Escreva um diário

Por 365 dias eu escrevi sobre meus dias. Esse foi meu 2020.

Eu comecei no dia 2 ou 3 de janeiro, detalhando em um arquivo de Word como foi minha virada e os primeiros segundos do ano. Depois disso continuei listando e descrevendo os dias, um após o outro.

Fiquei alguns dias sem escrever, e sentava durante um tempo para tirar o atraso. Não pensei que faria isso até o fim do ano de 2020, mas fiz. E foi uma das melhores coisas do ano.

A sensação de ter ali meus dias registrados, e poder escrever em detalhes meus sentimentos e minha visão das coisas cotidianas é incrível. Eu aprendi a contar histórias melhor. Melhorei minha expressividade e habilidade em descrever acontecimentos. Mais ainda, além disso tudo, eu registrei dos a dia do ano mais maluco de todas as nossas vidas.

Por enquanto este arquivo do Word está descansando no meu Onedrive. 130 páginas em folhas A4. Mais de 67.500 palavras. Não pretendo publicá-lo. Com certeza vou revisitá-lo este ano e nos próximos, quando eu me perguntar “o que eu estava fazendo neste dia de 2020?”. Além de um arquivo de alguns megabytes, fica a experiência, o aprendizado, e todo o incentivo para que você, leitor, faça isso. Registre seus dias. Comece hoje mesmo. Você não vai se arrepender.

Senhorzinho sensato

Vi um senhor, parado no meio da calçada embaixo de uma árvore. Ali ele estava com sua bicicleta, e usava uma máscara.

Muito precavido esse senhor, em tempos de pandemia, mesmo saindo de casa usava a máscara sem ser no pescoço, ou com o nariz de fora. Também estava andando de bicicleta nesse bairro que tem pouco movimento e nenhuma aglomeração nas praças.

O senhor parou ali embaixo da árvore. Abaixou a máscara cuidadosamente, e mexeu no bolso, tirando alguma coisa. Depois ele começou a mexer nas mãos. Muito bem. O senhorzinho trazia seu próprio álcool em gel.

Não, não era álcool em gel. Ele estava embolando seu cigarrinho. Fez isso mais cuidadosamente ainda. Acendeu e tragou várias vezes ali, embaixo da sombra. Muita sensatez, mesmo. Andar de máscara.

Mas tirar a máscara pra acender um cigarro? Ta bom…vou atravessar a rua e continuar voltando pra casa.

Aula de História

– Muito bem, crianças! Vamos começar nossa aula de hoje? Cliquem no link embaixo para abrir a página da aula de hoje. Alguém pode falar pra gente quando aconteceu tudo o que a gente vai estudar agora? O Maik.

Segundos de silêncio

– Maik, liga o microfone pra gente te ouvir.

– Aconteceu dia sete de junho de dois mil e vinte e oito, professor

– Exatamente, Maik! Neste dia, por volta das dez da manhã o presidente fez algo marcante para todos…

– Não mainhê!

– Maik, desliga seu microfone pra gente? Ótimo. Então, como eu dizia, o presidente fez algo marcante. Alguém sabe o que foi? Angela

– Um tweet, professor! Eu pesquisei aqui e acabei de dar RT.

– É isso mesmo, Angela. Você deu RT em uma versão divulgada pelos jornais da época. Foi um tweet que mudou a democracia e a forma de governo da época. Nas horas seguintes ao tweet, vários canais no Youtube começaram a subir vídeos falando sobre o assunto. Então começaram a ter discussões jurídicas, e as pessoas ficaram revoltadas com tudo o que estava acontecendo. Arthur, você está com a mão levantada?

– Qual era o tweet, professor?

– Aah muito bem. Olha aqui esse print.

As crianças ficaram espantadas.

– Está em um borrão, porque ele falou uma coisa muito feia, que vocês não repetem, crianças. Se quiserem, vão no perfil da Angela pra ver a versão dos jornais, que é melhor e mais leve. E depois desse tweet, o que mais aconteceu, crianças? Mônica.

– As pessoas foram pras ruas?

– Não não, Mônica. Obrigado por ter respondido, mas as pessoas só iam às ruas antes de começar essa era que estamos estudando. Agora elas continuavam a fazer memes sobre o assunto, mas inventaram também músicas e dancinhas no tiktok para protestarem. Arthur, você pode ler o primeiro parágrafo pra gente?

– Posso professor. Alexa, leia para mim

– É claro – disse a Alexa. E começou a ler.

Se acostumar com o que não gosta

Eu nunca fui muito fã de café. Mas sempre gostei de pão.

Quando falo que o cheiro do café é muito melhor que o gosto, recebo sempre alguns olhares de reprovação. Até da minha querida editora chefe. Talvez meu paladar infantil não se agrade muito do gosto amargo. Mas mesmo assim eu tomo de vez em quando, com ou sem açúcar. Para mim é amargo do mesmo jeito.

Agora, de pão eu sempre gostei mesmo. Tomava café com pão, manteiga e um leite com achocolatado desde criança. Até usava xícaras para tomar leite, assim conseguia molhar o pão dentro da xícara cheia de leite com achocolatado. Eu chamava de “pão molhar”. Sempre fui péssimo com nomes.

Café com pão, de Tom Jobim, era uma das minhas músicas favoritas de quando criança, e isso é assunto para outro texto. Mas a mistura de café com pão enquanto comida nunca me agradou. Ainda mais ultimamente, em que o café não desce mais tão bem, e o pão tem que ser com menos manteiga, caso eu queira viver mais alguns anos. Eu até como, mas se tiver qualquer alternativa, eu prefiro.

Lá no meu serviço dão pão com margarina e café toda a tarde. São uns dez minutinhos que saio do serviço para esfriar um pouco a cabeça para o restante do dia, então eu não ligo. Tomo café com pão. Nem me incomoda, se é só ali no cafezinho da tarde.

Eu trabalho há cinco anos. Tomando um café com pão toda tarde. E nem gosto tanto assim de café com pão.

Eu já tomei mais de mil e trezentos cafés com pão.

É muito fácil se acostumar com o que não se gosta.

Breve Percepção Temporal

Existe uma sensação nova sobre sentir passar o tempo

Durante algumas semanas eu aproveitei as minhas Segundas Criativas para adiantar textos aqui para o site. Eu escrevia mais textos do que a semana teria, então consegui dobrar minha pequena produção de crônicas. Assim eu tive algumas semanas de folga criativa enquanto os posts agendados saiam, e vocês curtiam e comentavam. Pude tirar mais tempo para a produção e edição do podcast, e acabei usando minhas segundas criativas para criatividade em outras áreas além da escrita (que talvez eu comente algo por aqui mais para frente).

Aqui que entra a sensação do tempo:

Os dias foram passando. As coisas na minha vida foram acontecendo tão rápido. Só nas últimas semanas eu senti passar uns três meses. Então os textos foram saindo. Minha pequena reserva de posts agendados foi acabando. E a cada texto que ia sendo publicado, eu percebia que já era quinta de novo. Já passou o fim de semana, e já era terça de novo.
E só deixei passar algumas segundas criativas para precisar sentar e ver que “puxa, eu preciso de um texto para amanhã no blog”.

O tempo está passando mesmo.

Passa que a gente nem vê, e quando vê, já foi.