Limpadores 3000

A ideia era fazer um robô ecológico. Simples assim. Nós, da HallTech, criamos máquinas que ajudam nossa vida a ser mais fácil, prática, e que nos dê conforto. Estávamos preocupados com a recepção que nosso novo produto teria, mas estamos felizes por termos atendido grande parte das necessidades humanas por um preço acessível. Próxima pergunta?
– Eu!
– Pois não
– Quais são algumas funções do novo robô?
– Bom, ele possui todas as funções a favor da natureza que nós deveríamos ter. Você pode mandar ele plantar árvores, se tiver mudas próximo a ele. Pode mandar ele jogar o lixo, que é uma tarefa simples, mas vejam aqui no vídeo…instalamos sensores de diversos tipos, e eles conseguem distinguir o lixo, e separar o que é reciclável, o que é orgânico, e coloca nas cores certinhas dos latões de lixo…

Todos aplaudem a imagem. Alguns fazem expressão de maravilhados.

– … Olha, olha! Essa é minha parte favorita. Ele deixa cair um papel de bala. Não é de propósito. Vejam só. Ele para, volta e pega o papel!

Todos aplaudem novamente. Um dos jornalistas levanta a mão.

– Com este novo robô, estamos próximos do primeiro passo de restaurar nosso planeta, senhor. O que vocês esperam de resposta daquelas empresas e governos que procuram apressar o apocalipse?
– Como eu disse antes, estávamos preocupados com a recepção desse novo produto. Até agora não houve pronunciamento de nenhuma dessas empresas e governos. Acredito que o mercado é gigantesco para todas as partes, e todo mundo pode ter seu lugar ao sol, especialmente depois das explosões solares da última semana..

Alguns riram. Outros acharam a brincadeira de mal gosto, talvez só porque perderam algum conhecido ou parente que morreu de câncer.

– Qual você espera que seja o impacto na natureza e no planeta terra para o futuro? – Perguntou um outro jornalista

Silêncio. O entrevistado parou por uns segundos para pensar na resposta, mas não vinha nada à mente.

– Ah, bom…futuro…a gente sabe que não vai ter, né. Não pra nós. O objetivo deste novo robô, que foi anunciado nessa exposição, é tornar mais confortável nossa vida nos próximos anos ou décadas. Vamos continuar produzindo novos modelos que desfaçam algumas coisas que fizemos de mal para a natureza, e coisas assim…mas isso não vende. Agora, respondendo à sua pergunta, sobre o futuro. Essa primeira linha de Limpadores inteira está programada para se jogar no mar assim que o apocalipse começar. Pelo menos no mar não tem ninguém morando, e as baterias de lítio não vão explodir na cara de ninguém.

Desta vez ele riu, mas riu sozinho.

Cinco anos depois o apocalipse começou. Os Limpadores 5000 começaram a matar os humanos que faziam mal à natureza. Governos caíram. A HallTech fechou e disse não se responsabilizar pelo ocorrido. Hoje o planeta vive super bem, sendo cuidado pelos Limpadores 6000 que não se jogaram no mar, e cuidam da terra como ela deveria ser cuidada.

Abaixo assinado

Pareceu sensato a muita gente daquele país fazer um abaixo assinado contra a mudança de temperatura. Não era nada a ver com as mudanças climáticas, aquecimento global ou coisas desse tipo. Era apenas um desconforto o calor intenso no verão, e o frio do inverno. Também alguns se queixavam das chuvas e do vento em certas épocas do ano, e resolveram incluir isso no documento.

“É para isso que serve a democracia” disse um dos líderes da revolta. O governo publicou uma nota dizendo não ter nada a ver com as mudanças de temperatura, e proferiu se compadecer da indecisão do cidadão de não saber se sai e leva um casaco ou um guarda chuva.

Muitos senhores idosos e frequentadores filas de banco e supermercado se revoltaram contra o documento. Eles alegavam que devia ter mudança de temperatura, senão, não haveriam assuntos nas filas de qualquer lugar.

ONGs que defendem causas ecológicas ficaram felizes, achando que ganharam novos adeptos à sua causa nobre. Publicaram outras notas dizendo que o governo tem muito a ver com as mudanças de temperatura, sim, e começou um papo sobre desmatamento e poluição.

Os assinantes do documento decidiram não se envolver nessas questões complicadas de preservação. Eles só queriam um ar condicionado.

E foi isso que fizeram. Na verdade elas começaram a construir condomínios em prédios gigantescos. Lá elas trabalhavam, viviam e faziam compras. O ambiente sempre na agradável temperatura de 24 graus. Assim ninguém reclamaria de nada.

Porque é assim. Você dá uma solução rápida para quem está incomodado, e ela fica bem até arranjar qualquer outra coisa para reclamar.

Nova Terra

No começo bisbilhotávamos os outros astros do nosso sistema solar apenas por curiosidade científica. Nós, como sereszinhos que exploram tudo à nossa volta desde bem pequenos, continuamos explorando nosso ambiente e outros ambientes com nossos robozinhos.

Apenas por curiosidade, acabamos descobrindo que talvez fôssemos os únicos a sermos vivos, e complexamente vivos, pelo menos nos planetas próximos a nós em nossa galáxia. Descobrimos que existe pouca água por aí no universo. Pelo menos pouca água boa para beber. Até aí, não muito diferente da terra. A questão é que acabamos com a água boa da terra também. Depois de um tempo, acabamos também com a água que não dava para beber. Conseguimos derrubar a máxima “O planeta terra é 70% água” que qualquer paper de “Visite a Terra” diria, mesmo sabendo que ninguém viria nos visitar na terra.

