Matemática Aplicada na Vida Real

Eu aprendi a fazer contas. Sei que, juntando cem reais em doze vezes, eu tenho mil e duzentos reais. Acontece que a matemática, assim como todas as outras matérias da escola, vão dificultando da primeira série até o ensino médio. Mas especialmente a matemática.

Aliás, tudo que vai dificultando com o passar do tempo, aumenta a tendência a quebrar. E ainda estou falando da matemática. E isso fica muito claro porque, na quarta série, juntar cem reais todo mês dá mil e duzentos reais mesmo.

Na vida real é muito mais complexo. Não é tão preciso. Juntar cem reais por um ano, por exemplo, te dá um déficit de trezentos reais, e no final você tá pagando boleto e fatura do cartão com o décimo terceiro.

Essa aqui é uma conta básica da vida real. Mas às vezes é difícil mensurar a abstração da realidade da vida adulta. Isso você não aprende na quarta série.

Meu vizinho, por exemplo, tem um carro. Esse carro possui um motor, quatro rodas, um eixo, tudo o que um carro precisa para funcionar e te levar de um ponto A a um ponto B. Acontece que esse carro custa cento e vinte mil reais. Ele faz exatamente o que o meu Palio 97 faz, só que com muito menos estilo.

Eu tento aplicar aqui a matemática da quarta série, e não consigo. Primeiro porque, não consigo imaginar gastar cento e vinte mil reais numa coisa que, no momento que você compra, já está perdendo valor. Da concessionária até a sua casa ele já perdeu uns sete reais de valor ali. Mas até aí tudo bem

Onde a conta não fecha, é que eu teria que trabalhar dez anos para conseguir pagar aquele carro. E não seriam dez anos de economia, não. É dez anos sem almoço e sem janta. Sem aluguel e sem dinheiro pra roupa nova. Eu não ia conseguir pagar a gasolina, muito menos o IPVA.

Mas uma coisa que ainda faz sentido desde a quarta série, é que tudo no universo tem explicação. Meu vizinho é contador. Ele trabalhava contando dinheiro. E quem quer ter dinheiro trabalha com dinheiro, não com arte. É por isso que eu tô aqui, escrevendo texto pro blog. Eu poderia estar por aí dando volta de carro chique, mas estou simplesmente tentando entender o mundo.

Tentando entender

Eu sei que o objetivo de nós, humanos, é complicar as coisas. Entendo que é difícil sobreviver nesse negócio de vida, e a gente cria toda uma estrutura para fingir que estamos bem.

Mas eu aprendi desde pequenininho que, para entender como as coisas funcionam, é preciso desmontá-las. Olhar por dentro. É um pequeno exercício que eu faço pra entender o mundo. Se você ainda não entendeu sobre o que estou falando, tudo bem. Temos todo o tempo do mundo. Vou tentar explicar.

Por exemplo, temos restaurantes. Não tenho nada a falar mal dos restaurantes. A questão deles é que são um lugar onde você vai e a comida está pronta. Você paga por ela. Nada demais até aqui. A questão é: existem pessoas que trabalham neste restaurante. Elas recebem dinheiro para trabalharem no lugar onde se supre a necessidade básica delas, que é comer. Por que elas recebem dinheiro? Para comprar, por exemplo, tênis.

Nós precisamos de tênis. E alguns são muito bons. Mas acontece que, quando um fabricante faz o tênis, o vendedor precisa contratar um fotógrafo e um designer. Eles fazem uma imagem enorme do tênis novo num outdoor numa avenida, onde passam milhares de pessoas por dia. O garçom, que trabalha no restaurante, passa para ir trabalhar e olha o outdoor enorme. Ele compra o tênis, e paga o vendedor, o fotógrafo, o designer e o fabricante do tênis. Então os sócios e donos da empresa do vendedor, do fotógrafo, do designer e do fabricante do tênis vão ao restaurante. Eles comem e pagam o salário do garçom, que lhes traz comida e lhes supre a necessidade básica de querer comer mais.

É difícil mesmo entender isso tudo, mas, ao que parece, estamos todos bem.

O mundo funciona desse jeitinho. Deixa ele assim.

No final, quase sempre compensa o estrago.

Sustentável

Um belo dia, não se sabe porquê, cientistas super sensatos calcularam e descobriram, quase que inesperadamente, algo que mudou toda a história da indústria. O cálculo foi assim: Eles pegaram todo o número de seres humanos sobre o Planeta Terra. Depois somaram todo o número de automóveis, motocicletas, bicicletas, patins e chinelos de praia que existem. Então dividiram um pelo outro. Não não, dividiram outro pelo um. E descobriram que já existia meio de locomoção para todos os seres humanos vivos, e para as próximas cinco gerações. Melhor ainda, os veículos atuais iriam se degastar, o que aumentaria o preço de compra e venda, e aí já era problema dos economistas – que, quase todos concordavam, não eram cientistas de verdade.

Ninguém mais precisaria trocar seu carro de 2027 modelo 2028 pelo 2028 modelo 2029. Deixaríamos tudo escrito bonitinho para nossos tatataranetos voltarem a produzir carros, e até lá só nos preocuparíamos com o combustível.

Começou assim, com um grupo de estagiários jogando conversa fora no campus de alguma universidade. Os cientistas da indústria automobilística comprovaram a teoria, e tomaram para eles porque, afinal, já estavam cansados a pesquisar como fazer um carro atingir 500km/h já que as pistas só permitiam 200km/h.

Depois a moda pegou, e o pessoal do plástico já começou a calcular todas as tupperwares, copos, garrafas pet e canudos, descobrindo também que já podiam parar de produzir plástico. Todos os patinhos e brinquedos de plástico seriam suficiente para a humanidade existente e até sua extinção. Passaram então a ocupar o seu tempo pesquisando o que fazer com o plástico que já tinha sido produzido.

