Manda áudio

– Alô Fernando. Fernando
– Fala, Miguel
– Alô….tchhh…não tô te ouvindo
– Miguel, manda áudio, Miguel! Mig..

Tu tu tu tu

Miguel ligou de novo.
– Fernando eu tô aqutchhhhtchhhh
– Alô
– E parece que não vai tchhhhhhh
– …
– Tchhhhshiuiuiuiu …entendeu?

Fernando desligou. Mandou uma mensagem pro Miguel, mas passaram dois minutos e ele não respondeu.

Notificação. “Você tem uma mensagem de voz”.
Fernando passou vinte minutos tentando ouvir a mensagem de voz, e, pelo visto, gastou cerca de R$3,40 de créditos para isso. Na mensagem de voz, Miguel dizia: Alô Fernando! Onde eu tô aqui não tá pegando sinal muito bem. Eu liguei só pra falar que te mandei um SMS, mas não sei se foi. Falou!

Fernando foi olhar os SMS, e tinha acabado de chegar um. Miguel escreveu: “Cara, acabei de te mandar uma mensagem no Whatsapp. Vê lá”.

Fernando suspirou. Abriu o Whatsapp, e nem tinha reparado na notificação. Era uma mensagem gigante de Miguel, e começava mais ou menos tipo “Fernando! Beleza, cara?…” e terminava com “Te mandei um áudio, mas talvez vc não podia ouvir, então escrevi. Flw”

É claro, ele subiu as mensagens e viu um áudio, exatamente igual à mensagem. O que ele dizia era: Cara, te mandei uma mensagem no Telegram. Mas parece que faz tempo que tu não entra lá, né?

Whatsapp>>Menu>>>Telegram

Mensagem de Miguel: Fernando! Te mandei um direct no Instagram e, no Instagram, ele dizia “Você não entra mais no Twitter, meu brother?! Mencionei você nuns tweets da hora. Abraço!”

Fernando voltou à vida offline. Encontrou Miguel num churrasco naquele fim de semana e ficou tudo bem. ‘Mas, da próxima vez, Miguel. Só manda áudio’.

Botão de Bloqueio Quebrado

Então, eu queria aproveitar esse espaço que eu tenho aqui no meu blog para pedir desculpa para a minha mãe, pelos diversos áudios que mandei para ela esses dias, com uns barulhos e sons abafados muito abstratos, que fizeram ela acreditar que eu fui sequestrado.

Desculpas também pra você, meu amigo que tenho contato no whatsapp, e acabei te mandando fotos todas pretas e talvez até mandei algum meme que estava no meu celular junto.

Foi mal, você, contato distante, que eu liguei sem querer, e mandei um e-mail com um assunto mais ou menos como “asdiojeijad…” porque eu realmente não tinha intenção. Eu totalmente respeito a seriedade do e-mail. Peço desculpas

Peço, também, que a Associação de Animais do Bairro me perdoem pelo link da previsão do tempo que eu lhes mandei. É que a inteligência artificial entendeu que eu queria compartilhar com vocês a felicidade de ser uma quarta-feira de sol. Eu sempre quero compartilhar isso, mas não dessa forma. Muito menos seguido pelos vídeos do cachorro da minha irmã que, por acidente, foram enviados diretamente a vocês. Olha só que estranha e engraçada coincidência! haha!

Por favor, me perdoe, assessor do Gilberto Gil! Eu realmente não tinha o seu número, e acabei digitando sem querer enquanto andava de bicicleta, com o celular no bolso da calça e a tela não estava bloqueada. Eu queria muito um show do grande Gilberto Gil, mas foi engano. Eu não tenho esse dinheiro, e não peguei o seu número com ninguém da Record. Foi mal mesmo.

Se, por algum motivo, eu te mandei alguma mensagem estranha nos últimos meses, caro leitor, perdão. O botão de desbloquear a tela do meu celular quebrou e, como todos os problemas da vida, a gente resolve procrastinando e pedindo desculpas. Parece que ser adulto é mais ou menos isso aí.

Bobi

Levei meu autobuddy até a colina, para mostrar para ele o por do sol. Tirei-o da embalagem, li o manual e liguei. As luzes da frente acenderam, ele estava vivo.

– Oi
– Oi, Bobi
– Bobi?
– É o nome que decidi te dar. Você gostou?
– Bobi. Gostei!
– Olhe… – mostrei para ele a vista da colina. A usina, os táxis e aeroplanos, o pôr do sol cinza avermelhado. Eu amo aquele lugar.
– Eu amo este lugar. Costumava vir com minha mãe aqui.
– É magnífico. Eu posso compartilhar com o banco de dados?
– Oi?
– Posso…mostrar…para meus amigos?
– Pode! Espera. Você tem amigos autobuddys?
– Claro! Qual o seu nome?
– Laika.
– E você tem amigos humanos?
– …não. Eu gosto da minha própria companhia
– Mesmo assim, você me comprou.
– Sim. Eu precisava mostrar para alguém essa vista.
– Muito bem…Laika. Bonito nome, aliás.
– Obrigada

Foi importante para mim, sabe? Meu sonho era fazer um amigo, e levá-lo àquele lugarzinho específico da colina. Não importa se era um…computador.

Voltamos para casa conversando
– Quantos anos você tem, Laika?
– 12, mas mês que vem vou fazer treze .
– Você fala como se fosse um problema a ser resolvido
– Como assim?
– “Tenho doze, mas mês que vem farei treze, e tudo será perfeito” – me imitou.
– Ah sim. Você fala complicado, às vezes.
– Okay – disse ele em uma voz mais robótica
– Muita coisa aconteceu esse ano. Estou cansada de ter doze.
– E eu to cansado de ser um robô!
– Haha! Isso você não pode mudar.
– Mas posso me adaptar às circunstâncias, desenvolver e melhorar. Mudar. Vocês humanos nos ensinam a fazer isso.
– Desenvolver e melhorar. Gostei. Vou anotar isso no meu diário.
– Você tem um diário?
– Sim, tenho. E não, não vou deixar você ler.
– Eu posso criar um diário pra você!
– Eu tenho um diário de papel, Bobi – eu disse, suspirando – tenho canetas em casa, e gosto de escrever coisas.
– Interessante.
– Interessante? Não vai falar mais nada?
– Como assim?
– Pras outras garotas da minha sala, eu sou a estranha do papel. Com a mochila cheia de livros, e essas coisas…
– Eu não faço julgamentos.
– Você é legal, Bobi.
– Não sou programado para ser legal, mas, obrigado!
– De nada! Afinal você também pode “desenvolver e melhorar”, não é
– Sim, eu posso.
Ok, agora eu tenho que desligar…