Se acostumar com o que não gosta

Eu nunca fui muito fã de café. Mas sempre gostei de pão.

Quando falo que o cheiro do café é muito melhor que o gosto, recebo sempre alguns olhares de reprovação. Até da minha querida editora chefe. Talvez meu paladar infantil não se agrade muito do gosto amargo. Mas mesmo assim eu tomo de vez em quando, com ou sem açúcar. Para mim é amargo do mesmo jeito.

Agora, de pão eu sempre gostei mesmo. Tomava café com pão, manteiga e um leite com achocolatado desde criança. Até usava xícaras para tomar leite, assim conseguia molhar o pão dentro da xícara cheia de leite com achocolatado. Eu chamava de “pão molhar”. Sempre fui péssimo com nomes.

Café com pão, de Tom Jobim, era uma das minhas músicas favoritas de quando criança, e isso é assunto para outro texto. Mas a mistura de café com pão enquanto comida nunca me agradou. Ainda mais ultimamente, em que o café não desce mais tão bem, e o pão tem que ser com menos manteiga, caso eu queira viver mais alguns anos. Eu até como, mas se tiver qualquer alternativa, eu prefiro.

Lá no meu serviço dão pão com margarina e café toda a tarde. São uns dez minutinhos que saio do serviço para esfriar um pouco a cabeça para o restante do dia, então eu não ligo. Tomo café com pão. Nem me incomoda, se é só ali no cafezinho da tarde.

Eu trabalho há cinco anos. Tomando um café com pão toda tarde. E nem gosto tanto assim de café com pão.

Eu já tomei mais de mil e trezentos cafés com pão.

É muito fácil se acostumar com o que não se gosta.

Reunião para marcar reunião

– Muito bem. Obrigado a todos por terem vindo. Com certeza o futuro dessa empresa está aqui nessa mesa. Nós convidamos todos os chefes de setores e equipe criativa. Estamos todos animados com a volta das atividades, e já pensamos em expandir algumas instalações para atender à nova demanda de mercado. Como vocês sabem, infelizmente tivemos que…

bla bla bla – o Tiago falou baixinho pro Mateus, que também riu baixinho.

– Conseguimos recuperar e aqui estamos novamente. Todos receberam a pauta em seus e-mails? – Todos balançaram a cabeça positivamente. – Muito bem, senhores. Não quero atrapalhar o trabalho de vocês lá embaixo, vamos direto aos tópicos… você recebeu no seu e-mail.

“Claro que não, mas todo mundo tá falando que sim” pensou o Tiago.

– A reunião sobre as compras do mês seguinte, será amanhã às 9 horas. Quem estará presente?

Três levantaram as mãos.

– A reunião da nova campanha?

Outros seis levantaram a mão

Que reunião é essa aqui, Mateus?
É a reunião de reuniões, cara
Que?!
Você não recebeu o e-mail mesmo, né?
– Recebi, mas mandei direto pro arquivo
– Agora levanta a mão junto comigo

– A reunião para agendar a reunião de reuniões?

Mateus levantou a mão. Tiago levantou também.

– Legal, meninos. Vamos precisar de vocês para a reunião de reuniões que poderiam ser e-mail também. Estamos formando a equipe de Call que poderiam ser reuniões.

Mateus levantou a mão.

– Pode falar, Matheus…
– Podemos marcar uma reunião para decidir isso.
– Perfeito. Eu te mando um áudio no telegram pra decidirmos isso.

Tiago não via a hora de tomar um cafézinho.

Cumprimento

Era de manhã.

Ele entrou na sala falando no celular, e segurando um monte de coisas na outra mão. Apoiou o celular no ombro, cumprimentou meu colega com a mão. Se virou para mim e estendeu a mão para que eu o cumprimentasse.

Sim. Ele, que nunca vi usando máscara desde março. Ele que demorou dois meses para deixar álcool disponível para todo mundo, e que nunca vi usando também nos últimos seis meses. E que, se não segue nenhuma dessas recomendações, muito provavelmente também não respeita o isolamento social.

Ele que viajou mês passado, e há algumas semanas está tendo crises de tosse pelo menos duas vezes por dia. Ele que tosse na mão, e pega as coisas depois, me fazendo desinfetar tudo, enquanto ele não está.

E enquanto você lia tudo isso ele estava com a mão estendida, e eu pensando em milésimos de segundos.

Eu o cumprimentei, lógico.

Ele virou as costas, e saiu da sala. Me certifiquei de não encostar em mais nada enquanto saía.

Lavei minha mão com álcool em gel.

O dia se seguiu normalmente.

Demissão

Eles se sentaram, cada um de um lado da mesa.

– Então, chefe…eu estava analisando como estão as coisas, sabe. O meu tempo, a questão do dinheiro também…E resolvi te chamar aqui, na minha sala, para conversar…

– Sim, Rogério, pode falar.

