Seja legal com seus vizinhos

A casa estava na fase final da pintura, e eu já trouxe algumas coisas minhas para começar a dormir aqui. Levou uma ou duas noites para que eu deixasse o cantinho do colchão do meu jeito, e me sentisse confortável com a casa nova. Mas logo a primeira noite senti grande diferença com o silêncio do bairro novo (muito diferente dos barulhos do bairro anterior) além da casa ser um pouco mais quente.

Enfim, eu estava na minha casa. Nessas semanas eu ia almoçar na casa dos meus pais, trabalhava e vinha somente para dormir.

Então terminei a compra dos móveis grandes, que agora poderiam ser entregues pela transportadora direto no imóvel, sem maiores complicações. Bom, foi isso o que eu pensei.

Comprei, coloquei o endereço novo. Tudo certo.

Mas, como eu já disse ali em cima, eu estava passando o dia todo fora. Inclusive nos horários em que a transportadora chegava com minha geladeira, a máquina de lavar e tudo o que eu comprava. O entregador, coitado, batia com a cara na porta. O meu cadastro estava desatualizado. Ele ligava para o meu número antigo e ninguém atendia. O que aconteceu?

Aí entra em cena Dona Cida. A grande heroína dessa história toda. Eu cheguei em casa depois das seis da tarde, e ouvi alguém chamando no portão. Ela se apresentou, e disse que vieram entregar uma geladeira e ela recebeu. Se não recebesse, o móvel acabaria voltando para Niterói, e sabe-se lá quando eu conseguiria ir buscar em Niterói.

Dona Cida foi a melhor vizinha que eu poderia ter. Recebeu a geladeira, o ar condicionado, a máquina de lavar. E ainda por cima ela acorda cedo e varre a calçada da casa dela e da minha. “Já fizeram isso por mim, agora eu faço pelos outros também” ela diz.

O aprendizado que fica aqui é de ser legal com os seus vizinhos. Ser legal como a Dona Cida é.

Um marco na vida é só um dia comum

Depois de alguns dias de pintura, a casa estava pronta para receber móveis e começar a ficar ainda mais com a nossa cara. Cada parede, e cada cantinho teve o nosso cuidado ao pintar, lixar, limpar. Tudo isso levou cerca de três dias. Pois é, a casa não é muito grande.

Depois de um dia de serviço e pintura, eu tomei banho na casa dos meus pais. Troquei de roupa e coloquei coisas dentro do Palio 97 (vulgo Joaninha). Um colchão de casal, Algumas lâmpadas, cadernos e canetas. Um violão e as coisas que eu levaria para o trabalho no dia seguinte.

Eu estava fazendo minha mudança da casa dos meus pais. E me dei conta disso enquanto colocava as coisas no carro. Estava dando “boa noite” para meus pais, e saindo para a minha casa. Enquanto estava descarregando tudo, e colocando as poucas coisas no lugar, eu senti algo inédito.

Eu estava mesmo na minha casa. Todos os últimos meses se passaram como um filme na minha cabeça. A casa que não deu certo. Os dias de chuva, andando pela cidade a procura de uma casa para alugar. Encontrar essa em que estou escrevendo este texto. Pintar e arrumar cada cantinho.

Ainda além disso tudo, estar saindo da casa dos meus pais para a minha casa. Vinte e três anos dormindo sob o mesmo teto que eles, acordando e convivendo com eles. Uma nova fase da minha vida se iniciara naquela noite.

E era uma noite normal. A lua não estava nem nascente nem cheia. O tempo estava calmo e com uma leve brisa. Para a grande maioria das pessoas aquela noite, tão cheia de significados para mim, era só uma noite.

Assim eu percebi que, para o mundo, um marco na sua vida é só uma noite comum.

Calcule o custo, e então dobre

Encontramos a casa perfeita, e ela já era nossa por contrato. Bom. Pelo menos pelos próximos 12 meses, sem reajuste, com algumas condições e cláusulas que li tudinho, mas não vem ao caso aqui …

É uma edícula de um quarto, sala e cozinha divididos por um balcão. Já estávamos pensando na disposição dos móveis e decoração. Mas a maior questão aqui era: qual seria a cor da nossa casa? Isso porque, segundo o locador, eu poderia pintá-la, e ele não me cobraria uma pintura ao sair da casa. Então podemos deixá-la da cor que quisermos. E foi o que fizemos.

Eu ainda estava trabalhando em periodo integral, então deixei as instruções claras para minha família que estava cuidando da pintura. Era uma lata grande de branco neve, algumas bisnagas para mistura e o resto a gente ia comprando conforme a necessidade. Pedi uma lata porque (achava eu) seria suficiente para a pintura da casa toda. Não foi.

