso já foi dito bastante também.

Beto conhece Clara

Essa simples ideia, que nasceu na minha cabeça enquanto eu usava o banheiro da casa da minha irmã, se tornou um livro quatro anos depois. Eu sabia exatamente como começar:

O centro de São Paulo é sempre cheio. Carros, pessoas e muita gente. Ali acabamos por reparar alguns tipos. Era onde Beto estava e, por um segundo, deixou-se estar. Na avenida passavam um ônibus, um táxi e um Corsa prata e, nesse conciso intervalo, Clara.

Pronto.

Já teria um cenário e o nome dos personagens, o que era um grande avanço (já que sou terrível para inventar cenários e nomes de personagens, e tal).
Eu só não sabia o que seria dali pra frente. O primeiro ano foi cheio de primeiros capítulos. Eu apagava, excluía, começava de novo a partir da primeira cena. Tentei começar de antes, como num prólogo. Também não funcionou. Depois de uns oito meses, consegui o primeiro capítulo definitivo – decidi ser diferentão, e chamar os capítulos de episódios, descobrindo depois não ser tão diferentão assim.
Os dois anos que se seguiram foram longos processos de escrever, apagar e reescrever até ficar bom. Bom não. Minimamente aceitável.
Descobri que escrevo melhor de madrugada. Numa boa parte do ano eu dormia de dia, e acordava de madrugada para escrever. Até que cheguei nos finalmentes…
O último episódio levou mais tempo para ser escrito pela magnitude que tudo estava tomando na minha cabeça. Não foi tão magnânimo assim. Eu terminei, passei dois meses editando, e alguns dias revisando e, por fim, publiquei aqui no blog. É isso.
Eu fiz um livro.

Um inglês, um carioca

– Hey! Psiu!
– Hãn?
– Aqui em cima, ó
– Onde?
– Na cômoda
– Ah, oi! Não tinha te visto aí
– É..ele já está te terminando?
– O quê?
– Nosso dono. Ele está lendo você, não está? Tá terminando?
– Ah sim. Tá sim. Faltam umas 30 páginas. Espera. Quem é você?
– Eu sou o próximo livro que ele vai ler
– E por isso você está aí em cima?
– Isso. Você sabe pra onde você vai depois?
– Não. Como assim “depois”?
– Depois que você já for um livro lido
– Não
– Você é mesmo novo por aqui. Olha, ele te deixa aí no criado mudo até te ler todinho. Depois você vai para a estante
– Estante?
– Estante. Lá estão todos os livros que ele já leu, e alguns que ainda não leu.
– Tem muitos livros lá?
– Tem alguns. Mas nosso dono queria que tivesse mais
– Puxa…
– É muito legal. Eu acabei de vir de lá
– Você não é livro novo?
– Não. Ele me lê todo ano. Eu e meus irmãos viemos pra cá
– Hum..irmãos?
– Sim, sou uma saga. Uma trilogia de cinco…
– Sei.
– Ele só te leu uma vez, né? Depois vai te levar pra estante.
– Hum…
– Se você ficar na prateleira de cima, procure pelo Dom Casmurro. A galera lá adora ele
– É?
– É..apesar dele não ser muito sociável, sabe. Ele é dos mais antigos por lá, e nem todo mundo entende ele
– Ele não é engraçado?
– É sim. Muito engraçado..quem escreveu ele foi Machado de Assis
– Machado…
– É, de Assis. Eu vi que nosso dono riu muito de você. Você é engraçado?
– Ah, mais ou menos. Quer dizer..
– Seu nome é muito engraçado
– Obrigado.
– É meio inglês, meio português, né?
– Sim, essa é a ideia…
– Eu e meus irmãos somos muito engraçados.
– É?
– Sim, somos meio antigos nisso de ser engraçado
– Eu sou bem novo. Saí ano retrasado.
– Hum, sei. De onde você vem?
– Do Rio.
– Onde?
– Rio de Janeiro. Na verdade minha editora é em São Paulo. O escritor é do Rio. Esse que está aqui na capa…
– Sei
– E você?
– Eu venho de Londres. Bom, meu escritor era de Londres. A editora é de São Paulo também.
– Era? Ele se mudou?
– Sim. Bom, na verdade morreu.
– Aah…
[Silêncio]
– Eu queria dizer que ele foi pra um lugar melhor, ou alguma coisa assim..mas é que o cara que me escreveu é ateu, então…
– Ah, o meu também era.
– Então tudo bem. Qual é o seu nome?
– Até Mais, e Obrigado pelos Peixes
– O quê?
– É, todo mundo tem essa reação. Eu sou o penúltimo dos meus irmãos, e meu nome só faz sentido para quem já le…
– Olha, o dono está vindo. Acho que ele vai terminar de me ler.
– Vai lá. Tchau!
– Até mais!
– …E Obrigado pelos Peixes!