– É o seguinte. A gente tá fazendo uns cortes na questão de gerenciamento de tempo. E isso é porque eu quero preservar minha saúde mental e emocional, mesmo, sabe. A gente sabe que você se esforça muito em sempre me dar mais coisas para fazer aqui na empresa, e tudo…

– Como assim? – o chefe não entendeu direito.

– A gente conversou muito, e chegamos a essa decisão.

– A gente quem? Por que você tá falando na terceira pessoa? E que decisão é essa?!

– Então, eu decidi te demitir – disse, resolutamente

– Não, Rogério. Você não pode fazer isso.

– Podemos sim, e na verdade começamos a dar entrada na papelada. Você começa de aviso prévio na semana que vem.

– O quê?!

O chefe começou a ficar nervoso, batendo na mesa.

– Eu, particularmente, gosto muito de trabalhar aqui, e do serviço que eu presto na empresa. Mas acho que já estou me esgotando, e tá sugando demais o meu tempo, que eu deveria estar passando com a minha família, e com as coisas que eu realmente gosto…

– Não, Rogério. Eu vou correr atrás dos meus direitos. Você não pode me demitir e sair assim. E a falta que você vai fazer na empresa, Rogério?

– Isso tudo a gente já conversou, eu e as coisas aqui dentro da minha cabeça. Agora você sai aqui e passa no RH, tá bom? Obrigado…

– Eu vou procurar um advogado – disse, se levantando.

– Tá, tá bom. Quando sair chama o meu gerente pra mim, fazendo favor…

Reunião de Elite

– Bom, pessoal, fiquem à vontade. Quem quiser café, uma champanhe. Tá tudo aqui em cima.
– Não vamos para a sala de reunião?
– Ah, não. Aqui é a sala de reuniões.
– Está todo mundo aqui, senhor

Ele começou, aumentando a voz.

– Muito bom. Primeiramente gostaria de agradecer a presença de todos aqui. Estamos tentando há anos juntar os maiores bilionários do mundo, e não foi fácil ajustar a agenda de todos para que estivéssemos aqui. E, como todos sabem, nós que controlamos o mundo. Os governos ajudaram alguns de nós, no começo. Nós os ajudamos de volta depois, e agora muitos de nós aqui nesta sala têm mais dinheiro que países inteiros.

Alguém saudou. Outros puxaram um brinde em alguma língua que nem todos entendiam.

– Alguns de vocês ajudaram a mudar a terra. Fisicamente. Acabaram com florestas, mudaram o curso de rios e cachoeiras, fizeram e destruíram represas. Custaram algumas vidas, lógico. Mas se vocês estão aqui, é porque valeu à pena.

Novamente, alguém gritou alguma saudação e, à essa hora o champanhe começava a subir à cabeça. Ele continuou…

– E, eu andei pesquisando…parece que alguma empresa de alguém daqui conseguiu acabar com uma vastas espécie de pássaros do ártico, é isso mesmo?
Um senhor barbudo e de turbante levantou a mão.

– Também um investidor agrícola conseguiu acabar com grande parte das vacas que espalhavam doenças, e substituí-las por outra espécie de vaca num continente inteiro?
– Isso. Ele aqui, ó – apontou um senhor rico para outro senhor rico

– Então…eu gostaria de contar com a colaboração de vocês, que já fizeram o esforço de estarem presentes nessa breve reunião, para fazer um pedido bem…pessoal. – deu uma breve pausa. Tomou um gole da taça que segurava – eu gostaria de extinguir o escorpião.

Alguém cuspiu champanhe em outro alguém que ficou rico fabricando champanhes. Muitos começaram a resmungar e a conversar entre si. Um deles levantou a voz.

– Escorpião, senhor?
– Isso. Escorpião.
– Alguma raça, ou espécie específica?
– Não. Na verdade todos eles.
– Haveria algum motivo específico, senhor? – outro perguntou
– Eu sou bilionário. Não gosto de escorpiões. Simplesmente não aceito viver no mesmo mundo que eles…

– Eu ganho dinheiro extraindo veneno de escorpiões – gritou alguém lá do fundo, e começou um burburinho.

Com medo de perguntar o que ele ganhava extraindo veneno de escorpiões, ou para quem vendia, o dono do evento resolveu retomar as rédeas da situação elevando sua voz, e chamando a atenção de toda a gente da elite.

– Senhores, senhores. Todos nós temos algo pelo qual não gostamos, não é? – muitos balançavam a cabeça – O mundo é nosso. É só decidirmos mudar algo, que conseguimos. É por isso que eu criei esta sociedade aqui. O que deixa vocês indignados? O que vocês gostariam que acabasse nesse instante?

Todos levantaram a mão. Ele foi chamando, um por um, para dizerem quais eram seus desgostos pessoais…
– Eu não gosto de areia no sapato!
– Eu não gosto de carros com trava sem biometria!
– Eu não gosto de declarar imposto de renda!
– Eu não gosto de Movimentos Sem Terra!
– Eu não gosto de pobre!