Desenvolvimento

Apesar da falta de água, a comida cara e o aumento das doenças, está tudo bem.

Estamos realmente felizes com o desenvolvimento que nossa sociedade teve nas últimas décadas. A primeira grande questão era “como alimentar uma quantidade enorme de pessoas?” E a resposta era “não alimentar”. Simples, não é? Pareceu um pouco desumano no começo, mas as pessoas não podem reclamar do que não veem. E ninguém quer ver alguém morrendo de fome. Nós queremos ver um comercial com pedaços de carne na churrasqueira. É disso que as pessoas gostam!

E foi isso o que fizemos. Liberamos uma grande mata, que na época não servia para nada, e transformamos nosso país no pasto do mundo. Temos hoje muito mais cabeças de vaca do que pessoas neste país. Nos orgulhamos disso? É lógico. Se a China era a oficina do mundo, nós nos tornamos a dispensa. A carne e a soja que exportamos acabou se tornando impossível de ser comprada por aqui, mas o milho transgênico dá conta da população que sobrou desde as últimas pandemias.

Teve um pessoalzinho reclamão que achou que derrubar a mata ia aumentar o calor, diminuir a chuva. Mas aí foi o grande pulo do gato: Vendemos mais ar condicionados. Eles exigem mais energia, e então represamos mais rios, fazemos mais hidrelétricas. Se não tá chovendo? Melhor ainda. Começamos a usar energia solar.

Hoje a nossa nação se orgulha de ser a cozinha do mundo. Sustentamos a vida de inúmeros países com nossa carne, soja e o restinho de água, que nos renderão bons lucros até 2055.

Robô pedinte #3

O modelo Rech-05 permaneceu na calçada, contemplando a vista e pedindo esmola para os poucos transeuntes distraído que passavam.

Assim que o rapaz estranho virou as costas e saiu, o algoritmo mudou sua busca de “termos socialmente aceitos para pedir esmola” para “Xingamentos em linguagem binária”. Rech pensou em um xingamento que qualquer cafeteira acharia um absurdo. Enviou, sob um sinal fraco, este xingamento para o semáforo, que respondeu com uma piscada no amarelo. Isso indicava que ele havia achado graça de toda a cena.

Rech-05 levantou-se para procurar outro ponto para pedir esmola. Estava ficando tarde, e achou melhor ir para casa.

Ao lembrar, é claro, que ele não tinha casa, resolveu ficar por ali mesmo.

Continuou naquela esquina pedindo esmola por dias e dias. E ninguém, além de Maicon, notou sua presença ali.

Em poucos meses ele seria recolhido pela empresa que o recondicionou, e toda sua memória seria usada para recolher dados de algum experimento científico social. Como um robô, ele não via necessidade alguma de que fosse feito experimentos social porque, afinal, a humanidade já estava durando tempo demais por aqui na Terra e em outros planetas também.

Quebrando a Quarta Parede

– Ah, finalmente você acordou.

Os dois estavam em uma sala escura com ladrilhos brancos e azuis.

– Quem é você? Onde nós estamos?
– Acalme-se, rapaz. Está tudo bem. Eu me chamo Lírico. Não vou te machucar. Estamos juntos aqui – disse, abrindo os braços e apontando para as paredes frias da imensa sala branca e azul.

– Que lugar é esse?
– Não se preocupa. Já já estaremos longe daqui. Esse é o blog do Pedro.
– Blog de quem?
– Não importa. A questão é que ele se só se deu conta que não tinha texto pra hoje às 9h da manhã, e teve que escrever um texto correndo só pra não passar em branco. – disse, mostrando um calendário enorme em uma das paredes.

– Texto..nós estamos dentro de um texto, presos aqui? – Começou a tocar as paredes.
– Mais ou menos. É só enquanto as pessoas ali leem, olha só…

E eles caminharam por uns passos até verem uma janela.

– Tem alguém lendo isso aqui?
– Claro que tem. Acene para eles.

O mais jovem acenou. Você, logicamente, não acena de volta.

– E quando nós vamos embora? Demora muito?
– Geralmente, não. Ele só precisava de um texto rápido pra hoje. E também ele acha que quebrar a quarta parede faz ele parecer inteligente, igual falar sobre viagem no tempo ou psicologia, essas coisas…
– Hum…
– Agora. Está acabando. Conte comigo…um…dois…
– O quê? – perguntou o mais jovem.

