Se acostumar com o que não gosta

Eu nunca fui muito fã de café. Mas sempre gostei de pão.

Quando falo que o cheiro do café é muito melhor que o gosto, recebo sempre alguns olhares de reprovação. Até da minha querida editora chefe. Talvez meu paladar infantil não se agrade muito do gosto amargo. Mas mesmo assim eu tomo de vez em quando, com ou sem açúcar. Para mim é amargo do mesmo jeito.

Agora, de pão eu sempre gostei mesmo. Tomava café com pão, manteiga e um leite com achocolatado desde criança. Até usava xícaras para tomar leite, assim conseguia molhar o pão dentro da xícara cheia de leite com achocolatado. Eu chamava de “pão molhar”. Sempre fui péssimo com nomes.

Café com pão, de Tom Jobim, era uma das minhas músicas favoritas de quando criança, e isso é assunto para outro texto. Mas a mistura de café com pão enquanto comida nunca me agradou. Ainda mais ultimamente, em que o café não desce mais tão bem, e o pão tem que ser com menos manteiga, caso eu queira viver mais alguns anos. Eu até como, mas se tiver qualquer alternativa, eu prefiro.

Lá no meu serviço dão pão com margarina e café toda a tarde. São uns dez minutinhos que saio do serviço para esfriar um pouco a cabeça para o restante do dia, então eu não ligo. Tomo café com pão. Nem me incomoda, se é só ali no cafezinho da tarde.

Eu trabalho há cinco anos. Tomando um café com pão toda tarde. E nem gosto tanto assim de café com pão.

Eu já tomei mais de mil e trezentos cafés com pão.

É muito fácil se acostumar com o que não se gosta.

Breve Percepção Temporal

Existe uma sensação nova sobre sentir passar o tempo

Durante algumas semanas eu aproveitei as minhas Segundas Criativas para adiantar textos aqui para o site. Eu escrevia mais textos do que a semana teria, então consegui dobrar minha pequena produção de crônicas. Assim eu tive algumas semanas de folga criativa enquanto os posts agendados saiam, e vocês curtiam e comentavam. Pude tirar mais tempo para a produção e edição do podcast, e acabei usando minhas segundas criativas para criatividade em outras áreas além da escrita (que talvez eu comente algo por aqui mais para frente).

Aqui que entra a sensação do tempo:

Os dias foram passando. As coisas na minha vida foram acontecendo tão rápido. Só nas últimas semanas eu senti passar uns três meses. Então os textos foram saindo. Minha pequena reserva de posts agendados foi acabando. E a cada texto que ia sendo publicado, eu percebia que já era quinta de novo. Já passou o fim de semana, e já era terça de novo.
E só deixei passar algumas segundas criativas para precisar sentar e ver que “puxa, eu preciso de um texto para amanhã no blog”.

O tempo está passando mesmo.

Passa que a gente nem vê, e quando vê, já foi.

O que não se fala

– Há quanto tempo a gente não se vê, Miguel?!
– Fala, Fernando!
– Como é que você tá?
– Ah, eu tô bem. Quer dizer, levando, né…
– Por quê? O que aconteceu?
– Então..as coisas estão bem difíceis desde que a Angela…
– A Angela..o que?
– Ela… você sabe, né. Nós tomamos a decisão junto, mas ela que..
– Separou?
– É
– Poxa vida, cara. Não sabia disso. Há quanto tempo aconteceu?
– Ah, foi um pouco depois da minha vó…
– Hum
– Acontece, né, cara.
– A sua vó o que, Miguel?
– Ela já não tava bem..
– Ela separou também?
– Não, cara. Ela…Tava doente
– Poxa, Miguel.
– Pois é
– Sua vó morreu?
– Foi

Miguel começou a chorar.

