Moça de Minas

Eu chego em casa no horário do almoço e ela fala “Vai almoçar”.

Mas, mãe…Foi só pra isso que eu vim pra casa. Eu sei…

E, dois minutos depois, estou pegando salada na mesa, e ela grita da sala “Tem salada na mesa!”.

Eu só respiro fundo porque, há mais de vinte anos, ela precisa mostrar quem manda em casa – e meu pai concordaria com isso plenamente.

Nascida numa fazenda pequena com seu monte de irmãs, numa terra distante chamada Minas, minha mãe veio pra São Paulo quando jovem. Deixou a vó e as irmãs pra traz para trabalhar como babá. Conheceu meu pai, e olha eu aqui.

Confie desconfiando“, é o ditado que me fez crescer fortalecendo a visão mineira sobre todas as coisas. Não só a visão, como também o gosto. Ninguém cozinha como nossas mães, é verdade, mas ninguém mesmo cozinha como a minha. Ela mesmo diz isso, sem modéstia alguma. Só realidade.

Além desse, herdei outros ditados, como “Chico não quer, Mané bafo”. Quer dizer basicamente “se você não tá com fome, eu tô!” e é geralmente sucedido pelo ato de tomar a refeição da mão de quem não quer, e comer. Tem também o “pé no chão, violão”, que quase sempre vem acompanhado por uma chinela voando no meio da sala, e é bom você desviar e calçá-la antes que venha a outra.

Quando aponto a câmera ou o celular ela foge. Às vezes me bate. “Não tira foto da mãe”. Mas eu tiro mesmo. Todo esculhambado. Um dia, pode ser que eu sinta saudade.

Não era amor

Nos dois meses que se passaram eles se amaram incondicionalmente. “Que dure o tempo que durar” dizia ele sendo óbvio, ao que ela respondia “que seja eterno enquanto dure”. Ela falava em casar na igreja, em ter um labrador, dois filhos e uma casa no Guarujá. Ele, otimista, não falava nada. Fazendo planos para eternidade era como conseguiam ser eternos. Mas com um lema desses conseguiram o que conseguiram. Dois meses de amor e uma dor de cabeça infernal.

Que dure o tempo que durar, e durou. No orkut um depoimento, quinze fotos no espelho, quatro do presente de uma semana, duas da cesta de chocolate de um mês, uma foto no shopping e uma sozinha, de cabelo de outra cor, com legenda “sou mais feliz sozinha” ou “não preciso de ninguém pra ser feliz”. Depois até frequentou outras baladas, conheceu gente nova e foi feliz do jeito que dava mas, enquanto durava, durou. Foi bom, não foi? ela pensava e, pensando, dizia que foi.

Ele não postou mais nada. Excluiu depoimento, mudou status e foto de perfil. Que seja eterno enquanto dure, e era. Aguentar a moça era eternidade. Esse negócio de amar dá um trabalho, mas aproveitou cada segundo, como se fosse receber salário. No final das contas voltou pro videogame e os colegas do bar. Gastou dois meses da sua vida e, vivendo, pensou que foi bom. Pensando, chegou à conclusão que, se tivesse pensado antes, não teria amado ninguém. Já que não pensou, acabou sentindo e amou. Foi eterno enquanto foi, mas já foi. ‘Será que era amor?‘ No bar ou na balada perguntam, eles respondem “Só sei que já passou…”

É que

É que ela abriu a porta sem esperar ele desligar o alarme de novo, e o alarme disparou bem alto, o que irritava ele, então ele brigou com ela de verdade, e usou a expressão “você sempre faz isso” que ela odeia e se sente reprimida. Depois ela começou a chorar. Depois ele jogou a culpa na TPM, daí ela começou a soluçar de verdade, e ele ficou mais irritado e começou a acelerar de verdade mas eles não sabiam que, no cruzamento dali quatro quadras ele ia ficar mesmo muito nervoso, e ia bater o carro, e ela chorava porque faziam dois meses que ela não tinha TPM e não sabia como contar isso pra ele, depois o carro capotou duas vezes, e depois ela gritou “amor! amor!” mas ele já tinha parado de respirar, mas depois ela secou as lágrimas e limpou o sangue do rosto dele, então ela pediu desculpa, e ficou tudo bem, e os três morreram abraçados naquela esquina perto de casa.