Caro amigo extraterreno

Meu caro amigo extraterreno,

Eu sei que, olhando daí de cima, muita coisa parece complicada e sem sentido aqui em baixo, e é sim. Estou te escrevendo especialmente para tentar descomplicar qualquer coisa que te impeça de vir dar umas voltas por aqui, aproveitar o verão, as praias e fiordes, e lidar com o bom humor dos seres humanos…

Por exemplo, por aqui se você quiser aproveitar o verão, as praias e fiordes, você vai precisar muito de um negócio que costumamos chamar de dinheiro. É mais fácil eu e explicar o que são verões do que dinheiro, mas, veja, estou aqui para te ajudar, e logo você vai entender disso tudo como um bom humano.

Olha, não nos subestime. Nós temos história.

Quando começamos a morar em cavernas mais próximas, uma caverna tinha mais de uma certa coisa, enquanto a outra tinha mais de outras coisas e vice versa. Era preciso um meio de trocar as coisas por coisas equivalentes. Inventamos, brilhantemente, a moeda. A moeda seria esse meio de troca entre uma coisa e outra. Mas a moeda não pode ser, por exemplo, Rabanada. Existem muitos tipos de rabanada, e umas melhores que as outras (te explico depois o que é rabanada). Então o que nos fizemos? De maneira absurdamente genial, pegamos uns pedaços de metais, fizemos uma máquina que pega papel (um material muito barato por aqui, mas aposto que vocês nem usam mais) e prensamos esse papel de um jeito que ele fique único e facilmente identificável. Por exemplo, com o desenho de um peixe de um lado, e um número do outro. Esses papeizinhos coloridos já geraram guerras e mortes. Muitos conflitos. Coisas que nós, humanos, adoramos.

Com poucas notas dessas, você consegue uma bela porção de camarão e cerveja gelada em qualquer praia do litoral Brasileiro, sem deixar de aproveitar do calor e da hospitalidade humano!

Clones de verão

O problema das agências de clonagem não era o serviço que elas prestavam.

Era a expectativa dos seus clientes. Logo quando saíram as primeiras propagandas “Você pode ser dois ou mais!” parecia um bom investimento. Você pagava por um outro eu que, eventualmente, teria o mesmo registro que você mas, olha só, teria outro emprego, ou talvez dois empregos. Era um enriquecimento rápido e econômico, já que os clones não precisavam comer ou dormir. Você podia faltar no serviço e mandar seu clone sem problema algum. Evidentemente muitos executivos e juízes perderam seus empregos no início, antes de regirem leis próprias para a clonagem. Isso sem falar dos médicos e políticos. O serviço de clonagem era perfeito para uma classe que não tinha capital para investir.

Imagine milhares de clones numa linha de produção das enormes fábricas. Fazendo o serviço sujo que ninguém mais queria fazer. Perfeito, para os donos das fábricas. Ter trabalhadores a qual não é preciso pagar. A classe trabalhista foi às ruas. Como poderiam conviver com clones tirando o serviço de seres humanos? Simples. Eles quem treinariam clones. Um ser humano pelo serviço de quinhentos. Depois continuavam sendo seres humanos, se procriando e evoluindo. Problemas com a superpopulação? Zero: Os clones tinham prazo de validade.

Quando começaram as propagandas “Faça já uma cópia de você mesmo”, a classe alta viu outra vantagem. Agora poderiam clonar a si mesmos, e aproveitar a vida nos seus iates e cassinos. A moeda nunca foi tão baixa. Acontece que viram outro problema nos clones. Eles eram exatamente como os seres de origem. Como assim? Não foi isso o que as agências prometeram? Isso. Eles esperavam que podiam esquecer do estresse das empresas, e deixarem os clones fazerem as melhores decisões e mudanças nos negócios, tomando conta de tudo. Os clones eram só clones, assim como humanos eram só humanos. Igualzinho. No final as agências de clonagem ganharam as causas, dizendo que as cópias eram perfeitas e as origens que eram imperfeitas. Os donos das empresas venderam seus clones para reciclagem e adubo. Agora as famílias de classe média baixa compravam seu clone de verão para ganharem uma renda extra nas férias. Compensava o estrago. No final, quase sempre compensa o estrago…