Quase tudo bem por aqui

Olá, meu querido amigo!

Estou com saudades. Faz algum tempo que não te escrevo. E demorei esse tempo porque as coisas estão passando muito rápido por aqui. Eu não sei se, olhando aí de fora, o planeta está girando mais rápido. Mas essa é a sensação para quem está aqui.

Na última carta eu não tive boas notícias, mas agora até tenho. Lembra do tal vírus que te falei? Então, parece que já estamos quase conseguindo uma vacina. Além disso, eu estou vivo, o que já é uma notícia muito boa, pelo menos para mim.

Caro amigo extraterrestre, por favor, fique de olho por aí. Do jeito que essa volta ao redor do sol está sendo, não me admira sermos atingidos por um asteroide ou coisa parecida. Na última carta também disse que não era muito bom você vir aqui para a Terra. Mas nas atuais circunstâncias, algumas pessoas estariam cogitando a ideia de que seria até bom que vocês viessem, com naves imponentes nas maiores metrópoles, trazendo uma solução para os problemas terráqueos. Ou, pelo menos, alguma coisa interessante para nos distrair.

Por favor, ao chegar, não nos peça para os levarem aos nossos líderes. Muito obrigado.

Até logo.

Coisas complicadas por aqui

Caro amigo extraterreno!

Tudo bem com você? Espero que as coisas estejam bem aí fora.

Eu já te disse que as coisas por aqui mudam muito rápido. Além disso, acontecem coisas simples que se tornam tão complicas em pouquíssimo tempo.

Por exemplo, há menos de seis meses um senhorzinho do outro lado da Terra tossiu bastante. O médico dele disse que ele não estava bem, e tinha alguma coisa estranha com aquela tosse. O senhorzinho e o médico morreram. E agora pessoas aqui do outro lado do globo estão morrendo dessa mesma tosse. Outras estão perdendo o emprego, que, não sei se já te falei, é meio que essencial para a vida por aqui também. Às vezes parece até mais importante que a vida, mas enfim.

Eu sei, parece muito simples, e na verdade é.

E você deve ter percebido daí de cima, como lugares que antes viviam cheios de gente agora estão vazios. Isso porque todos os esportes foram meio que adiados. O turismo foi cancelado por um bom tempo, parece. As pessoas estão tendo que praticar sua religião em casa. E de casa que elas estão assistindo muito filme e série, e fazendo várias lives e memes sobre tudo isso.

Se pretendia vir para a Terra, por favor, espere pelo menos um ano até as coisas se acalmarem por aqui.

Resolvemos as coisas

Caro amigo extraterrestre!

As coisas tem ficado cada vez mais complicadas por aqui. Por isso não tenho escrito tanto para você. Espero que as coisas estejam bem aí em cima.

Eu sei que você não está precisamente “em cima”, e essas coisas são difíceis de definir em um universo tão vasto. Mas imagino que, de onde você está, consegue observar muito bem toda a raça humana.

Pode não parecer olhando daí, mas nós estamos bem crescidinhos. Eu digo isso porque, há muito tempo atrás, nós descobrimos o fogo. A partir daí começamos a resolver tudo à base do fogo. Se nosso coleguinha não nos desse o que queríamos, a gente queimava a cabana com o coleguinha dentro. É bárbaro, eu sei. O pior é que a história se repetiu quando começamos a fundir o ferro e quando descobrimos a pólvora. Acontece que fomos melhorando como raça e espécie. Nossos meios de machucar os outros foram evoluindo junto com nossos meios de expressar nossas vontades.

Por exemplo, se você é um humano, e quer melhores condições de trabalho, você pode pedir por isso. E é melhor você fazer isso junto com todos os outros que desempenham o mesmo trabalho que você. De repente você pode combinar de todo mundo não ir trabalhar, ou até queimar uns pneus na rodovia. Pronto. Quase ninguém sai machucado.
Paralelo a todo esse movimento social e linguístico, foram desenvolvidas leis baseadas em uma constituição, que garante o direito da maioria dos seres humanos.

