Calcule o custo, e então dobre

Encontramos a casa perfeita, e ela já era nossa por contrato. Bom. Pelo menos pelos próximos 12 meses, sem reajuste, com algumas condições e cláusulas que li tudinho, mas não vem ao caso aqui …

É uma edícula de um quarto, sala e cozinha divididos por um balcão. Já estávamos pensando na disposição dos móveis e decoração. Mas a maior questão aqui era: qual seria a cor da nossa casa? Isso porque, segundo o locador, eu poderia pintá-la, e ele não me cobraria uma pintura ao sair da casa. Então podemos deixá-la da cor que quisermos. E foi o que fizemos.

Eu ainda estava trabalhando em periodo integral, então deixei as instruções claras para minha família que estava cuidando da pintura. Era uma lata grande de branco neve, algumas bisnagas para mistura e o resto a gente ia comprando conforme a necessidade. Pedi uma lata porque (achava eu) seria suficiente para a pintura da casa toda. Não foi.

Além do pequeno detalhe de terem comprado e pintado a casa de branco gelo (que abriria toda uma discussão do espectro de tons de branco), a lata de tinta agora estava cinquenta reais mais caro do que estava no mês anterior.

A mesma lata de tinta. Na mesma loja de construção.

Cinquenta reais.

Não só isso, como além da tinta branco (gelo) foram gastos com uma reforma na pia, um probleminha na instalação elétrica, uma breve reforma nas portas e janelas. Coisa pouca.

Eu tinha calculado cerca de duzentos reais para deixar a casa com a nossa cara (minha e de minha digníssima) e hoje posso calcular que esse valor foi, pelo menos, o dobro do reservado.

Foram algumas semanas antes e depois do casamento deixando cada pedaço da casa do nosso jeito, e ficou perfeita. Mas tudo tem um custo.

Você só deve saber, caro leitor, que o custo pode (e vai) ser maior do que você imagina.

Matemática Aplicada na Vida Real

Eu aprendi a fazer contas. Sei que, juntando cem reais em doze vezes, eu tenho mil e duzentos reais. Acontece que a matemática, assim como todas as outras matérias da escola, vão dificultando da primeira série até o ensino médio. Mas especialmente a matemática.

Aliás, tudo que vai dificultando com o passar do tempo, aumenta a tendência a quebrar. E ainda estou falando da matemática. E isso fica muito claro porque, na quarta série, juntar cem reais todo mês dá mil e duzentos reais mesmo.

Na vida real é muito mais complexo. Não é tão preciso. Juntar cem reais por um ano, por exemplo, te dá um déficit de trezentos reais, e no final você tá pagando boleto e fatura do cartão com o décimo terceiro.

Essa aqui é uma conta básica da vida real. Mas às vezes é difícil mensurar a abstração da realidade da vida adulta. Isso você não aprende na quarta série.

Meu vizinho, por exemplo, tem um carro. Esse carro possui um motor, quatro rodas, um eixo, tudo o que um carro precisa para funcionar e te levar de um ponto A a um ponto B. Acontece que esse carro custa cento e vinte mil reais. Ele faz exatamente o que o meu Palio 97 faz, só que com muito menos estilo.

Eu tento aplicar aqui a matemática da quarta série, e não consigo. Primeiro porque, não consigo imaginar gastar cento e vinte mil reais numa coisa que, no momento que você compra, já está perdendo valor. Da concessionária até a sua casa ele já perdeu uns sete reais de valor ali. Mas até aí tudo bem

Onde a conta não fecha, é que eu teria que trabalhar dez anos para conseguir pagar aquele carro. E não seriam dez anos de economia, não. É dez anos sem almoço e sem janta. Sem aluguel e sem dinheiro pra roupa nova. Eu não ia conseguir pagar a gasolina, muito menos o IPVA.

Mas uma coisa que ainda faz sentido desde a quarta série, é que tudo no universo tem explicação. Meu vizinho é contador. Ele trabalhava contando dinheiro. E quem quer ter dinheiro trabalha com dinheiro, não com arte. É por isso que eu tô aqui, escrevendo texto pro blog. Eu poderia estar por aí dando volta de carro chique, mas estou simplesmente tentando entender o mundo.

Tentando entender

Eu sei que o objetivo de nós, humanos, é complicar as coisas. Entendo que é difícil sobreviver nesse negócio de vida, e a gente cria toda uma estrutura para fingir que estamos bem.

Mas eu aprendi desde pequenininho que, para entender como as coisas funcionam, é preciso desmontá-las. Olhar por dentro. É um pequeno exercício que eu faço pra entender o mundo. Se você ainda não entendeu sobre o que estou falando, tudo bem. Temos todo o tempo do mundo. Vou tentar explicar.

Por exemplo, temos restaurantes. Não tenho nada a falar mal dos restaurantes. A questão deles é que são um lugar onde você vai e a comida está pronta. Você paga por ela. Nada demais até aqui. A questão é: existem pessoas que trabalham neste restaurante. Elas recebem dinheiro para trabalharem no lugar onde se supre a necessidade básica delas, que é comer. Por que elas recebem dinheiro? Para comprar, por exemplo, tênis.

Nós precisamos de tênis. E alguns são muito bons. Mas acontece que, quando um fabricante faz o tênis, o vendedor precisa contratar um fotógrafo e um designer. Eles fazem uma imagem enorme do tênis novo num outdoor numa avenida, onde passam milhares de pessoas por dia. O garçom, que trabalha no restaurante, passa para ir trabalhar e olha o outdoor enorme. Ele compra o tênis, e paga o vendedor, o fotógrafo, o designer e o fabricante do tênis. Então os sócios e donos da empresa do vendedor, do fotógrafo, do designer e do fabricante do tênis vão ao restaurante. Eles comem e pagam o salário do garçom, que lhes traz comida e lhes supre a necessidade básica de querer comer mais.

