Sobre Tweets e Explosões

Há pouco mais de um mês, houve uma explosão em Beirute.

E isso me dá muito assunto sobre muita coisa. Primeiramente, o meu atraso e total displicência ao escrever sobre atualidades. Na verdade, eu não gosto de datar textos com informações que são somente relevantes no momento, e no futuro as pessoas que lerem vão se perguntar “do que ele está falando?”.

Além disso, nós vimos mais uma vez como estamos conectados, e como nada mais passa despercebido. Uma explosão próximo a um porto no Oriente Médio? Tweets no mesmo minuto. Vídeos sendo subidos no Youtube, antes mesmo que qualquer jornal pudesse noticiar. Se você quiser ver a explosão do porto, de um prédio à distância, de uma loja mais perto, dentro de uma igreja? Você consegue com apenas uma busca. Por dia o Youtube recebe, em média, cinco anos de conteúdo em minutos de vídeo. Isso te dá uma ideia do quanto estamos arquivando nossas vidas em servidores em algum lugar do mundo.

E, por último, meu compromisso ao lidar com esse blog é muito maior do que certas autoridades lidando com materiais explosivos em grandes quantidades, então…eu venho pesquisando muito sobre o Líbano e conflitos do Oriente Médio. É quase como ler livros de ficção científica sobre sociedades de outros planetas. Uma realidade completamente diferente da que vivemos na América do Sul.

É por isso que eu percebi ser impossível escrever sobre tudo. Ou você faz bem feito e embasado em pesquisas e fatos, ou você abre um Twitter.

Breve redigida nas leis

– Aqui! Aqui! Encontre alguém!
– Socorro! – gritava alguém na parte mais baixa da montanha
– Chame o garoto! Ele precisa estar aqui.

Minutos depois estavam os três na beira de um barranco coberto por neve. O mais novo trouxe uma prancheta que achou nos fundos do que, semanas atrás, era um avião.

– Qual é o problema aqui?
– Achamos um sobrevivente. Não sabemos quanto tempo ele está ali, nem como conseguiu sobreviver a última semana. Mas está ali – apontaram para o penhasco, e lá embaixo havia alguém gritando por socorro e acenando.

– Não temos leis para isso – disse, dando meia volta e saindo
– Mas é uma pessoa ali. Ela merece viver. Está na nossa constituição. Artigo n°0135.
– “Todo ser humano dotado de membros superiores e inferiores têm o direito à vida e à partilha dos mantimentos encontrados na aeronave”.
– E você foi bem preciso na pate dos membros superiores e inferiores
– É. Disse que alguém deficiente daria mais trabalho. Que não era assim na civilização normal, mas na nossa era importante para a sobrevivência.
– Além disso, vivemos num democracia, e somos em 2 votos contra 1 para salvarmos aquela pessoa ali – continuou apontando penhasco abaixo.

– Tá bom, tá bom. Faz sentido. Mas ele está a cem metros abaixo de nós, e não temos como resgatá-lo. Não sabemos se ele está sozinho, se ele é gente boa, ou se só está chamando atenção para salvarmos ele, e depois ele comer nossa carne!
– Temos uma corda aqui.
– Não acha muito cedo pra decidirmos enforcar o sujeito?
– Não, idiota. É para puxar ele lá debaixo.
– Ah, claro.
– E, se ele não for gente boa, e quiser comer nossa carne, podemos enforcá-lo depois?

Se entreolharam por uns instantes. Aquela ideia parecia ridícula e extremista demais para…

– Esperem um pouco. Vou escrever leis sobre resgate de sobreviventes e enforcamento – disse o jovem legislador, que tinha feito seis meses de Direito. Voltem às suas tarefas, ou serão descontados dos seus salários de barrinhas de cereal

Cerca de seis dias depois, voltaram à beira do penhasco. O homem não estava mais gritando. Não estava mais lá. Pelo menos as leis estavam muito bem redigidas, e aquela breve civilização crescia a passos curtíssimos sobre a montanha de neve.

Batida no Poste

Uma das primeiras vezes que reagi rápido a uma situação de emergência foi quando aconteceu um acidente de carro aqui na frente de onde eu trabalho. Talvez minha reação foi rápida porque agora eu já sabia o que fazer caso alguém saísse voando de dentro do carro por ter batido num poste, ou algo assim.

E foi isso o que aconteceu. Não, ninguém saiu voando de carro nenhum. Mas uma senhora bateu no poste. Sozinha. Não saiu voando pára brisa afora porque estava usando cinto, e o airbag foi acionado. Mas pelo visto, ela também estava usando celular no momento, o que foi o motivo de ter batido no poste.

Primeiro a energia caiu. Vi da janela o poste envergando pra frente, e voltando. Olhei pela outra janela, pra me certificar de que o prédio não estava sendo deslocado, sei lá, por um monstro japonês. Não era. Era só o poste mesmo.

Minha reação foi precisa. Levantei e corri até a janela. Esperava ver dois carros batidos, talvez uma moto, pessoas chorando e explosão. A cena que vi foi a senhora saindo do carro, com ajuda de alguns moços que andavam na rua. A zeladora do prédio da frente trazia, cordialmente, uma cadeira e um copo de água com açúcar.

