Senhorzinho sensato

Vi um senhor, parado no meio da calçada embaixo de uma árvore. Ali ele estava com sua bicicleta, e usava uma máscara.

Muito precavido esse senhor, em tempos de pandemia, mesmo saindo de casa usava a máscara sem ser no pescoço, ou com o nariz de fora. Também estava andando de bicicleta nesse bairro que tem pouco movimento e nenhuma aglomeração nas praças.

O senhor parou ali embaixo da árvore. Abaixou a máscara cuidadosamente, e mexeu no bolso, tirando alguma coisa. Depois ele começou a mexer nas mãos. Muito bem. O senhorzinho trazia seu próprio álcool em gel.

Não, não era álcool em gel. Ele estava embolando seu cigarrinho. Fez isso mais cuidadosamente ainda. Acendeu e tragou várias vezes ali, embaixo da sombra. Muita sensatez, mesmo. Andar de máscara.

Mas tirar a máscara pra acender um cigarro? Ta bom…vou atravessar a rua e continuar voltando pra casa.

Se acostumar com o que não gosta

Eu nunca fui muito fã de café. Mas sempre gostei de pão.

Quando falo que o cheiro do café é muito melhor que o gosto, recebo sempre alguns olhares de reprovação. Até da minha querida editora chefe. Talvez meu paladar infantil não se agrade muito do gosto amargo. Mas mesmo assim eu tomo de vez em quando, com ou sem açúcar. Para mim é amargo do mesmo jeito.

Agora, de pão eu sempre gostei mesmo. Tomava café com pão, manteiga e um leite com achocolatado desde criança. Até usava xícaras para tomar leite, assim conseguia molhar o pão dentro da xícara cheia de leite com achocolatado. Eu chamava de “pão molhar”. Sempre fui péssimo com nomes.

Café com pão, de Tom Jobim, era uma das minhas músicas favoritas de quando criança, e isso é assunto para outro texto. Mas a mistura de café com pão enquanto comida nunca me agradou. Ainda mais ultimamente, em que o café não desce mais tão bem, e o pão tem que ser com menos manteiga, caso eu queira viver mais alguns anos. Eu até como, mas se tiver qualquer alternativa, eu prefiro.

Lá no meu serviço dão pão com margarina e café toda a tarde. São uns dez minutinhos que saio do serviço para esfriar um pouco a cabeça para o restante do dia, então eu não ligo. Tomo café com pão. Nem me incomoda, se é só ali no cafezinho da tarde.

Eu trabalho há cinco anos. Tomando um café com pão toda tarde. E nem gosto tanto assim de café com pão.

Eu já tomei mais de mil e trezentos cafés com pão.

É muito fácil se acostumar com o que não se gosta.

Felicidade no Abanar do Rabo

A felicidade é complicada, porque não pode ser medida em níveis ou formas.

São muitos elementos envolvidos. A temperatura e pressão, os genes do seu DNA que vieram dos seus pais, junto com a criação que também veio deles (Freud explica isso aí). Tem também impulsos elétricos e sinapses conversando e trocando informações dentro do seu cérebro que podem te deixar feliz ou triste. Além de impulsos elétricos, tem reações químicas que acontecem na sua cabeça, e são alteradas pelo que você come, com quem você conversa e onde você está.

Essa sensação de bem estar é tão complexa quanto o próprio ser humano, e dedicamos nossa existência à busca dela. Mas os cachorros não.

Para o cachorro ficar feliz basta você dar comida pra ele. Ou brincar com ele durante uns minutinhos. Dá pra você medir a felicidade do cachorro pelo tanto que ele abana o rabo. Olha que simples, não é? Pois é.

Ao ir e voltar do trabalho eu passo em frente a uma casa cheia de cachorrinhos da raça shih-tzu. Eles são amigáveis e fofinhos, como todo shih-tzu. Todos ficam deitados na varanda, com a proteção do sol e perto da comida. Todos parecem muito felizes ali. Mas alguns deles (especialmente dois deles) têm a pequena diversão em correr para o portão, latindo pra mim. Eu passo, eles correm, latem, eu vou embora. Eles ficam olhando para a rua. O rabo deles abana, então eu sei que eles estão realmente felizes em fazer isso.