Fomos péssimos anfitriões, e péssimos inquilinos também.

Depois de um tempo, explorar o espaço não era só curiosidade, também, como passou a ser necessidade. Precisávamos de um lugar para morar. Algum lugar quente, mas não muito. Dividido em estações ou regiões sazonais, mas também não muito. Precisávamos de incidência solar, mas bem pouquinha. E precisávamos de água. Muita.

Começamos as excursões para o que chamamos de terra 2. Nome pouco criativo, mas lá tinha água e tudo o que precisávamos para continuar a vida terrestre. Eram alguns anos de viagem, e planejamos tudo certinho. Mandamos primeiro os robôs, depois os trabalhadores braçais que fariam todo o trabalho mais pesado em exoesqueletos. Depois mandamos algumas pessoas que poderiam povoar o planeta, estudar sua geografia de uma forma que os robôs ainda não foram capazes de fazer, e plantar batatas. A essa altura, as humanas já tinham filhos e filhas que nasciam pelo menos um pouco mais habituados à gravidade e ao ambiente do planeta.

Hoje os seres humanos estão super bem, montando suas colônias de férias na Terra 2. Esperam ansiosamente pelo verão, que virá em 152 anos, e promete altas marés nos pequenos lagos da nova terra. O dia, que dura aproximadamente 70 horas, é bem ocupado para todos os novos terráqueos, e contamos com sua ajuda e presença neste novo planeta, para fazer a raça humana crescer e ser alguma coisa novamente, se é que já fomos algum dia.

Bilhete pro futuro do futuro

Você, que está num futuro muito distante, seja da Terra, ou não – eu sempre quis dizer
isso – se você estiver lendo isso, é porque estamos mortos.

Por “estamos”, eu quis dizer a raça humana, mesmo. Se você está lendo isso, caro ser
inteligente, é porque conseguiu acessar uma grande base de dados que construímos,
chamada Internet. Como você pode ver, éramos bem ativos e produtivos virtualmente. Na verdade produzíamos muito mais coisa fora da internet, e essas eram de melhor qualidade. Mas grande parte da nossa cultura inteira está aqui. Não perca muito
tempo neste blog. Há muito sobre a raça humana que você pode conhecer na internet.
Vou ajudar você.

Nós éramos um povinho ávido e curioso por descobertas. Fizemos coisas que acreditamos ser grandiosas. Por exemplo, aqui na internet você pode ver como foi nossa chegada à Lua, nosso satélite natural da Terra (espero que não tenhamos a destruído também). Fizemos grandes guerras entre nosso povo, e temos alguns bons documentários sobre isso. Nós éramos muito bons em inventar histórias, e pode dar uma olhada nas séries e filmes que fizemos. Você pode também ver nossa cultura, desde peças de músicas clássicas, até em grandes shows beneficentes. Nós nos ajudávamos, caro leitor do futuro.

Acontece que não ajudávamos tanto o planeta em que morávamos. É por isso que, muito provavelmente, se você está lendo isso aqui, já estamos mortos. Nós vimos isso tudo
chegando e deixamos acontecer. Deixamos a Terra como você a encontrou. Não cometa o mesmo erro que cometemos. Cuide desse planetinha.

PS: Ah, e ignore grande parte das coisas que encontrar na internet, especialmente nas áreas que chamamos de rede social.

Fim da Civilização de Aranhas

O velho aranha já profetizava tudo isso que começou a acontecer. Rolava o boato entre o povo da vila que ele falava a língua dos gigantes. Alguns diziam que era um dom que ele tinha. Outros tinham certeza que ele ficou maluco.

Por três gerações ele passava por entre as teias de todos da vila avisando que o fim chegaria. “Escuto o anúncio de novos gigantes” dizia ele “que provocarão a ira do grande Henrique!” ele gritava.

Grande Henrique, pra você que chegou agora, é o nome do gigante que coabitava o espaço da vila com todas as aranhas. Ele vivia lá no chão. Dormia e lia todos os longos dias de gigante com eles, e nunca os fazia mal. Mas chegariam outros gigantes, pregava o velho aranha, e isso provocaria a fúria do Grande Henrique, que traria um extermínio geral a toda a vila.

Foi ele que avisara que o chão era pra criaturas do chão, protegendo assim seus queridos amigos aranhas de serem pisados por outros gigantes que por ali passavam. O Velho aranha estava sempre olhando pela janela. Ele sabia dizer quando viriam nuvens de pernilongos e sempre acertava, o que deixava as aranhas da vila felizes, e produziam teias maiores para a temporada.

Ele assustava as aranhinhas com histórias terríveis sobre o flagelo das cerdas, e em como os gigantes já tinham dizimado inteiras civilizações de aranhas só com um objeto que eles chamam de vassoura. Ele a descrevia como um animal feroz e tempestuoso, sem olhos, e com muito mais de oito patas, que chegaria para destruir toda a vila de aranhas do quarto.

O velho aranha era um louco. Ele morreu numa tarde de verão, enquanto bisbilhotava os gigantes, com uma chinelada da mãe do Grande Henrique, momentos depois dela dizer “a visita chega amanhã e vai ficar aqui. Você precisa dar uma geral nesse quarto!”, ao que Henrique disse “tá bom, mãe” e voltou a escrever qualquer texto. No dia seguinte houve o fim de toda a civilização de aranhas e o quarto do Pedro ficou limpinho, pronto para receber visitas.