Hoje em dia dificilmente alguém vai querer resolver um assunto tacando fogo ou chumbo em alguém. Você corre o risco de ficar preso os próximos meses da sua vida e, pior, antes disso será condenado a longas horas dentro de uma sala com pessoas de terno e um senhor ou senhora de capa e peruca, falando coisas que você nunca ia entender.

Nuvenzinhas Cinzas

Caro amigo extraterreno,

Não sei se você ainda nos observa aqui embaixo. Acredito que o universo tem muita coisa mais legal que a gente para ser observado.

Mas, se você ainda faz isso, deve ter percebido umas pequenas nuvenzinhas cinzas onde antes era verde.

Desculpa. Nós que fizemos isso.

Acontece que nós, aqui do planeta Terra, precisamos de oxigênio. Usamos esse gás para quebrar partículas de açúcar, e gerar energia para o nosso corpo. É mais ou menos assim que a vida funciona por aqui.

Esse problema vem de algo que eu ainda não expliquei: Nós não produzimos oxigênio. Só o gastamos, e expelimos outro gás depois. Quem produz oxigênio são as árvores. Elas são essas nuvens verdes que você vê daí. Nas árvores também vivem bichos e insetos que são essenciais para a nossa vida.

Só que a vida tem parado de funcionar direito. Estamos, aos poucos, queimando os pulmões da Terra, meu caro amigo. Parece que é muito melhor tirar árvores e plantar soja. Rende mais desmatar para dar lugar a vacas, e fazer churrascos.

Aliás, churrasco é um ponto forte de visita à Terra. Nós aqui fazemos um churrasco como ninguém. É uma arte que dominamos tão bem, que não consigo explicar direito como funciona, caro ET. Coincidentemente, as coisas começaram a dar errado por aqui quando começamos a fazer churrasco.

Só gostaria de explicar que, quanto menos áreas verdes e mais fumaças cinzas você ver aí de cima, mais perto estamos de deixar de respirar. Venha visitar a Terra enquanto ainda existe vida. Porque, depois disso, pelo visto, vai ser só nuvenzinhas cinzas.

O maior predador do bando de humanos

Meu caro amigo extraterreno,

Te escrevo novamente porque as coisas têm ficado realmente complicadas aqui embaixo. Se eu ficar muito tempo sem te explicar qualquer coisinha, tudo pode mudar e virar um caos.

Depois eu explico o que é caos.

Agora vou te explicar o que é go-ver-no.

Primeiramente, é bom explicar, a culpa é totalmente nossa. Na época que tínhamos mais medo dos outros animais aqui da terra do que dos nossos semelhantes, começamos a morar próximos uns dos outros. O ser humano não é um bicho muito social, como você pode reparar aí de cima, mas a gente vem se virando.

Nessa de morar perto, que chamamos de comunidade, começamos a precisar de coisas que outros tinham, e fazer trocas. Isso eu já te expliquei muito bem por aqui.

O problema é que nós somos muito carentes, meu caro amigo. Começamos a precisar de alguém para botar a culpa das mazelas da comunidade. Geralmente era quem tomava a frente em ser o maior predador do bando de humanos. Ele ganhava por escravizar outros e, portanto, não precisar trabalhar. Os escravos (que explico melhor sobre isso depois) sempre acabavam por depor o escravizador, prontamente elegendo alguém para dominá-los. Mas agora era diferente. Era alguém que eles conheciam. Até hoje nós elegemos nossos maiores predadores do bando de humanos. O processo de escravização acabava de ganhar uma nova etapa – e, como vou te explicar sobre isso mais pra frente, vamos pular para a parte que te interessa.

Quando você vier fazer-nos uma visita à terra, caro amigo, procure falar com o pre-si-den-te. Ele quem comanda as coisas por aqui. Quanto àquela de ter a culpa das mazelas da sociedade? Ele também. Ah! E é ele quem vai te dar um bom lugar pra morar, alguns folhetos de resorts e praias maravilhosos, para você aproveitar sua estadia por aqui.
Talvez você queira perguntar a ele sobre fome, saúde e desemprego, que são outras coisas que acontecem por aqui, e prefiro falar delas mais tarde, em outra ocasião.