Fuga da realidade

Viver nem sempre é tão legal.

Às vezes temos que lidar com experiências ruins, como dores e doenças. Há muito tempo eram esses os motivos de usarmos ervas ou componentes da natureza que nos tiravam de nós mesmos, nos deixando num estado diferente da sobriedade. Ainda na mesma época, ou talvez antes, descobrimos a cerveja. O processo de fermentação da cevada fazia com que aquele líquido deixasse as pessoas mais…felizes. Talvez um pouco fora de si.

Estar fora de si é muito melhor, mesmo que não se tenha dor ou não esteja doente. Você não questiona as coisas que costuma questionar, e não pensa da forma crítica que te fez chegar até aqui como sociedade. E, falando em sociedade, estamos todos deprimidos coletivamente.

A cerveja passou a não funcionar tão bem. Fermentamos outras coisas para ficar doidões. Drogas naturais, drogas sintéticas. O cigarro alivia ansiedade. As drogas sintéticas são quase um gatilho social. O tabaco é quase terapêutico, se não acabasse com os seus pulmões. Estamos constantemente fugindo da realidade, porque “a realidade é uma droga”. Criamos outros mundinhos na nossa mente, fugindo da sobriedade de viver. E é claro que criamos mundos muito melhores do que este em que vivemos de fato.

Agora nós temos portais para esses mundinhos. Eles são todos telas de vidro que emitem imagens. Você está lendo este texto em um desses portais, agora. Talvez vai acabar esse texto e passar para uma rede social, onde várias pessoas felizes postam sobre suas vidas maravilhosas em telinhas. É sempre um mundo melhor, onde você fica feliz e mais sociável.

E o seu cérebro vicia tanto quando com a cerveja, o álcool, a droga natural, a sintética. Só outro tipo de droga para fugir da realidade.

Vírus, não. Patógeno globalizado

Em tempos de Covid, “em tempos de Covid” virou o novo “com o advento da globalização”. Até porque, não haveriam tempos de Covid sem o advento da globalização.

E, como seres globalizados, deveríamos nos comportar como tal. Não só aprendendo inglês ou mandarim, mas entendendo que, acima de tudo, seres humanos são humanos onde quer que vivam. E saber que, apesar da cultura que você faz parte pode modificar o modo como você vive, não muda em nada a latitude e longitude do local do seu nascimento.

As fronteiras entre paises pelos quais lutamos, entramos em guerra e nos engalfinhamos em batalhas pífias de nada valem para um vírus. Ele não precisa de passaporte. Não votou a favor ou contra o brexit, e está pouco se lixando para quem você votou nas últimas eleições.

Chamar o patógeno de “vírus chinês” é equivalente a chamar o cão de pastor alemão, o roedor de “porquinho da índia” ou o urso de demônio da Tazmânia. Não, não. O demônio é da Tazmânia, mesmo. Os outros não fazem sentido algum.

Nós atribuímos intenções às coisas. Faz parte do nosso instinto de sobrevivência entender porque a moita está se mexendo, ou de onde vem o rugido dessa onça, e porque elá está chegando tão perto. No fundo, você sabe que não choveu só porque você lavou o carro ou saiu sem guarda-chuva. Choveu porque as massas de ar e água evaporada se tornaram mais densas que o oxigênio e, portanto, precipitaram. A chuva não está nem aí pra você.

Tampouco o vírus. Ele também não liga se você é descendente de português, italiano, angolano ou nigeriano. Não quer nem saber quantos salários mínimos você recebe por mês, ou qual o carro novo que você comprou.

E, nesse sentido, o Sars-cov2 é bem evoluído. Imparcial e sem preconceito. Muito melhor do que você.

Pelo bem do coletivo humano

A coletividade humana é impressionante. Qualquer timelapse de uma avenida movimentada, ou da construção de um arranha-céu ou de qualquer obra monumental deixa claro como os pequenos seres humanos, quando trabalhando juntos, conseguem fazer algo grandioso.

Isso porque o serviço de poucas pessoas já é louvável e merece atenção, como as grandes mentes que iluminaram toda a humanidade durante o Renascimento Científico. Mas o conhecimento científico, acadêmico e em cultural cresceu exponencialmente quando a humanidade começou a agir junta e simultaneamente, com a evolução dos meios de comunicação.

Cientistas dedicam suas vidas ao estudo, à pesquisa, ao desenvolvimento. Soldados dedicam suas vidas ao treinamento e aprimoramento de suas táticas. Médicos dedicam suas vidas ao tratamento e cuidado de doenças terríveis. Publicitários dedicam suas vidas ao cursinho de inglês e longas exibições de séries da Netflix.