Além do pequeno detalhe de terem comprado e pintado a casa de branco gelo (que abriria toda uma discussão do espectro de tons de branco), a lata de tinta agora estava cinquenta reais mais caro do que estava no mês anterior.

A mesma lata de tinta. Na mesma loja de construção.

Cinquenta reais.

Não só isso, como além da tinta branco (gelo) foram gastos com uma reforma na pia, um probleminha na instalação elétrica, uma breve reforma nas portas e janelas. Coisa pouca.

Eu tinha calculado cerca de duzentos reais para deixar a casa com a nossa cara (minha e de minha digníssima) e hoje posso calcular que esse valor foi, pelo menos, o dobro do reservado.

Foram algumas semanas antes e depois do casamento deixando cada pedaço da casa do nosso jeito, e ficou perfeita. Mas tudo tem um custo.

Você só deve saber, caro leitor, que o custo pode (e vai) ser maior do que você imagina.

Não deixe pra amanhã, mesmo que seja daqui a pouco

Em menos de uma semana encontramos uma casa que não parecia um cativeiro, e fechamos contrato o mais rápido possível. O locador é muito gente boa e conhecido aqui na cidade pequena. No fim de semana mais próximo assinamos o contrato e peguei a chave da casa.  

No instante em que a chave e o contrato da casa estavam em minhas mãos, me senti um adulto como poucas vezes havia sentido. Mandei mensagem para minha digníssima, e em alguns minutos estávamos entrando na casa que seria nossa pelo tempo que está redigido no contrato. E ela é um sonho. 

O banheiro não parece nada com um cenário de assassinato. A casa tem ângulos retos e é muito bem construída. Era uma tarde de sábado, e eu pensava em ter tempo para digerir o fato de que, pela primeira vez na vida, eu já tinha a minha casa para morar. E não era a casa dos meus pais. 

Ali, na futura sala de casa, conversamos sobre onde colocar os móveis e a decoração. 

– Vamos começar a limpar? – disseram os pais da minha querida. 

Os meus planos eram: acordar cedo no dia seguinte, empacotar e arrumar mais algumas coisas para vir fazer a limpeza o mais rápido possível. Daria tempo de fazer tudo com calma.  

Calma coisa nenhuma!

Menos de meia hora depois a casa já estava sendo varrida, lavada e esfregada por mim, minha digníssima editora chefe e nossos pais. Em poucas horas tudo estava seco e pronto para começar a receber as novas camadas de tinta nas paredes. E foi o que se seguiu nos dias seguintes, que será descrito no próximo episódio desta série. 

Continue procurando até encontrar o que você quer

Quando você quer algo, você deve continuar procurando até encontrar o que você quer, e não o que você precisa.

Eu digo isso porque, seguindo os acontecimentos do último episódio, estávamos sem casa pra morar. O casamento seria dali pouco mais de um mês. Então começou temporada de caça de casas para alugar. Ela foi virtualmente, pelos grupos de desapega e aluguel em todos os cantos da internet. Eu fui a campo mesmo. Andando de bicicleta procurando plaquinhas de Aluga-se pela cidade e pelo bairro. Foram 3 dias em que a chuva começou exatamente quando eu estava no ponto mais longe de casa, e o óculos embaçado impossibilitava a visão das tão procuradas plaquinhas.

A busca da minha querida foi mais bem sucedida, e logo conseguimos contato de uma corretora. Eu busquei a chave e fui ver a casa que gostaríamos de chamar de Casa do Assassinato. Não é só por efeito dramático, não. Parecia mesmo que havia acontecido um assassinato lá, mesmo. Especialmente no banheiro.

Não só isso, como a casa era em uma das ruas mais isoladas da cidade, e não seguia o alinhamento padrão das quadras da cidade, formando uma espécie de trapézio no quarteirão da Casa do Assassinato. Pareceu bem ao mestre de obras e o criativo engenheiro seguir o alinhamento inovador do quarteirão, criando, assim, uma casa completamente torta. Não haviam ângulos retos na casa do Assassinato. Além dos quartos atacarem a labirintite de qualquer pessoa, o banheiro parecer que foi palco de uma obra da Agatha Christie do mal, ainda o corredor lateral tinha pouco menos de um metro e meio, e a garagem tinha o formato de um triângulo isósceles.

É óbvio que não ficamos com a casa. Mas continuamos procurando até encontrarmos o que queríamos. Entramos em contato com amigos, colegas do trabalho. Em poucos dias eu estava em uma casa que havia me apaixonado. Mandei fotos para minha amada editora chefe, que logo imaginou onde ficariam os móveis, e quais paredes pintar.