É difícil mesmo entender isso tudo, mas, ao que parece, estamos todos bem.

O mundo funciona desse jeitinho. Deixa ele assim.

No final, quase sempre compensa o estrago.

Sustentável

Um belo dia, não se sabe porquê, cientistas super sensatos calcularam e descobriram, quase que inesperadamente, algo que mudou toda a história da indústria. O cálculo foi assim: Eles pegaram todo o número de seres humanos sobre o Planeta Terra. Depois somaram todo o número de automóveis, motocicletas, bicicletas, patins e chinelos de praia que existem. Então dividiram um pelo outro. Não não, dividiram outro pelo um. E descobriram que já existia meio de locomoção para todos os seres humanos vivos, e para as próximas cinco gerações. Melhor ainda, os veículos atuais iriam se degastar, o que aumentaria o preço de compra e venda, e aí já era problema dos economistas – que, quase todos concordavam, não eram cientistas de verdade.

Ninguém mais precisaria trocar seu carro de 2027 modelo 2028 pelo 2028 modelo 2029. Deixaríamos tudo escrito bonitinho para nossos tatataranetos voltarem a produzir carros, e até lá só nos preocuparíamos com o combustível.

Começou assim, com um grupo de estagiários jogando conversa fora no campus de alguma universidade. Os cientistas da indústria automobilística comprovaram a teoria, e tomaram para eles porque, afinal, já estavam cansados a pesquisar como fazer um carro atingir 500km/h já que as pistas só permitiam 200km/h.

Depois a moda pegou, e o pessoal do plástico já começou a calcular todas as tupperwares, copos, garrafas pet e canudos, descobrindo também que já podiam parar de produzir plástico. Todos os patinhos e brinquedos de plástico seriam suficiente para a humanidade existente e até sua extinção. Passaram então a ocupar o seu tempo pesquisando o que fazer com o plástico que já tinha sido produzido.

O pessoal da indústria do papel já tinha desistido de produzir papel quando passou a ter menos árvores que seres humanos. As moedas, que ainda eram de papel, subiram drasticamente o preço, fazendo com que a indústria dos chips aumentassem um pouco a produção de moeda digital. Eles também chegaram à conclusão de que já haviam camas, armários e cadernos de mão o suficiente para as próximas cinco gerações, e ficaram de boa.

Não precisamos listar o caos que se instaurou na indústria, e impacto negativo na economia. Milhares de economistas e contadores repentinamente assumiram que eram de humanas, e foram protestar nas praias. O maior problema, por incrível que pareça, foi na área da saúde.

Médicos e cientistas pesquisadores se reuniram, e descobriram que, na verdade, não teríamos seres humanos suficiente até o final dos recursos que já tínhamos gastado. Reduzimos ainda mais a taxa de natalidade, e cuidamos dos nossos idosos enquanto eles nos contavam como estavam orgulhosos da nossa geração, já que eles só se preocupavam com internet, drogas e sertanejo universitário.

Deu um pouco de trabalho, mas, felizmente, vimos nosso apocalipse chegando mais lentamente, e pudemos nos preparar, sentados em nossas poltronas reclináveis de plástico.

Nada acontece

Ninguém sabe exatamente como nem quando as coisas deixaram de acontecer naquela cidade, mas as coisas deixaram de acontecer. As pessoas não saíam das suas casas, não brigavam, não engravidavam, não traíam. Era uma típica cidade de interior, onde todo mundo conhece todo mundo, e qualquer coisa que qualquer um fizesse, todos saberiam e fariam seus julgamentos. Fulano saía com a fulana e no dia seguinte era o assunto dos salões de beleza e dos bares. A notícia tomava forma e tamanho. ‘Foi pra cama ou não foi? Engravidou. Pois é. Fulano vai ser pai. É menina’. Só saíram. Qualquer coisinha que acontecia movia a cidade, fazia aquelas pequenas pessoas serem felizes com suas pequenas futilidades. 

Sair para trabalhar, voltar para casa e assistir tevê não é nada de extraordinário. As pessoas não comentam isso. Os comentários nos bares são feitos da vida dos outros, e de repente a vida de ninguém tinha movimento o suficiente para se comentar. Os bares foram ficando vazios, porque em casa parecia estar tudo tão certo a ponto dos maridos não precisarem sair para beber e reclamar da vida. Sentar na frente da tevê bastava. O jornal local ficou desesperado. Não haviam mais notícias. Ninguém casava, traía ou ficava bêbado nas festas. Não haviam mais festas para se ficar bêbado. 

“…Por aqui passava um moço de carrão, vindo da cidade grande. As crianças paravam o futebol só para ver o carro passar. Os homens da vila ficavam falando do carrão azul passando, no bar. Nem futebol tem mais. Mas eu continuo sentado aqui na varanda” conta o saudoso seu João que, montando seu fumo na sua cadeira de varanda, ainda espera alguma coisa acontecer.

Com escassez de acontecimentos a vida ficou difícil. Afetou a economia e tudo. Notícias  corriqueiras ficaram supervalorizadas. O jornal colocou notícias a prêmio na semana seguinte. Quem chegasse com fofoca ganhava salário de redator. As senhoras que fofocavam na calçada montaram uma patrulha da fofoca. Eram caçadoras de furos da vida alheia. Mas não tinha nada. As filas de mercado ficaram silenciosas, a vida não era mais novela. Quando simplesmente nada acontece, ninguém sabe exatamente o que fazer…