Casal XXI

Ele estava no sofá assistindo tevê quando ela chegou e perguntou:

– Notou alguma coisa diferente?

O tempo de casado pode ter sido o suficiente para ele saber que ela não teria pintado alguma parede da casa sem ajuda dele, então não era isso. Olhou em volta procurando algum móvel diferente, mas tudo estava exatamente como estava na noite anterior.

O tempo estava passando, ela esperando de pé, na frente dele. Era alguma coisa nela que havia mudado? Não sei. Ele também não sabia, mas resolveu começar jogando com a sorte e soltou um:

– Gostei amor! Você ficou tão…diferente – disse, olhando para cada detalhe do rosto dela com tanta pressa e pressão, que ela poderia ter mudado de cor que ele não teria reparado.

Abriu os braços e disse
– Vem cá, meu amor!

Resolveu jogar com algo mais certo que a sorte.

– Eu não sabia se você ia gostar, mas queria fazer surpresa, mas esperei o momento certo…

Enquanto ela o abraçava, deitando no sofá, ele abriu o smartphone no perfil dela, checou os últimos status. Foto no salão de beleza. Cabelo!

– Claro que eu gostei do seu cabelo! Ficou muito bom – disse, agora reparando mais no cabelo. Você não acha que eu cortei demais, ou que ficou muito claro?

– Não…não ficou, não – disse, olhando fotos antigas dela, para lembrar como estava o cabelo antes.

– E como é que tá a sua amiga…a…Cristina – disse, buscando na lista de contatos o nome da melhor amiga e cabeleireira da esposa.

– Tá bem. Agora que mudou de salão, ela tá com mais clientes.
Ele abriu o Mapas.

-Ah é, agora ela tá…na avenida XV, né.
-Uhum – afirmou – Vem cá. Você vai folgar essa semana?

Abriu a agenda. Rapidamente checou os compromissos.

– Não. Só semana que vem. Você sabe como que é lá onde eu trabalho. Com o projeto que a gente pegou agora, o pessoal vai virar a noite para entregar até sábado.

Ela arregalou os olhos. Ela sabia como era lá onde ele trabalhava. Tinha certeza que sabia onde o marido trabalhava. Tentou se lembrar para continuar o assunto, e não conseguiu. Levantou e foi buscar o tablet no quarto.

Felicidades ao casal

Não vivemos num filme americano da década de noventa, e não sei fazer torta de maçã. Mas seja bem vindo ao bairro, casal! E meus parabéns. Toda a felicidade do mundo pra vocês, que casaram agora, reformaram a casa aqui do lado e se mudaram esses dias.
Não vou imprimir esse texto e colocar na sua caixinha de correio nova. Só o escrevi para postar aqui no meu blog, que vocês não vão conhecer, a menos que espionem o que ando fazendo com minha internet. Vocês já sabem meu nome, afinal é o nome que aparece no  wifi. Muito prazer conhecer vocês também, que usaram a modernidade para evitar protocolos sociais que envolvem apresentação.

Só tomem muito cuidado. Ano passado usaram a casa de vocês para assaltar a casa do vizinho do lado. E ninguém da rua precisou espionar vocês para saber quais utensílios vocês compraram para a nova vida de casal.

Parabéns pela geladeira de porta dupla, o grill, o multiprocessador e o kit de caipirinha. Só espero que tenham sido vocês que compraram o kit de caipirinha, ou vocês deveriam ter escolhido melhor sua lista de padrinhos do casamento. Eu poderia ter avisado que o lixeiro passa só de quinta, e assim vocês só jogariam o lixo no dia, e ninguém do bairro saberia que vocês compraram uma TV de Led de 42 polegadas só pelas caixas de papelão que ficaram jogadas na calçada. Nem o grill, a geladeira, o multiprocessador e o kit caipirinha.

Eu queria levar torta de maçã, dar boas vindas e marcar um queijos e vinhos qualquer dia em casa para vocês se sentirem bem na vida nova. Mas aqui é Brasil, e a gente só se cumprimenta quando se vê na rua. Só conversa pra comentar a temperatura ou um acontecido qualquer no bairro. Só espero que nenhum ladrão use mais sua casa para invadir a dos outros e, agora que vocês estão de vida nova, felicidades ao casal!

Carol, esse é pra você

Carol tem sete anos, e não quer ficar brincando com Maria enquanto adultos cuidam de coisas do casamento do pai dela.

Primeiro, Carol, você não tem o que reclamar. Amanhã você vai fazer algo que era impossível até pouco tempo atrás: Ir ao casamento do seu pai. Máquinas do tempo ou fotografias e filmagens em VHS eram os únicos meios de os filhos estarem presentes no casamento dos pais ou, nesse caso, de um dos pais. Não é tecnologia, Carol. São as modernidades da vida. Eu mesmo, não pude estar no casamento dos meus pais. Cheguei trinta anos atrasado. Tudo o que sei são pelas quatro ou cinco fotos grudadas numa moldura na parede. Fotos borradas, década de oitenta…

Sua nova mãe nunca ficou grávida, e vai ser sua mãe de segunda à sexta. Amanhã você vai ter um dia de princesa, e vai entrar com o papai no casamento dele. Vai entregar ele pra sua nova mãe, e depois a gente deixa você pegar o bolo da festa primeiro que todo mundo.

Você não tem do que reclamar, Carol. Fica brincando com Maria, que ela é da sua idade. Vocês vão no parquinho. Compram salgadinho. Lá onde o pai vai só tem adulto, fazendo coisa de adulto. Uma chatice só. Casamento não é coisa de criança, e o pai vai casar só mais essa vez…

Não era amor

Nos dois meses que se passaram eles se amaram incondicionalmente. “Que dure o tempo que durar” dizia ele sendo óbvio, ao que ela respondia “que seja eterno enquanto dure”. Ela falava em casar na igreja, em ter um labrador, dois filhos e uma casa no Guarujá. Ele, otimista, não falava nada. Fazendo planos para eternidade era como conseguiam ser eternos. Mas com um lema desses conseguiram o que conseguiram. Dois meses de amor e uma dor de cabeça infernal.

Que dure o tempo que durar, e durou. No orkut um depoimento, quinze fotos no espelho, quatro do presente de uma semana, duas da cesta de chocolate de um mês, uma foto no shopping e uma sozinha, de cabelo de outra cor, com legenda “sou mais feliz sozinha” ou “não preciso de ninguém pra ser feliz”. Depois até frequentou outras baladas, conheceu gente nova e foi feliz do jeito que dava mas, enquanto durava, durou. Foi bom, não foi? ela pensava e, pensando, dizia que foi.

Ele não postou mais nada. Excluiu depoimento, mudou status e foto de perfil. Que seja eterno enquanto dure, e era. Aguentar a moça era eternidade. Esse negócio de amar dá um trabalho, mas aproveitou cada segundo, como se fosse receber salário. No final das contas voltou pro videogame e os colegas do bar. Gastou dois meses da sua vida e, vivendo, pensou que foi bom. Pensando, chegou à conclusão que, se tivesse pensado antes, não teria amado ninguém. Já que não pensou, acabou sentindo e amou. Foi eterno enquanto foi, mas já foi. ‘Será que era amor?‘ No bar ou na balada perguntam, eles respondem “Só sei que já passou…”