Senhorzinho sensato

Vi um senhor, parado no meio da calçada embaixo de uma árvore. Ali ele estava com sua bicicleta, e usava uma máscara.

Muito precavido esse senhor, em tempos de pandemia, mesmo saindo de casa usava a máscara sem ser no pescoço, ou com o nariz de fora. Também estava andando de bicicleta nesse bairro que tem pouco movimento e nenhuma aglomeração nas praças.

O senhor parou ali embaixo da árvore. Abaixou a máscara cuidadosamente, e mexeu no bolso, tirando alguma coisa. Depois ele começou a mexer nas mãos. Muito bem. O senhorzinho trazia seu próprio álcool em gel.

Não, não era álcool em gel. Ele estava embolando seu cigarrinho. Fez isso mais cuidadosamente ainda. Acendeu e tragou várias vezes ali, embaixo da sombra. Muita sensatez, mesmo. Andar de máscara.

Mas tirar a máscara pra acender um cigarro? Ta bom…vou atravessar a rua e continuar voltando pra casa.

Novo Novo Normal

Depois de ser normal a expressão “novo normal” o normal passou a ser outro totalmente diferente do que pensávamos ser o “novo normal”. Estamos vivendo assim no novo “novo normal”. Ou, talvez, normal novíssimo. Ninguém sabe

Nomenclaturas à parte, já sabemos que nomear momentos históricos não funcionam enquanto se está vivendo ele. Primeiro que não se entende a complitude do momento, e todos os fatos que ocorrerão no período a ser nomeado.

Além disso, quem vive no momento não quer saber se ele vai ser considerado bom ou ruim nos livros de história. Estamos aqui para sobreviver. Se sairmos bem na foto, é só consequência.

Tendo dito isso, eu até tinha preparado um texto sobre o “novo normal” para postar aqui (e, até este ponto você já percebeu que “novo normal” com aspas é o normal imaginário. Agora falaremos do normal real). Eu não o publiquei, por perceber que, aos poucos, o normal que estamos vivendo é muito diferente do que dissemos que seria.

Se antes era o normal de home office, conviver bem com os membros da família e aprender a lidar com a solitude, a realidade deu um tapa na nossa cara. Romantizaram (e gourmetizaram) até a pandemia. Mas é muito difícil se reinventar quando se passa fome. Lidar com um vírus respiratório quando não se tem máscara, detergente e água na torneira. É triste construir um ambiente produtivo enquanto um país adoece.

Livros estão sendo e serão escritos sobre os tempos na pandemia moderna, e muitos deles começarão com “em tempos de corona”, além de alguns capítulos falando sobre esse tal “novo normal que nunca chega”. Vou deixar esse tópico para esses livros que virão.

Por enquanto, o novo normal são pessoas defendendo seu direito de liberdade de não usar máscara e sair quando quiser, e centenas de vidas perdidas por mortes que poderiam ser evitadas. Nós podíamos ter feito melhor. Sempre poderíamos.

Cumprimento

Era de manhã.

Ele entrou na sala falando no celular, e segurando um monte de coisas na outra mão. Apoiou o celular no ombro, cumprimentou meu colega com a mão. Se virou para mim e estendeu a mão para que eu o cumprimentasse.

Sim. Ele, que nunca vi usando máscara desde março. Ele que demorou dois meses para deixar álcool disponível para todo mundo, e que nunca vi usando também nos últimos seis meses. E que, se não segue nenhuma dessas recomendações, muito provavelmente também não respeita o isolamento social.

Ele que viajou mês passado, e há algumas semanas está tendo crises de tosse pelo menos duas vezes por dia. Ele que tosse na mão, e pega as coisas depois, me fazendo desinfetar tudo, enquanto ele não está.

E enquanto você lia tudo isso ele estava com a mão estendida, e eu pensando em milésimos de segundos.

Eu o cumprimentei, lógico.

Ele virou as costas, e saiu da sala. Me certifiquei de não encostar em mais nada enquanto saía.

Lavei minha mão com álcool em gel.

O dia se seguiu normalmente.

Proteger para amar

Era inverno de 1998. Um tempo seco, e um vento gelado que levou minha mãe a me amar e proteger, como sempre faria dali pra frente


Estávamos em um evento em São Paulo, numa área aberta, e estava muito frio mesmo. A níveis de São Paulo, então você imagina que é frio de verdade. O vento gelado castigou minha mãe e minha irmã durante boa parte da tarde, além de todas as pessoas que ali estavam. Menos eu.

Eu tinha menos de dois anos de idade, e minha mãe me protegeu por dentro das blusas, e, encoberto pelas roupas e cobertas que me envolviam, me mantive quentinho.

Minha mãe e irmã não tiveram a mesma sorte. Alguns dias depois foram diagnosticadas com pneumonia. Eu só tive uma febre leve. A mãe passou alguns dias internada e as duas se recuperaram. Bom, mais ou menos.

Ainda hoje minha mãe tem uma tosse crônica, que ataca especialmente em tempos secos como esse do inverno. Nas últimas semanas acordei algumas vezes com os barulhos da crise de tosse dela vinda do outro quarto.

Hoje, vinte e dois anos depois, minha responsabilidade é cuidar dela do mesmo jeito que ela cuidou de mim. Então se eu pareço o paranoico do álcool em gel, se uso máscara mesmo quando não precisa, ou até se eu for um pouco deselegante ao pedir a distância recomendada de dois metros, entenda.

Naquele inverno de 98 minha mãe me amou para me proteger.

O amor dela por mim gerou a proteção que eu tive para não ficar doente. Hoje, em 2020, eu preciso proteger para amar. Hoje ela tem esse histórico de pneumonias como fator de risco. Se eu protegê-la de se infectar e sofrer com a doença desse vírus, vou poder amá-la por mais tempo.

É só isso.

Vírus, não. Patógeno globalizado

Em tempos de Covid, “em tempos de Covid” virou o novo “com o advento da globalização”. Até porque, não haveriam tempos de Covid sem o advento da globalização.

E, como seres globalizados, deveríamos nos comportar como tal. Não só aprendendo inglês ou mandarim, mas entendendo que, acima de tudo, seres humanos são humanos onde quer que vivam. E saber que, apesar da cultura que você faz parte pode modificar o modo como você vive, não muda em nada a latitude e longitude do local do seu nascimento.

As fronteiras entre paises pelos quais lutamos, entramos em guerra e nos engalfinhamos em batalhas pífias de nada valem para um vírus. Ele não precisa de passaporte. Não votou a favor ou contra o brexit, e está pouco se lixando para quem você votou nas últimas eleições.

Chamar o patógeno de “vírus chinês” é equivalente a chamar o cão de pastor alemão, o roedor de “porquinho da índia” ou o urso de demônio da Tazmânia. Não, não. O demônio é da Tazmânia, mesmo. Os outros não fazem sentido algum.

Nós atribuímos intenções às coisas. Faz parte do nosso instinto de sobrevivência entender porque a moita está se mexendo, ou de onde vem o rugido dessa onça, e porque elá está chegando tão perto. No fundo, você sabe que não choveu só porque você lavou o carro ou saiu sem guarda-chuva. Choveu porque as massas de ar e água evaporada se tornaram mais densas que o oxigênio e, portanto, precipitaram. A chuva não está nem aí pra você.

Tampouco o vírus. Ele também não liga se você é descendente de português, italiano, angolano ou nigeriano. Não quer nem saber quantos salários mínimos você recebe por mês, ou qual o carro novo que você comprou.

E, nesse sentido, o Sars-cov2 é bem evoluído. Imparcial e sem preconceito. Muito melhor do que você.