Desenvolvimento

Apesar da falta de água, a comida cara e o aumento das doenças, está tudo bem.

Estamos realmente felizes com o desenvolvimento que nossa sociedade teve nas últimas décadas. A primeira grande questão era “como alimentar uma quantidade enorme de pessoas?” E a resposta era “não alimentar”. Simples, não é? Pareceu um pouco desumano no começo, mas as pessoas não podem reclamar do que não veem. E ninguém quer ver alguém morrendo de fome. Nós queremos ver um comercial com pedaços de carne na churrasqueira. É disso que as pessoas gostam!

E foi isso o que fizemos. Liberamos uma grande mata, que na época não servia para nada, e transformamos nosso país no pasto do mundo. Temos hoje muito mais cabeças de vaca do que pessoas neste país. Nos orgulhamos disso? É lógico. Se a China era a oficina do mundo, nós nos tornamos a dispensa. A carne e a soja que exportamos acabou se tornando impossível de ser comprada por aqui, mas o milho transgênico dá conta da população que sobrou desde as últimas pandemias.

Teve um pessoalzinho reclamão que achou que derrubar a mata ia aumentar o calor, diminuir a chuva. Mas aí foi o grande pulo do gato: Vendemos mais ar condicionados. Eles exigem mais energia, e então represamos mais rios, fazemos mais hidrelétricas. Se não tá chovendo? Melhor ainda. Começamos a usar energia solar.

Hoje a nossa nação se orgulha de ser a cozinha do mundo. Sustentamos a vida de inúmeros países com nossa carne, soja e o restinho de água, que nos renderão bons lucros até 2055.

Espaçoviária Tempoportoral

– Olá, bom dia!
– Bom dia, senhor. De onde o senhor vem
– Do futuro
– Perdão
– Ah, de 3022. Mas eu sou de 2315. Estoriassendo trabalhandoendo em um projeto. É de revitalização de algumas sociedades. Aqui está

Apresentou seu passaporte, sendo minuciosamente analisado pela funcionária do tempoporto.

É importante a esse ponto acrescentar que, a partir do início das viagens e mudanças do tempo descorridas pelas viagens, os verbos se tornaram extremamente complexos. Não somente os verbos.

– Você não acha Tempoporto uma expressão um pouco estranha? Sei lá, acho que “temporto” ficaria melhor.
– É uma expressão comum e muito sonora no idioma original. Mas acho que o senhor não saberia falar.
– Ah, eu falo muitas línguas antigas.
– Por isso mesmo o senhor não saberia falar – acrescentou – é de uma língua do seu futuro.

Ela olhava o histórico passado e futuro dele. Tudo o que conseguia encontrar somente nos imensos servidores do “temporto”. Era mesmo um estudioso de história. Estareveria no futuro, e voltariará para o futuro dali 500 anos, então não seria ela a vê-lo novamente em seu retorno.

O tempo naquela gigante rodoviária temporal era mais estranho. Passava mais ou menos como se passa em elevadores.

– Mas o senhor consegue dizer o nome de cento e três esportes da primeira civilização. Isso é impressionante!
– Na verdade não foi a primeira civilização. E é nisso que estou trabalhando atualmente – disse, empolgado
– O senhor com certeza fararia um grande serviço para a humanidade. – disse, devolvendo o passaporte
– Obrigado – sorriu

Caminhou até o portão de embarque, e dali quinhentos mil anos conseguiu viajar para dois mil e trezentos anos no passado daquele momento. Chegando exatamente enquanto um celta cabeludo fazerassendoia uma descoberta que mudourasseria a sociedade da época.

Pelo bem do coletivo humano

A coletividade humana é impressionante. Qualquer timelapse de uma avenida movimentada, ou da construção de um arranha-céu ou de qualquer obra monumental deixa claro como os pequenos seres humanos, quando trabalhando juntos, conseguem fazer algo grandioso.

Isso porque o serviço de poucas pessoas já é louvável e merece atenção, como as grandes mentes que iluminaram toda a humanidade durante o Renascimento Científico. Mas o conhecimento científico, acadêmico e em cultural cresceu exponencialmente quando a humanidade começou a agir junta e simultaneamente, com a evolução dos meios de comunicação.

Cientistas dedicam suas vidas ao estudo, à pesquisa, ao desenvolvimento. Soldados dedicam suas vidas ao treinamento e aprimoramento de suas táticas. Médicos dedicam suas vidas ao tratamento e cuidado de doenças terríveis. Publicitários dedicam suas vidas ao cursinho de inglês e longas exibições de séries da Netflix.

Enfim, nunca nada foi pedido com tanta ênfase a pessoas de todas as classes, de todas as idades e formações. Países em línguas diferentes, médicos e biólogos, têm repetido e pedido com toda a urgência possível, que todos façam algo pelo bem do coletivo humano.

