Ser adulto ocupa muito tempo

Depois de todas as coisas estarem em seu lugar, acabamos dando uma pausa nas reformas pra respirar, preparar as coisas do casamento e entender tudo o que estava acontecendo. Toda essa mudança.

E foi aí que eu me deparei com o fato de que sou adulto. Estava pagando meu aluguel, minha primeira conta de água e de luz. Foi legal perceber isso, e ver que eu não estava mau humorado como os adultos são para as crianças. Mas uma coisa é certa. Eu estava sem tempo pra nada.

Os textos continuaram e persistiram aqui no blog por um bom tempo porque eu tinha uma reserva. Mas estava trabalhando, fazendo pequenas reformas na casa, jantando nos meus pais, fazendo compras (e enchendo aos poucos a geladeira novíssima), limpando e deixando tudo organizado, e ainda gravando podcast. Nem parecia que o dia tinha tudo isso de horas, porque passava rápido, e quando eu via já estava deitado de novo, sem energias pra fazer mais nada.

É, querido Pedro do passado. Aproveite suas tardes sem fazer nada. Essa vida aqui de adulto é corrida. Cansa. E ocupa muito, mas muito tempo

Aceite ajuda de outros olhos

Com ajuda da dona Cida, nossa casa estava ficando com cara de casa de verdade. Os móveis entrando nos lugares, e a cama, o fogão e a geladeira estavam sem os plásticos de produto novo que acabou de chegar.

O único lugar da casa que eu e minha digníssima não tínhamos acertado como ficaria era a sala.

Ganhei quatro pallets da Vitoria (Obrigado, Vi!) e minha missão era transformá-los em algo que decoraria a sala de um jeito único, que você encontra em qualquer página DIY de pinterest. E foi assim durante uns 3 ou 4 dias, chegando em casa do serviço e fazendo medições, marcações. Enquanto anoitecia eu estava ali cortando os palelts com uma serra elétrica. Lixando madeira por madeira, ripa por ripa. Depois, com ajuda da noiva e da sogra, eles foram pintados uniformemente de branco. Ficaram lindos.

Mas quando chegou no dia de montar, eu cocei a cabeça. Tentei lembrar de todo o planejado quando fiz as marcações e cortei. Os quatro pallets pintados de branco (removendo as marcações que eu havia feito) foram o quebra cabeças mais difícil que eu já montei. E não montei sozinho.

Esperei chegar o fim de semana e pedi ajuda do meu pai. Ele veio, com a furadeira, mais ferramentas e parafusos. Além disso tudo, veio com a experiência de quem construiu duas casas e montou e desmontou muitos guarda-roupas na vida. É, ele é meu pai.

E me deu ideias muito simples de jeitos de montar que eu nunca pensaria sozinho. Em pouco mais de uma hora e meia, 4 pallets se tornaram um sofá perfeito. Eu usei meu colchão como estofado.

Semanas depois comprei luzes que tornaram nosso sofá de pallet ainda com mais cara de pinterest.

Mas aprendi que, por mais que você saiba o que está fazendo, nunca saberá tanto quanto quem já fez muito mais vezes que você. Experiências dão as melhores habilidades e, sempre que possível, aceite ajuda de outros olhos.

Seja legal com seus vizinhos

A casa estava na fase final da pintura, e eu já trouxe algumas coisas minhas para começar a dormir aqui. Levou uma ou duas noites para que eu deixasse o cantinho do colchão do meu jeito, e me sentisse confortável com a casa nova. Mas logo a primeira noite senti grande diferença com o silêncio do bairro novo (muito diferente dos barulhos do bairro anterior) além da casa ser um pouco mais quente.

Enfim, eu estava na minha casa. Nessas semanas eu ia almoçar na casa dos meus pais, trabalhava e vinha somente para dormir.

Então terminei a compra dos móveis grandes, que agora poderiam ser entregues pela transportadora direto no imóvel, sem maiores complicações. Bom, foi isso o que eu pensei.

Comprei, coloquei o endereço novo. Tudo certo.

Mas, como eu já disse ali em cima, eu estava passando o dia todo fora. Inclusive nos horários em que a transportadora chegava com minha geladeira, a máquina de lavar e tudo o que eu comprava. O entregador, coitado, batia com a cara na porta. O meu cadastro estava desatualizado. Ele ligava para o meu número antigo e ninguém atendia. O que aconteceu?

