Crise Criativa

– Preciso avisar aos meus colegas de equipe, que essa ideia já foi usada. Texto número 49. Virada. 25 de dezembro de 2018.
– É, ele está certo. Esse negócio de alienígenas observando a terra, e a inutilidade da virada de ano.
– Ah…
– Já faz um ano, isso?
– Já.
– Estamos no meio de uma crise criativa, time. Temos que fazer algo a respeito. E o maior problema não é que não estejamos tendo ideias. A questão é que estamos tendo ideias repetidas. Nós já pensamos em roubar ideias de outros blogs ou livros, mas não dá muito certo. E agora estamos chegando aos 150 textos. Muitas ideias que tínhamos já foram escritas…
– Que tal escrevermos textos que já escrevemos, mas de outro jeito?
–  Bom ponto. Gostei da ideia. Como assim, de outro jeito?
– Não sei, mudar uns personagens. Mudar a ordem dos eventos. Escrever numa linguagem mais rebuscada para ninguém entender
– Que negócio de ninguém entender, meu querido! As pessoas já entram aqui no blog e não entendem nada!
–  Já sei!

Todos olharam, atentamente. O novato chamou atenção com segurança de que iria mudar o rumo da reunião e de todas as coisas para sempre.

– Que tal escrevermos textos simples. Ideias que todo mundo já conhece, já lê nos livros de romance e séries? Assim mais pessoas leriam, e recomendariam as Coisas de Pedro para outras pessoas…

Dois segundos de silêncio.

Alguém estava tomando café, e cuspiu tudo na mesa. Todo o time de criativo começou a gargalhar imensamente. Alguns se jogaram em cima da mesa de reuniões. Outros tiraram a gravata e começaram a girar. Bagunçaram o cabelo do novato.

Enquanto isso, o Pedro mexia no Instagram…

Só uma reclamação

Nós, seres humaninhos, chegamos a um patamar excelente nas revoluções sociais e tecnológicas de tudo que nos distancia dos demais animais que convivemos.

Temos o ar condicionado, que nos possibilita controlar a temperatura artificialmente por meios naturais de pressão e compressão do ar. Temos a rede de internet e telefonia, que conecta todos na empresa sem saírem de seus assentos, permitindo até mesmo que eu peça para a recepcionista avisar para meu colega de sala que foi pegar café, trazer um copo para mim também.

Olha só, pessoal. Algumas coisas nos aproximam mais de outros animais do que podemos, um simples vislumbre, pensar.

Quem já teve gato sabe que precisa ter uma caixinha de areia. Seu gato vai até lá, faz suas necessidades e as cobre cuidadosamente com areia.

Quem tem cachorro sabe que precisa ter uma pazinha e uma vassoura prontas para qualquer surpresa que seu cachorro deixar bem frente à porta de entrada da casa. Eles ainda fazem um movimento com as patas, como se estivessem limpando o local, por pura sensação de higiene.

Quem aí é humano, e está me ouvindo aqui, nós fazemos nossas necessidades em vasos sanitários. É para isso que evoluímos tanto social e tecnologicamente, inclusive. Para o maior conforto ao momento de suprirmos nossas necessidades mais básicas. Falando nisso, parabéns a todos os seres humanos envolvidos na descoberta e fabricação da cerâmica, até hoje! Continuando…

O bicho homem, antes de tudo, é um ser social. A gente precisa de aceitação, galera. Não é?

É neste ponto que chegamos à finalidade disso tudo, meus amigos. Na busca de aproveitar melhor o espaço da empresa, colocaram a Natália do Telemarketing na frente do banheiro do segundo andar.

Ah não. Aqui é o limite. É muita pressão

A gente precisa de um pouco de espaço e privacidade antes e depois de fazermos nossas necessidades. É uma questão básica de sobrevivência em sociedade. Vocês não concordam?

Depois de um silêncio na sala, eu respirei fundo. O chefe limpou a garganta, e disse “obrigado pelo seu ponto, Rodrigo. Vamos ver o que podemos fazer a respeito. Mais alguém tem alguma reclamação? Não? Terminamos aqui a reunião da empresa. Estão dispensados. Até segunda-feira”

Direito à propriedade

É no trabalho que se põe a prova os limites da civilidade e ética do ser humano. Estou falando, sobretudo, do direito à propriedade.

No começo não existia isso. O pé de maçã estava na terra, que era de todos, então as maçãs eram de todos. Fulano começou a subir no coqueiro, e apanhar um côco, e logo o côco passou a ser dele. Ele não conseguia abrir, e então dividia com Ciclano, que sabia abrir côcos como ninguém. Logo Beltrano estava matando ovelhas, portanto as ovelhas eram dele, e só dele. Ele trocava por maçãs e côcos. Um dia, não se sabe quem, decidiu tomar a terra para si. Cercou-a com pedras e gravetos, delimitando um terreno que ele jugava ser bom para viver. Expulsou Fulano, Beltrano e Ciclano. Agora o pé de maçã, o coqueiro e as ovelhas eram dele.

Ciclano acabou devendo alguma coisa para esse sujeito, e não conseguiu pagar de jeito nenhum. Coitado, agora Ciclano também era dele. Começou a trabalhar pra ele, e servir a ele. Essa pessoa começou a possuir outras terras, negociando com Fulano e Beltrano, até que negociou Ciclano com eles também.

Os humanos foram ficando mais complicados, meu caro. Começaram a possuir mais maçãs e côcos, mais bichos, carros, prédios, ações da Petrobras, celulares e, olha só, pedaços de bolo na geladeira do serviço.