O pessoal da indústria do papel já tinha desistido de produzir papel quando passou a ter menos árvores que seres humanos. As moedas, que ainda eram de papel, subiram drasticamente o preço, fazendo com que a indústria dos chips aumentassem um pouco a produção de moeda digital. Eles também chegaram à conclusão de que já haviam camas, armários e cadernos de mão o suficiente para as próximas cinco gerações, e ficaram de boa.

Não precisamos listar o caos que se instaurou na indústria, e impacto negativo na economia. Milhares de economistas e contadores repentinamente assumiram que eram de humanas, e foram protestar nas praias. O maior problema, por incrível que pareça, foi na área da saúde.

Médicos e cientistas pesquisadores se reuniram, e descobriram que, na verdade, não teríamos seres humanos suficiente até o final dos recursos que já tínhamos gastado. Reduzimos ainda mais a taxa de natalidade, e cuidamos dos nossos idosos enquanto eles nos contavam como estavam orgulhosos da nossa geração, já que eles só se preocupavam com internet, drogas e sertanejo universitário.

Deu um pouco de trabalho, mas, felizmente, vimos nosso apocalipse chegando mais lentamente, e pudemos nos preparar, sentados em nossas poltronas reclináveis de plástico.

Nada acontece

Ninguém sabe exatamente como nem quando as coisas deixaram de acontecer naquela cidade, mas as coisas deixaram de acontecer. As pessoas não saíam das suas casas, não brigavam, não engravidavam, não traíam. Era uma típica cidade de interior, onde todo mundo conhece todo mundo, e qualquer coisa que qualquer um fizesse, todos saberiam e fariam seus julgamentos. Fulano saía com a fulana e no dia seguinte era o assunto dos salões de beleza e dos bares. A notícia tomava forma e tamanho. ‘Foi pra cama ou não foi? Engravidou. Pois é. Fulano vai ser pai. É menina’. Só saíram. Qualquer coisinha que acontecia movia a cidade, fazia aquelas pequenas pessoas serem felizes com suas pequenas futilidades. 

Sair para trabalhar, voltar para casa e assistir tevê não é nada de extraordinário. As pessoas não comentam isso. Os comentários nos bares são feitos da vida dos outros, e de repente a vida de ninguém tinha movimento o suficiente para se comentar. Os bares foram ficando vazios, porque em casa parecia estar tudo tão certo a ponto dos maridos não precisarem sair para beber e reclamar da vida. Sentar na frente da tevê bastava. O jornal local ficou desesperado. Não haviam mais notícias. Ninguém casava, traía ou ficava bêbado nas festas. Não haviam mais festas para se ficar bêbado. 

“…Por aqui passava um moço de carrão, vindo da cidade grande. As crianças paravam o futebol só para ver o carro passar. Os homens da vila ficavam falando do carrão azul passando, no bar. Nem futebol tem mais. Mas eu continuo sentado aqui na varanda” conta o saudoso seu João que, montando seu fumo na sua cadeira de varanda, ainda espera alguma coisa acontecer.

Com escassez de acontecimentos a vida ficou difícil. Afetou a economia e tudo. Notícias  corriqueiras ficaram supervalorizadas. O jornal colocou notícias a prêmio na semana seguinte. Quem chegasse com fofoca ganhava salário de redator. As senhoras que fofocavam na calçada montaram uma patrulha da fofoca. Eram caçadoras de furos da vida alheia. Mas não tinha nada. As filas de mercado ficaram silenciosas, a vida não era mais novela. Quando simplesmente nada acontece, ninguém sabe exatamente o que fazer…

Caro amigo extraterreno

Meu caro amigo extraterreno,

Eu sei que, olhando daí de cima, muita coisa parece complicada e sem sentido aqui em baixo, e é sim. Estou te escrevendo especialmente para tentar descomplicar qualquer coisa que te impeça de vir dar umas voltas por aqui, aproveitar o verão, as praias e fiordes, e lidar com o bom humor dos seres humanos…

Por exemplo, por aqui se você quiser aproveitar o verão, as praias e fiordes, você vai precisar muito de um negócio que costumamos chamar de dinheiro. É mais fácil eu e explicar o que são verões do que dinheiro, mas, veja, estou aqui para te ajudar, e logo você vai entender disso tudo como um bom humano.

Olha, não nos subestime. Nós temos história.

Quando começamos a morar em cavernas mais próximas, uma caverna tinha mais de uma certa coisa, enquanto a outra tinha mais de outras coisas e vice versa. Era preciso um meio de trocar as coisas por coisas equivalentes. Inventamos, brilhantemente, a moeda. A moeda seria esse meio de troca entre uma coisa e outra. Mas a moeda não pode ser, por exemplo, Rabanada. Existem muitos tipos de rabanada, e umas melhores que as outras (te explico depois o que é rabanada). Então o que nos fizemos? De maneira absurdamente genial, pegamos uns pedaços de metais, fizemos uma máquina que pega papel (um material muito barato por aqui, mas aposto que vocês nem usam mais) e prensamos esse papel de um jeito que ele fique único e facilmente identificável. Por exemplo, com o desenho de um peixe de um lado, e um número do outro. Esses papeizinhos coloridos já geraram guerras e mortes. Muitos conflitos. Coisas que nós, humanos, adoramos.

Com poucas notas dessas, você consegue uma bela porção de camarão e cerveja gelada em qualquer praia do litoral Brasileiro, sem deixar de aproveitar do calor e da hospitalidade humano!