E os que ficam ali deitados? Será que estão tão felizes quanto os que correm, vociferando para alguém que não está nem aí para eles?

Nunca saberemos.

Eu sou mais dos que ficam deitados. E tô aqui bem feliz com isso.

Parabéns a todos os envolvidos

É com imenso orgulho deste país que anuncio termos nosso presidente como ganhador do prêmio Ig Nobel 2020!

Primeiramente deixa-me explicar. Eu tomei conhecimento desse prêmio semana passada. E isso me deixou muito feliz.

Ignobel, pela definição do site oficial, é “um prêmio para pesquisas científicas improváveis”. São premiadas “pesquisas que te fazem rir, e depois pensar”. O conceito é excelente. E é um prêmio sério, reconhecido pela Nature, que é uma das revistas mais importantes de divulgação científica.

O Brasil já foi ganhador em edições anteriores, e a deste ano teve dois prêmios. O primeiro é motivo de orgulho real. Resumindo bastante: A pesquisa diz que, em países mais pobres, as pessoas beijam mais na boca.

Agora que você já riu, e já pensou um pouquinho, vamos ao prêmio anunciado anteriormente.

Na categoria Educação Médica, os ganhadores são os líderes Jair Bolsonaro do Brasil, Boris Johnson do Reino Unido, Narendra Modi da Índia, Andrés Manuel López Obrador do México, Alexander Lukashenko da Bielo-Rússia, Donald Trump dos EUA, Recep Tayyip Erdogan da Turquia, Vladimir Putin da Rússia e Gurbanguly Berdimuhamedow do Turcomenistão, por usarem a pandemia viral Covid-19 para ensinar ao mundo que os políticos podem ter um efeito mais imediato sobre a vida e a morte do que os cientistas e médicos.

Todos conseguiram com sucesso ignorar a ciência, eleger medicamentos duvidosos como a salvação, negligenciar a vida de muitos e politizar um vírus! Parabéns a todos os vencedores deste prêmio.

Infelizmente eles ganharam, mas todos nós perdemos.

Quebrando a Quarta Parede

– Ah, finalmente você acordou.

Os dois estavam em uma sala escura com ladrilhos brancos e azuis.

– Quem é você? Onde nós estamos?
– Acalme-se, rapaz. Está tudo bem. Eu me chamo Lírico. Não vou te machucar. Estamos juntos aqui – disse, abrindo os braços e apontando para as paredes frias da imensa sala branca e azul.

– Que lugar é esse?
– Não se preocupa. Já já estaremos longe daqui. Esse é o blog do Pedro.
– Blog de quem?
– Não importa. A questão é que ele se só se deu conta que não tinha texto pra hoje às 9h da manhã, e teve que escrever um texto correndo só pra não passar em branco. – disse, mostrando um calendário enorme em uma das paredes.

– Texto..nós estamos dentro de um texto, presos aqui? – Começou a tocar as paredes.
– Mais ou menos. É só enquanto as pessoas ali leem, olha só…

E eles caminharam por uns passos até verem uma janela.

– Tem alguém lendo isso aqui?
– Claro que tem. Acene para eles.

O mais jovem acenou. Você, logicamente, não acena de volta.

– E quando nós vamos embora? Demora muito?
– Geralmente, não. Ele só precisava de um texto rápido pra hoje. E também ele acha que quebrar a quarta parede faz ele parecer inteligente, igual falar sobre viagem no tempo ou psicologia, essas coisas…
– Hum…
– Agora. Está acabando. Conte comigo…um…dois…
– O quê? – perguntou o mais jovem.

E o mais velho desapareceu. O personagem restante gritou e berrou, mas não havia mais ninguém para ler…