Essa coisa que estão pedindo não é fazer exercícios físicos, que para muita gente seria impossível. Não é dedicar sua vida a estudos e pesquisas, ou o treinamento intensivo de qualquer habilidade inalcançável.

Nunca, na história humana, precisamos de homens e mulheres, crianças e idosos, que fizessem algo tão importante para salvar a vida de muitos. E esse pedido não é difícil, não é impossível para a maioria:

Fique em casa.

Espionagem de rua

A noite escura da cidade chuvosa esconde as maiores atrocidades que podem ser cometidas contra a sanidade, civilidade, democracia e bom senso da raça humana.

O indivíduo em questão estava postado na esquina, encostado a um poste, enquanto postergava sua hora de jantar para passar uma importante informação.

O que chamaremos de indivíduo Dois chegou, usando um sobretudo e chapéu coco embaixo de um guarda chuva.

– Onde está? – disse, austero
– Onde está o quê? – o primeiro indivíduo disse mostrando uma clara dúvida na sobrancelha por trás dos óculos escuros
– A informação, homem!
– Ah, claro! – começou a mexer nos bolsos, se desencostando do poste – espere só um instante

Neste meio tempo passaram um carro ou dois. O segundo indivíduo olhava atento ao movimento da rua.

– Espera, não tem bilhete, não. Era para eu te dar a informação oralmente.
– Pode dizer – respondeu, se aproximando
– É…
– Diga
– Então…

O primeiro indivíduo tinha um segredo de estado. E era muito importante esse segredo. Mas ele era novo com esse negócio de espionagem e investigação de figuras políticas importantes.

O futuro do país e as revoluções que se iniciariam nas próximas semanas, ou não, dependiam dele.

Ele olhou para sua mão, que tinha uma escrita de caneta borrada com a chuva. Ele jurava que era algo sobre o governador e o presidente. Tinha alguma coisa a ver com uns parlamentares também, e algum plano para desmontar o atual governo em questão.

– É…sobre…o presidente.
– É claro que é sobre o presidente. Desembucha
– Ele… – alguma informação precisava ser passada. Ele estava ali para isso
– … Parece que…- começou a pensar em algo que seria tão relevante quanto o que era para ele ter lembrado.

A informação foi passada.

Revoluções foram feitas, figuras políticas e parlamentares foram subjugados no que foi conhecido como o maior massacre da história daquele país, baseado numa informação improvisada e inventada naquela noite chuvosa e escura.

Nascimento da medicina

Os dois estavam sentados no chão, de frente para o corpo. Era uma situação esquisita mesmo ali, para aqueles dois homens do seu tempo, vivendo as suas vidas na tribo.

– É, ele morreu, né
– Como você sabe? Ele pode estar dormindo, sei lá. Ou quando as pessoas quase morrem…
– Não. Ele não está, não. Olha… – disse, levantando as pálpebras. O homem parecia mesmo morto.
– Sei lá, hein. Pode ser que ele esteja…como é que o Mameq falou? …
– Desmaiado.
– Isso. Não gostei muito dessa palavra.
– Também não. Mas ele tá aqui assim faz horas.
– E agora, o que a gente faz?
– É a primeira vez que você vê um desses?
– É. Desse jeito é a primeira vez. Teve o Daok, mas ele foi caçando Mamute, né. Aí morre diferente.
– É.

Os dois pararam, olhando para o corpo.
– O que acontece agora? – Perguntou o mais novo.
– Você tem uma faca?
– O que?! Você vai caçar ele?
– Não, não. Vou só abrir. Ver como é por dentro.
– Como assim, Bal-kuh? Tá ficando maluco?
– Você nunca imaginou como era por dentro? – disse, olhando para o próprio bucho.
– Não. Lógico que não. E você não vai fazer isso com ele. Nós nem sabemos de que tribo ele é, ou o que aconteceu com ele…
Mah-kao, se a gente não fizer…alguém vai fazer um dia
– Não.
– …se é que já não fizeram
– Tá errado.
– É por questão de cultura, Mah-kao.
– Eu não vou participar disso
– Conhecimento. Você não quer sobreviver?

Um silêncio entre os dois.
– Afinal, algum dia alguém vai ter que fazer isso. Vão saber como somos por dentro, fazer…experimentos.
– O que é experimento, Bal-kuh?
Cirurgia. É abrir o bucho com a pessoa viva. Mexer nela por dentro, pra que ela fique mais viva.

Mah-kao fez cara de nojo.
– Vamos. Isso aqui é para o futuro. Logo vamos estar modificando DNA, fazendo implantes no cérebro. Pegue lá a sua faca de pedra.

Mah-kao se levantou. Saiu resmungando…
– Isso vai dar trabalho. Eu já tô até vendo…