Enfim, nunca nada foi pedido com tanta ênfase a pessoas de todas as classes, de todas as idades e formações. Países em línguas diferentes, médicos e biólogos, têm repetido e pedido com toda a urgência possível, que todos façam algo pelo bem do coletivo humano.

Essa coisa que estão pedindo não é fazer exercícios físicos, que para muita gente seria impossível. Não é dedicar sua vida a estudos e pesquisas, ou o treinamento intensivo de qualquer habilidade inalcançável.

Nunca, na história humana, precisamos de homens e mulheres, crianças e idosos, que fizessem algo tão importante para salvar a vida de muitos. E esse pedido não é difícil, não é impossível para a maioria:

Fique em casa.

Nascimento da medicina

Os dois estavam sentados no chão, de frente para o corpo. Era uma situação esquisita mesmo ali, para aqueles dois homens do seu tempo, vivendo as suas vidas na tribo.

– É, ele morreu, né
– Como você sabe? Ele pode estar dormindo, sei lá. Ou quando as pessoas quase morrem…
– Não. Ele não está, não. Olha… – disse, levantando as pálpebras. O homem parecia mesmo morto.
– Sei lá, hein. Pode ser que ele esteja…como é que o Mameq falou? …
– Desmaiado.
– Isso. Não gostei muito dessa palavra.
– Também não. Mas ele tá aqui assim faz horas.
– E agora, o que a gente faz?
– É a primeira vez que você vê um desses?
– É. Desse jeito é a primeira vez. Teve o Daok, mas ele foi caçando Mamute, né. Aí morre diferente.
– É.

Os dois pararam, olhando para o corpo.
– O que acontece agora? – Perguntou o mais novo.
– Você tem uma faca?
– O que?! Você vai caçar ele?
– Não, não. Vou só abrir. Ver como é por dentro.
– Como assim, Bal-kuh? Tá ficando maluco?
– Você nunca imaginou como era por dentro? – disse, olhando para o próprio bucho.
– Não. Lógico que não. E você não vai fazer isso com ele. Nós nem sabemos de que tribo ele é, ou o que aconteceu com ele…
Mah-kao, se a gente não fizer…alguém vai fazer um dia
– Não.
– …se é que já não fizeram
– Tá errado.
– É por questão de cultura, Mah-kao.
– Eu não vou participar disso
– Conhecimento. Você não quer sobreviver?

Um silêncio entre os dois.
– Afinal, algum dia alguém vai ter que fazer isso. Vão saber como somos por dentro, fazer…experimentos.
– O que é experimento, Bal-kuh?
Cirurgia. É abrir o bucho com a pessoa viva. Mexer nela por dentro, pra que ela fique mais viva.

Mah-kao fez cara de nojo.
– Vamos. Isso aqui é para o futuro. Logo vamos estar modificando DNA, fazendo implantes no cérebro. Pegue lá a sua faca de pedra.

Mah-kao se levantou. Saiu resmungando…
– Isso vai dar trabalho. Eu já tô até vendo…

Cachorros da rua

O primeiro cachorro latiu porque um bêbado passou na rua. O bêbado nem ligou, e nem ouviu. Enquanto passava, arrastava uma perna, e uma mala com alguma coisa que fazia barulho, e fazia o cachorro latir.

O segundo cachorro, mais pra cá na rua, latiu porque o cachorro da esquina latiu. Não pensou muito bem no porquê de estar latindo, até porque cachorros, em geral, não pensam. Mas ele latiu. Seu companheiro estava latindo, e ele o fez apenas para fazer companhia. Não estava vendo o bêbado.

Muito menos o terceiro cachorro. Ele não via o bêbado, nem o segundo cachorro. O portão da sua casa era todo fechado, e ele latia justamente porque ouvia seus companheiros de latido, latirem. Não sabia o que era nem queria saber. Era seu protesto por ter um portão que não dava pra ver a rua.

Todos seus sentidos eram a audição e o olfato. E o quarto cachorro só tinha a audição, já que era velho, e não conseguia latir muito. Mas ele uivava, e era muito bom nisso.

Após isso, os cachorros cinco e seis, e todos os outros da rua latiam. E foi assim durante meia hora.

Meia.

Hora.

O bêbado já estava em casa. Os cachorros latiam, e nem sabiam para quê ou para quem. Mesmo os que começaram latindo sem saber porquê.

Alguém reclamou alguma coisa no Twitter…