Em cima da geladeira, uma caneta piloto, que escrevia em qualquer potinho de sorteve reutilizado. Lilian, Jaques, Mateus, Wellington e Fernanda guardavam comida na geladeira em potinhos com seus nomes escritos. Estava tudo bem até que Wellington descobriu que Jaques guardava bolachinhas de maizena no seu potinho. Achou que não seria nada demais pegar algumas. Jaques nem ia notar. Lillian e Mateus pensaram o mesmo. Quando chegou pro lanche da tarde, Jaques não tinha mais bolachinhas, e ele foi reclamar para Fernanda, que não sabia de nada.

No final, tudo seria uma grande reclamação que chegaria nos ouvidos dos outros da empresa, que não guardavam comida na geladeira.

Logo o chefe, que possuía a propriedade de cerca de nove horas por dia de todos eles ali, decidiu parar com esse negócio de geladeira e potinhos, suspendendo o horário de lanche da tarde.

Como eu disse, o ambiente de trabalho põe à prova o limite da civilidade e ética.

No final, todos descobriram que não possuíam de verdade nada. Nem côcos, maçãs, ovelhas, potinhos com seus nomes escritos e as horas que passavam trabalhando para tentar possuir alguma coisa

Reunião de Pauta

O WordPress ajeita uma papelada com classe e esmero. Aguarda enquanto seus colegas colaboradores se sentam e comecem a prestar atenção.

– Muito bem. Eu convoquei essa reunião para tratar de alguns assuntos do site. Era importante que todos vocês estivessem presentes.

O Bom-Senso levantou a mão.

– Pois não?
– A editora chefe não vem?
– Ela não vem, mas vai ler a transcrição dessa reunião. É por isso que a Revisão está aqui digitando tudo pra gente. Mais alguma pergunta? Não? Ok, este é o motivo dessa reunião.

O assistente distribuiu uma folha com uns gráficos.
– No último mês o número de visitas do site parou de crescer e começou a cair em 50%. Isso é muito preocupante. Nós só estamos aqui porque este site existe, e só temos esse emprego porque ele precisa de textos toda terça e quinta

– Então, eu até queria falar sobre isso – levantou a mão a Criatividade – toda terça e quinta não é muito corrido pra escrever texto? Vocês não acham? – alguns balançaram a cabeça positivamente – não é por nada, mas é muito corrido. O Pedro trabalha, e faz outras coisas. Nem sempre dá pra entregar um trabalho à altura…
– Eu concordo com ela – disse o Bom-Senso
– Tudo bem, tudo bem. Eu entendo que é ruim para todo mundo. Nem os leitores gostam de texto duas vezes por semana. Eles detestam. Foi decisão do Pedro fazer isso há uns meses, e o Bom-Senso não estava presente neste dia…
– Agora a culpa é toda minha aqui?!
– …e eu entendo. Calma, gente. Eu entendo que é difícil para todo mundo. Já teve dias que a Criatividade não veio também. Dá pra ver os textos em que você faltou, querida. A gente sente sua falta às vezes
– Obrigada – disse, emocionada

– Olha, eu acredito que podemos entregar dois textos por semana, e que o site pode crescer – disse a Responsabilidade, depois de um breve silêncio.
– É claro, sem perder a originalidade e a essência dos textos do Pedro – disse o Bom-Senso. A Revisão riu, atrás do monitor do computador.

– Muito bem – retomou o WordPress – Podemos continuar com o Coisas de Pedro? Vocês acham que vão conseguir manter esse site funcionando?
– Duas vezes por semana, é? – debochou a Criatividade – Eu consigo
O Bom-Senso ponderou por alguns segundos.
– Não garanto estar aqui todos os dias, mas vou dar o meu melhor.
– Muito bem. – disse, concluindo, o WordPress – e o que você acha, Responsabilidade?Responsabilidade?
Todos olharam em volta. Ninguém sabe explicar como, a Responsabilidade sumiu.
– Onde é que ela foi parar, hein?
– Eu vou sair para procurar – disse, polidamente, o Bom-Senso

– He he. Acontece.

WordPress suspirou.

– Acabou a reunião, Criatividade…

– …pode ir embora

 

 

Deve Ser Engano

O telefone de Carlos tocou. E tocou e tocou. Ele atendeu.

– Alô?
– Alô, é o Marcio?
– Marcio? Não..aqui não tem nenhum Márcio
– Quem ta falando?
– Carlos. Acho que é engano
– É, que esse número ta marcado aqui como o do Márcio
– Mas não é não, senhor
– Desculpa, então
– Ah, tudo bem
– Tchau
– Hum..tchau

Na mesa do lado, Matheus achou melhor não comentar nada. Reconsiderou e cutucou Carlos.

– Tudo bem, cara?
– Tudo.
– Você tava mandando mensagem pra alguém?
– Não, não. É que me ligaram. Mas era engano.

Matheus achou melhor não contrariar. Reconsiderou.

– Cara, não é a primeira vez que acontece, e o pessoal do escritório já percebeu…se você quiser parar um pouco, esticar as pernas, sei lá…fica tranquilo
– Não, foi só uma ligação aqui. Era engano.
– Não, Carlos. Ninguém te ligou, não.
– Ligou sim. Queria falar com um tal de Márcio.
– Tá no silencioso?
– Não tá, aqui olha… Ô Rafa, não tocou aqui, agora a pouco?

Rafa subiu o olhar por sobre a baia de frente a de Carlos. 

– Não tocou não, cara.

Olhou no registro de chamadas, e não havia ligação nenhuma.

Carlos viveu cerca de sessenta anos depois deste ocorrido, passando sequer um dia sem pensar nas coisas que aconteciam só pra ele e mais ninguém.