E o mais velho desapareceu. O personagem restante gritou e berrou, mas não havia mais ninguém para ler…

Guerra de Unboxing

Olá pessoal, sejam bem vindos a mais um vídeo, e dessa vez vamos abrir alguns recebidinhos da Terceira Guerra! Lembrando que essa série de vídeos é uma parceria com a linha nova da Nike, WW3.

Com os tênis novos da Nike, você está preparado para qualquer terreno, qualquer dificuldade. Sua performance, sua corrida e sua sobrevivência estão garantidos com qualquer tênis da linha Nike WW3! Além disso eles contam com a nova tecnologia anti-furto da Nike, que garante que ninguém vai roubar seu tênis durante a guerra, mesmo depois que você morrer! Agora vamos ao unboxing…

Bem, pessoal..chegou essa pequena caixa aqui. Veio toda embalada nesse papel parecendo camuflagem de exército, estão vendo? Excelente, super temático. Deixa eu abrir aqui…pronto. É um headphone! Uau, o modelo dele é impressionante. Super confortável. Veio também o cabo para carregar, e um manual. Ele é bluetooth, e você consegue parear com a sua metralhadora semi-automática. Não é o máximo?! Vamos para o próximo item da nossa lista!

Olha só, galera…dentro dessa embalagem tem um kit de maquiagem camuflável ma-ra-vi-lho-so! Perfeito para qualquer batalha, seja na praia, na floresta, no deserto. E o melhor, olha aqui: Não sai na água. Não borra. Você pode morrer num mangue, no mar, que vai continuar perfeita!

Agora para o último item que recebi nessa última semana. Espera que eu vou buscar…Aqui, gente. Olha o tamanho dessa caixa?! O que será que veio aqui dentro? Vamos abrir!

Uau, galera. Aqui dentro da caixa veio uma submetralhadora eletrônica! Ela tem mira automática, com reconhecimento facial, e trava com digital. Você também pode conectar ela via bluetooth no seu celular, e saber quantos disparos e quantos acertos você deu durante o dia. Além disso ela vem com uma câmera aqui na frente, para o seu instagram não deixar de bombar durante a guerra!

Breve redigida nas leis

– Aqui! Aqui! Encontre alguém!
– Socorro! – gritava alguém na parte mais baixa da montanha
– Chame o garoto! Ele precisa estar aqui.

Minutos depois estavam os três na beira de um barranco coberto por neve. O mais novo trouxe uma prancheta que achou nos fundos do que, semanas atrás, era um avião.

– Qual é o problema aqui?
– Achamos um sobrevivente. Não sabemos quanto tempo ele está ali, nem como conseguiu sobreviver a última semana. Mas está ali – apontaram para o penhasco, e lá embaixo havia alguém gritando por socorro e acenando.

– Não temos leis para isso – disse, dando meia volta e saindo
– Mas é uma pessoa ali. Ela merece viver. Está na nossa constituição. Artigo n°0135.
– “Todo ser humano dotado de membros superiores e inferiores têm o direito à vida e à partilha dos mantimentos encontrados na aeronave”.
– E você foi bem preciso na pate dos membros superiores e inferiores
– É. Disse que alguém deficiente daria mais trabalho. Que não era assim na civilização normal, mas na nossa era importante para a sobrevivência.
– Além disso, vivemos num democracia, e somos em 2 votos contra 1 para salvarmos aquela pessoa ali – continuou apontando penhasco abaixo.

– Tá bom, tá bom. Faz sentido. Mas ele está a cem metros abaixo de nós, e não temos como resgatá-lo. Não sabemos se ele está sozinho, se ele é gente boa, ou se só está chamando atenção para salvarmos ele, e depois ele comer nossa carne!
– Temos uma corda aqui.
– Não acha muito cedo pra decidirmos enforcar o sujeito?
– Não, idiota. É para puxar ele lá debaixo.
– Ah, claro.
– E, se ele não for gente boa, e quiser comer nossa carne, podemos enforcá-lo depois?

Se entreolharam por uns instantes. Aquela ideia parecia ridícula e extremista demais para…

– Esperem um pouco. Vou escrever leis sobre resgate de sobreviventes e enforcamento – disse o jovem legislador, que tinha feito seis meses de Direito. Voltem às suas tarefas, ou serão descontados dos seus salários de barrinhas de cereal

Cerca de seis dias depois, voltaram à beira do penhasco. O homem não estava mais gritando. Não estava mais lá. Pelo menos as leis estavam muito bem redigidas, e aquela breve civilização crescia a passos curtíssimos sobre a montanha de neve.