– Caramba. Tudo bem, mano. Vai ficar tudo bem.
– Vai sim. As coisas começaram a mudar depois que eu…
– Eita, Miguel
– Eu…
– Você o quê, Miguel? Caramba!
– Eu não tava indo bem no serviço e…
– Ah, você foi demitido. Eu fiquei sabendo
– Ficou?
– Sim sim, eu encontrei com o Ronaldo
– O Ronaldo?
Fernando tirou um lenço do bolso, suspirando. Seu amigo voltou a chorar.

Ronaldo não estava bem.

E, pelo visto, Miguel também. Mas isso é daquelas coisas de que não se fala.

Felicidade no Abanar do Rabo

A felicidade é complicada, porque não pode ser medida em níveis ou formas.

São muitos elementos envolvidos. A temperatura e pressão, os genes do seu DNA que vieram dos seus pais, junto com a criação que também veio deles (Freud explica isso aí). Tem também impulsos elétricos e sinapses conversando e trocando informações dentro do seu cérebro que podem te deixar feliz ou triste. Além de impulsos elétricos, tem reações químicas que acontecem na sua cabeça, e são alteradas pelo que você come, com quem você conversa e onde você está.

Essa sensação de bem estar é tão complexa quanto o próprio ser humano, e dedicamos nossa existência à busca dela. Mas os cachorros não.

Para o cachorro ficar feliz basta você dar comida pra ele. Ou brincar com ele durante uns minutinhos. Dá pra você medir a felicidade do cachorro pelo tanto que ele abana o rabo. Olha que simples, não é? Pois é.

Ao ir e voltar do trabalho eu passo em frente a uma casa cheia de cachorrinhos da raça shih-tzu. Eles são amigáveis e fofinhos, como todo shih-tzu. Todos ficam deitados na varanda, com a proteção do sol e perto da comida. Todos parecem muito felizes ali. Mas alguns deles (especialmente dois deles) têm a pequena diversão em correr para o portão, latindo pra mim. Eu passo, eles correm, latem, eu vou embora. Eles ficam olhando para a rua. O rabo deles abana, então eu sei que eles estão realmente felizes em fazer isso.

E os que ficam ali deitados? Será que estão tão felizes quanto os que correm, vociferando para alguém que não está nem aí para eles?

Nunca saberemos.

Eu sou mais dos que ficam deitados. E tô aqui bem feliz com isso.

Fuga da realidade

Viver nem sempre é tão legal.

Às vezes temos que lidar com experiências ruins, como dores e doenças. Há muito tempo eram esses os motivos de usarmos ervas ou componentes da natureza que nos tiravam de nós mesmos, nos deixando num estado diferente da sobriedade. Ainda na mesma época, ou talvez antes, descobrimos a cerveja. O processo de fermentação da cevada fazia com que aquele líquido deixasse as pessoas mais…felizes. Talvez um pouco fora de si.

Estar fora de si é muito melhor, mesmo que não se tenha dor ou não esteja doente. Você não questiona as coisas que costuma questionar, e não pensa da forma crítica que te fez chegar até aqui como sociedade. E, falando em sociedade, estamos todos deprimidos coletivamente.

A cerveja passou a não funcionar tão bem. Fermentamos outras coisas para ficar doidões. Drogas naturais, drogas sintéticas. O cigarro alivia ansiedade. As drogas sintéticas são quase um gatilho social. O tabaco é quase terapêutico, se não acabasse com os seus pulmões. Estamos constantemente fugindo da realidade, porque “a realidade é uma droga”. Criamos outros mundinhos na nossa mente, fugindo da sobriedade de viver. E é claro que criamos mundos muito melhores do que este em que vivemos de fato.

Agora nós temos portais para esses mundinhos. Eles são todos telas de vidro que emitem imagens. Você está lendo este texto em um desses portais, agora. Talvez vai acabar esse texto e passar para uma rede social, onde várias pessoas felizes postam sobre suas vidas maravilhosas em telinhas. É sempre um mundo melhor, onde você fica feliz e mais sociável.

E o seu cérebro vicia tanto quando com a cerveja, o álcool, a droga natural, a sintética. Só outro tipo de droga para fugir da realidade.