Contágio #10

Episódio anterior

A filha do seu Odair estava na frente da casa do seu pai, com o celular na mão.

Ele não atendia as ligações, e agora também não atendia ao portão. Depois de chamar algumas vezes, ela se lembrou do lugar onde o pai escondia a chave. Passou a mão pelas grades e apalpou o muro até encontrar uma chave pendurada num prego. Abriu e entrou.

Um grito

Seu pai estava desmaiado no chão do corredor entre a sala e a cozinha.

O que aconteceu depois foi rápido demais para seu cérebro processar.

Ligou. Abriu o portão. A ambulância chegando. Seu pai na maca, desacordado. As sirenes ligadas. Segurando a mão de seu pai até o hospital.

Seu Odair foi transferido para a cidade grande mais próxima, e ficaria internado por, pelo menos, uma semana.


Oitenta e nove infectados. E subindo.

Contágio #9


Episódio anterior

Seu Odair ligou pra filha.

– Passa aqui pra pegar a chave?
– Passo pai. O senhor não vai trabalhar hoje?
– Hoje não acordei muito bem. Uma dor no corpo. Deve ter sido das caixas que eu carreguei ontem.
– O senhor carregou aquelas caixas sozinho, pai? – ela suspirou – tá bom. Eu passo aí então. Mas toma algum remédio pra dor, tá? Se quiser eu levo um pro senhor.
– Não precisa. Eu tenho aqui. – deu umas duas tossidas – Fico deitado um pouco e já melhoro

A campainha tocou, e seu Odair levantou muito rápido para atender sua filha. Acabou tendo um pouco de tontura, mas controlou a respiração. E, na pressa de atendê-la para levar a chave, ficou ofegante.

Seu Odair estava com febre.

Três semanas

Sessenta e dois casos

Um caso suspeito

Contágio #8

Episódio anterior

Mateus se sentia cansado só de lembrar que no dia seguinte voltaria a trabalhar. Não queria dar desculpas para faltar ao primeiro dia de serviço depois de umas pequenas férias, mas sentia um pouco de dor nas costas e febre.

Antes de ligar o videogame, deixou por um tempo no jornal. Sua mãe fazia crochê na sala.

– A Claudia falou que parece que tem um caso confirmado na cidade, já.

– A Claudia, mãe? De onde que ela ouviu falar?

– Não sei. O pessoal na cidade ta falando…

No jornal, as notícias da demissão do ministro da saúde, e mudanças no ministério. Alguma coisa sobre sermos o único país a substituir o ministro da saúde no meio da maior crise sanitária do século. Todos os canais falavam sobre isso. Bom, na verdade quase todos. Alguns outros indicavam os números de casos confirmados e óbitos nas últimas 24 horas do país. Tudo isso, além de números internacionais.

Todos a queles números, e aquelas reportagens na frente de hospitais pareciam distantes demais para Mateus. Achou melhor ir dormir para estar descansado para o dia seguinte.

Série – Contágio

“Por enquanto tá tranquilo. Não tem nenhum caso confirmado aqui na cidade ainda” alguém argumenta para evitar, ou furar o isolamento social. Mas a Covid-19 chega para todo mundo, especialmente na situação em que Brasil se encontra.

Toda semana, aqui no blog, é publicado ao menos um episódio da série Contágio, que mostra como a Covid-19 pode chegar mesmo às cidades pequenas do interior. O primeiro episódio acompanha Carlos, um entregador de uma distribuidora de bebidas, e um pequeno desconforto que sentiu, por ser um transmissor assintomático do novo coronavírus. A partir da entrega em apenas um mercado pequeno, acompanhamos uma das cadeias de transmissão do contágio de uma pequena cidade, que poderia ser a sua.

Ao ler os episódios da série, identifique onde os personagens foram descuidados. Onde poderiam ter evitado o contágio e onde acabaram transmitindo o vírus. Faça o possível, nas próximas semanas e nos próximos meses, para não se contaminar, e não contaminar outros.

Leia a série Contágio, no link abaixo:

Episódio 1

Episódio 2

Episódio 3

Episódio 4

Episódio 5

Contágio #6

Episódio anterior

 – Pai, eu trouxe para o senhor e pra mãe – disse a filha do seu Odair. Eram máscaras que ela mesma fez, junto com sua sobrinha, no último fim de semana. 

  – Não vou usar isso aqui, não – disse seu Odair. 

E o resto do dia foram discussões sobre a máscara afastar os clientes, e não ter casos confirmados na cidade ainda, ou que não é uma gripezinha que vai matar seu Odair, que já sobreviveu a um câncer. 

As vendas do seu mercadinho não caíram tanto quanto pensava. Com os grandes mercados proibindo a entrada de mais de uma pessoa por família, e alguns outros comércios começando a serem multados por não respeitarem a lei da quarentena, muitas pessoas preferiram comprar em mercadinhos menores como o do seu Odair. 

Finalmente, chegou o carregamento de álcool gel. Depois de ter zerado o estoque, e ele ter ligado várias vezes para o fornecedor. 

  – Só assinar, seu Odair Ribeiro?  – perguntou o homem enorme, de máscara. 
  – Isso mesmo 
  – Assine aqui. E aqui – apontou para o papel, deixando em evidência suas luvas brancas. 

Antes de entrar no caminhão, o homem tirou as luvas com muito cuidado, e passou álcool em gel nas mãos. Esterilizou o painel e o volante. Procurou na lista qual seria sua próxima entrega. 

Seu Odair observou, da entrada do mercado. A rua parecia vazia para qualquer lado que se olhasse. 

Voltou para trás do caixa, e colocou a máscara. Se encaixou perfeitamente em seu rosto. Olhou lá para o fundo, e a filha passava pano em um dos corredores, também usando máscara e luvas de limpeza. 

Tudo parecia tranquilo, até então. 

Assim, menos pessoas seriam contaminadas.