Em sua dependência, não dependa de ninguém

Quando você procura independência, seja numa vida universitária recheada de noites em crises de personalidade e síndrome do impostor, ou uma mini república que foi colonizada a séculos por um estado majoritário opressor, você aprende que ser independente é depender de todo mundo. No meu caso, saindo da casa dos pais e me casando, eu deixei de ser dependente de quem trocou minhas fraldas para depender de um emprego, um locador e um cartão de crédito. Esquece a parte do cartão de crédito.

A questão aqui é que eu e minha digníssima tínhamos um locador pronto para nos receber. A casa já estava praticamente alugada para nós. Não fosse o fato do atual inquilino estar construindo, e depender de algumas coisas para sair da casa no prazo. Tá vendo o negócio da dependência que eu te falei?

Eu dependia do locador, que dependia do inquilino sair, que dependia dele terminar a construção da casa própria dele, que dependia de não chover.

Choveu.

A construção atrasou. Ele devia ter saído dia 15, e já era dia 22. A casa não estava desocupada para nós. E assim que descobrimos que, em nossa dependência, não devemos depender de ninguém.

Ladrão mal intencionado

Invadiram a casa do seu Rodrigo.

Seu Rodrigo é vizinho dos meus pais. Ele mora sozinho desde que o pai morreu. É cozinheiro aposentado. Ele tem muitos amigos que gostam de vir visitar. Fica conversando na calçada com todo mundo até tarde da noite.

Às sete horas da noite ele saiu pra fazer um jantar. Quando voltou, por volta das onze horas da noite, o cadeado estava quebrado. O vidro da janela também. Entraram na casa do seu Rodrigo.

Ele correu do lado me chamar, e seus amigos estavam lá também. Eu liguei todas as luzes da casa. Verifiquei perto do muro pra ver se o meliante passou para o lado de casa. Não passou. Ele levou uma cadeira pra perto do muro do outro lado, e por ali deve ter saído. Levou um rádio, um barbeador e uns kilos de linguiça que estavam no refrigerador.

Espera aí…o que ele levou?

Isso mesmo. Uma caixa de som, um barbeador e linguiça. O que você precisa para fazer uma festinha, ter comida na churrasqueira e estar apresentável pras visitas? Bom, eu não quero me precipitar aqui, mas imagino que o ladrão que entrou na casa do seu Rodrigo tinha um objetivo. Ele era um ladrão com foco, comprometimento.

Às vezes ele nem queria vender para comprar drogas, não. Vai ver ele nem tava precisando de dinheiro pra pagar alguma dívida. Era um ladrão ainda mais mal intencionado que o normal.

Google, me nota

É difícil ser chamado Pedro.

Eu não preciso confirmar a grafia do meu nome toda vez, ou ensinar todo mundo a pronúncia correta. É um nome simples. Pedro. Mas esse é o maior problema.

Uma pesquisa no Google e você verá que eu estou competindo meu nome com o do Apóstolo Pedro, um centroavante do Flamengo (da mesma idade que a minha, inclusive) e o Pedro Paschal, que fez Narcos. Se eu digito Pedro Henrique, então, piorou. Só jogador de futebol.

Então eu fiz um blog, chamado Coisas de Pedro. Conhece? Pois é. Depois de registrar domínio, fui pesquisar no Google “Coisas de Pedro”, e a primeira coisa que aparece aqui pra mim é a minha página do Facebook. Beleza. Fui rolar pra baixo pra ver cadê o site.
Apareceu um canal do youtube (que não é meu), um post de um blog chamado “A História das Coisas do Pedro” (também não sou eu). Uma categoria de um blog de uma moça, que deixou um amigo dela chamado Pedro escrever (…). Depois apareceram uns livros da Amazon com o nome ou o autor chamado Pedro. Nada do meu blog.

Até tem o site coisasDOpedro.com, que também é um blog escrito por um cara chamado Pedro. Nunca vi na vida.

Depois de muitas páginas e links, apareceu ali. Coisas de Pedro. Um link pequenininho com algum trecho de uma página aqui do site.

Poxa, Google.

Eu já estou no Spotify. Tô até no Google podcasts. Me nota. Nunca te pedi nada, mesmo já tendo te perguntado muita coisa.

Pombo

Estou no serviço, trabalhando no computador. Escuto um estrondo vindo do meu lado direito.

Mesmo de fones, consigo ouvir todo o barulho da rua e das oficinas aqui perto. Ouço o estrondo vindo da janela à minha direita. “Pow”. 

É um casal de pombos. É fácil de reconhecer um casal de pombos, porque geralmente é o macho com peito estufado tentando conquistar a fêmea. E este casal aqui parecia já estar formado. Digo isso porque a fêmea não estava evitando, nem fugindo do macho. Pelo menos não foi o que pareceu.

Mas o que aconteceu foi o seguinte: O macho bateu a cabeça com certa violência no vidro, e a fêmea, vindo logo atrás, conseguiu frear antes. Pousou no fio. Ele ficou sem entender o que acontecia, e começou a olhar para o vidro – com insulfilme – muito fixamente. Pelo visto, a fêmea entendeu que era um vidro, e o reflexo dela aparecia distorcido porque ela estava meio de lado. No caso do macho, ele continuou olhando para o vidro. E começou a achar que era outra pomba.

Ele estufou o peito e começou a fazer charme pro reflexo dele!

A pomba olhou pra ele. Olhou pro reflexo e foi embora. O pombo ficou ali, estufando o peito, eriçando os pelos e cantando para o reflexo dele. Levou uns dois minutos para perceber que o reflexo dele não fazia muito além de imitá-lo.

Agora ele perdeu a companheira, o reflexo, e vai ter um bom tempo para pensar na vida e em suas decisões…

Espaçoviária Tempoportoral

– Olá, bom dia!
– Bom dia, senhor. De onde o senhor vem
– Do futuro
– Perdão
– Ah, de 3022. Mas eu sou de 2315. Estoriassendo trabalhandoendo em um projeto. É de revitalização de algumas sociedades. Aqui está

Apresentou seu passaporte, sendo minuciosamente analisado pela funcionária do tempoporto.

É importante a esse ponto acrescentar que, a partir do início das viagens e mudanças do tempo descorridas pelas viagens, os verbos se tornaram extremamente complexos. Não somente os verbos.

– Você não acha Tempoporto uma expressão um pouco estranha? Sei lá, acho que “temporto” ficaria melhor.
– É uma expressão comum e muito sonora no idioma original. Mas acho que o senhor não saberia falar.
– Ah, eu falo muitas línguas antigas.
– Por isso mesmo o senhor não saberia falar – acrescentou – é de uma língua do seu futuro.

Ela olhava o histórico passado e futuro dele. Tudo o que conseguia encontrar somente nos imensos servidores do “temporto”. Era mesmo um estudioso de história. Estareveria no futuro, e voltariará para o futuro dali 500 anos, então não seria ela a vê-lo novamente em seu retorno.

O tempo naquela gigante rodoviária temporal era mais estranho. Passava mais ou menos como se passa em elevadores.

– Mas o senhor consegue dizer o nome de cento e três esportes da primeira civilização. Isso é impressionante!
– Na verdade não foi a primeira civilização. E é nisso que estou trabalhando atualmente – disse, empolgado
– O senhor com certeza fararia um grande serviço para a humanidade. – disse, devolvendo o passaporte
– Obrigado – sorriu

Caminhou até o portão de embarque, e dali quinhentos mil anos conseguiu viajar para dois mil e trezentos anos no passado daquele momento. Chegando exatamente enquanto um celta cabeludo fazerassendoia uma descoberta que mudourasseria a sociedade da época.