Aí entra em cena Dona Cida. A grande heroína dessa história toda. Eu cheguei em casa depois das seis da tarde, e ouvi alguém chamando no portão. Ela se apresentou, e disse que vieram entregar uma geladeira e ela recebeu. Se não recebesse, o móvel acabaria voltando para Niterói, e sabe-se lá quando eu conseguiria ir buscar em Niterói.

Dona Cida foi a melhor vizinha que eu poderia ter. Recebeu a geladeira, o ar condicionado, a máquina de lavar. E ainda por cima ela acorda cedo e varre a calçada da casa dela e da minha. “Já fizeram isso por mim, agora eu faço pelos outros também” ela diz.

O aprendizado que fica aqui é de ser legal com os seus vizinhos. Ser legal como a Dona Cida é.

Um marco na vida é só um dia comum

Depois de alguns dias de pintura, a casa estava pronta para receber móveis e começar a ficar ainda mais com a nossa cara. Cada parede, e cada cantinho teve o nosso cuidado ao pintar, lixar, limpar. Tudo isso levou cerca de três dias. Pois é, a casa não é muito grande.

Depois de um dia de serviço e pintura, eu tomei banho na casa dos meus pais. Troquei de roupa e coloquei coisas dentro do Palio 97 (vulgo Joaninha). Um colchão de casal, Algumas lâmpadas, cadernos e canetas. Um violão e as coisas que eu levaria para o trabalho no dia seguinte.

Eu estava fazendo minha mudança da casa dos meus pais. E me dei conta disso enquanto colocava as coisas no carro. Estava dando “boa noite” para meus pais, e saindo para a minha casa. Enquanto estava descarregando tudo, e colocando as poucas coisas no lugar, eu senti algo inédito.

Eu estava mesmo na minha casa. Todos os últimos meses se passaram como um filme na minha cabeça. A casa que não deu certo. Os dias de chuva, andando pela cidade a procura de uma casa para alugar. Encontrar essa em que estou escrevendo este texto. Pintar e arrumar cada cantinho.

Ainda além disso tudo, estar saindo da casa dos meus pais para a minha casa. Vinte e três anos dormindo sob o mesmo teto que eles, acordando e convivendo com eles. Uma nova fase da minha vida se iniciara naquela noite.

E era uma noite normal. A lua não estava nem nascente nem cheia. O tempo estava calmo e com uma leve brisa. Para a grande maioria das pessoas aquela noite, tão cheia de significados para mim, era só uma noite.

Assim eu percebi que, para o mundo, um marco na sua vida é só uma noite comum.

Calcule o custo, e então dobre

Encontramos a casa perfeita, e ela já era nossa por contrato. Bom. Pelo menos pelos próximos 12 meses, sem reajuste, com algumas condições e cláusulas que li tudinho, mas não vem ao caso aqui …

É uma edícula de um quarto, sala e cozinha divididos por um balcão. Já estávamos pensando na disposição dos móveis e decoração. Mas a maior questão aqui era: qual seria a cor da nossa casa? Isso porque, segundo o locador, eu poderia pintá-la, e ele não me cobraria uma pintura ao sair da casa. Então podemos deixá-la da cor que quisermos. E foi o que fizemos.

Eu ainda estava trabalhando em periodo integral, então deixei as instruções claras para minha família que estava cuidando da pintura. Era uma lata grande de branco neve, algumas bisnagas para mistura e o resto a gente ia comprando conforme a necessidade. Pedi uma lata porque (achava eu) seria suficiente para a pintura da casa toda. Não foi.

Além do pequeno detalhe de terem comprado e pintado a casa de branco gelo (que abriria toda uma discussão do espectro de tons de branco), a lata de tinta agora estava cinquenta reais mais caro do que estava no mês anterior.

A mesma lata de tinta. Na mesma loja de construção.

Cinquenta reais.

Não só isso, como além da tinta branco (gelo) foram gastos com uma reforma na pia, um probleminha na instalação elétrica, uma breve reforma nas portas e janelas. Coisa pouca.

Eu tinha calculado cerca de duzentos reais para deixar a casa com a nossa cara (minha e de minha digníssima) e hoje posso calcular que esse valor foi, pelo menos, o dobro do reservado.

Foram algumas semanas antes e depois do casamento deixando cada pedaço da casa do nosso jeito, e ficou perfeita. Mas tudo tem um custo.

Você só deve saber, caro leitor, que o custo pode (e vai) ser maior do que você imagina.