Não precisei verificar batimento cardíaco de ninguém, nem sujar meu uniforme do sangue de ninguém. Minha sexta-feira continuaria normalmente. Exceto pelo fato de que ficamos sem energia por umas duas horas.

Ficou tudo bem. Não veio polícia, nem ambulância. Algum parente ou conhecido levou a senhora pro hospital. O guincho levou o carro em perda total. Quem não veio foi a empresa de energia.

Na verdade veio sim. Dois rapazes. Um ficou no caminhão enquanto outro desceu, coçou a cabeça, conversou alguma coisa com o primeiro, sacou o iPhone e tirou algumas fotos. Alguém perguntou, ele disse que a energia voltava em alguns minutos, e voltou.

Mas e o poste, seu moço?

Ela quem tem que pagar

Depois foi embora. E ficou por isso mesmo. Quando eu quase reagi rápido a qualquer coisa que a vida pedisse de mim, a empresa de força ligou o #sextou e, pelo menos até a edição deste conto, mais de três meses depois do ocorrido, o poste está deslocado dois metros para a esquerda, sustentado pelos cabos de aço e um pedaço de madeira.

Atropelada

Parece que fui atropelada.

O que aconteceu? Eu estava descendo a rua. Estava falando com Carlinhos. Cadê meu celular?

“Cadê meu celular?”

Ai que idiota. Eu disse isso em voz alta. Se eu fui mesmo atropelada, isso foi uma coisa terrível de se dizer. É melhor eu me levantar. Ai, meu braço! Isso aqui é sangue, no asfalto. Será que é meu, esse sangue? Tem nas minhas mãos, no chão…Ainda está tudo meio borrado, estou ficando zonza.

Pronto, fiquei de pé. Ai que dor! “Aaai!” Não dá. Deitei de novo. Ali, meu celular. Que horas são? Não alcanço. Ai meu pé. Ele está… “Aaaai!” está fora do lugar. Vou colocar ele no lugar. Não, não vou. Esse senhor se aproximando..
– Menina!!
Não preciso cumprimentar, né? Não sei, fui atropelada. Não preciso ser educada. É.
– AAaaaai! Não consigo!
Ele não viu meu pé? Que idiota! Tá sangrando. Era pra ter um carro amassado aqui. Merda, minha perna ta doendo. Tem uns carros parando em volta. Isso vai do-er a-a-ai. Eu me arrasto, pego o celular. Sangue na tela. Merda, que dia. Ouço um abafado, pessoas falando. “O cara fugiu”. Um zunido infernal. Preciso sair do meio da rua. O senhor chega mais perto. A voz dele abafada.

Desmaiei.

Ai! Fui mesmo atropelada. Uma luz no meu olho esquerdo, direito. Olho pra um lado, meu ouvido dói. Para o outro. Estou numa maca. Numa ambulância. Ela tá correndo. Não consigo mexer o pescoço.
– Calma, Carol. Você foi vítima de um atropelamento. Estamos te encaminhando para o centro de emergências mais próximo.
Escuto meio abafado, parece que estou ficando surda. Mas, posto desta forma, parece que tudo vai se resolver.
Alguém avisa Carlinhos que eu não vou estar na festa…

Setor Destino

– Cláudia, vem cá. Me ajuda aqui
– Oi
– Olha aqui. Dia 6… a Mônica vai pisar em falso no buraco da esquina da rua 12, quebrar o pé…
– Isso.
– Depois vai sentir luxação, vai pro hospital…
– Exato.
– Mas aqui está o problema, olha. Onde Miguel vai estar nessa hora?
– Eles têm que se encontrar no hospital.
– Isso. Vai ter a confusão de chamarem Mônica, trazerem Miguel, que vai ser a primeira conversa deles.
– É isso. Mas Miguel, a essa hora, vai estar na academia malhando. É pra ele sentir dor depois da academia.
– Liga pro pessoal da Astrologia.
– Tá.

– Alô!
– Bom dia, Claudia!
– Bom dia, Rô. Tem um problema aqui
– Fala
– Miguel, de Áries. Dia 6. Como é que vai estar pra ele?
– Espera um minuto…Ta escrito aqui. Cuidado com viagens, algo grande pode acontecer antes da hora, e pode encontrar um grande amor.
– Ah, era isso. O pessoal conseguiu encaixar o negócio da viagem pra ele?
– Sim, Cláudia. Parece que o carro dele vai quebrar às 13h47
– Ótimo. Obrigado, Rô
– De nada, querida

– Angélica, achei! Algo grande pode acontecer antes da hora.
– Algo grande?
– É. Sei lá. Coloca que o despertador vai tocar mais cedo. Ele nem vê horóscopo mesmo.
– Tá. Então agora tá certo. Mônica torce o pé na esquina, vai pro hospital. Miguel sente dor no braço e vai pro hospital. Ele toma remédio, pega congestionamento na estrada e manda mensagem pra Mônica. O carro dele quebra, ela sai do hospital e ajuda ele.
– Ótimo. Agora só mandar pro pessoal da Continuidade, pra não ter problema nenhum.
– Ai, nem me fala. É o segundo casamento que esse buraco da rua 12 faz…