Aula de História

– Muito bem, crianças! Vamos começar nossa aula de hoje? Cliquem no link embaixo para abrir a página da aula de hoje. Alguém pode falar pra gente quando aconteceu tudo o que a gente vai estudar agora? O Maik.

Segundos de silêncio

– Maik, liga o microfone pra gente te ouvir.

– Aconteceu dia sete de junho de dois mil e vinte e oito, professor

– Exatamente, Maik! Neste dia, por volta das dez da manhã o presidente fez algo marcante para todos…

– Não mainhê!

– Maik, desliga seu microfone pra gente? Ótimo. Então, como eu dizia, o presidente fez algo marcante. Alguém sabe o que foi? Angela

– Um tweet, professor! Eu pesquisei aqui e acabei de dar RT.

– É isso mesmo, Angela. Você deu RT em uma versão divulgada pelos jornais da época. Foi um tweet que mudou a democracia e a forma de governo da época. Nas horas seguintes ao tweet, vários canais no Youtube começaram a subir vídeos falando sobre o assunto. Então começaram a ter discussões jurídicas, e as pessoas ficaram revoltadas com tudo o que estava acontecendo. Arthur, você está com a mão levantada?

– Qual era o tweet, professor?

– Aah muito bem. Olha aqui esse print.

As crianças ficaram espantadas.

– Está em um borrão, porque ele falou uma coisa muito feia, que vocês não repetem, crianças. Se quiserem, vão no perfil da Angela pra ver a versão dos jornais, que é melhor e mais leve. E depois desse tweet, o que mais aconteceu, crianças? Mônica.

– As pessoas foram pras ruas?

– Não não, Mônica. Obrigado por ter respondido, mas as pessoas só iam às ruas antes de começar essa era que estamos estudando. Agora elas continuavam a fazer memes sobre o assunto, mas inventaram também músicas e dancinhas no tiktok para protestarem. Arthur, você pode ler o primeiro parágrafo pra gente?

– Posso professor. Alexa, leia para mim

– É claro – disse a Alexa. E começou a ler.

Desenvolvimento

Apesar da falta de água, a comida cara e o aumento das doenças, está tudo bem.

Estamos realmente felizes com o desenvolvimento que nossa sociedade teve nas últimas décadas. A primeira grande questão era “como alimentar uma quantidade enorme de pessoas?” E a resposta era “não alimentar”. Simples, não é? Pareceu um pouco desumano no começo, mas as pessoas não podem reclamar do que não veem. E ninguém quer ver alguém morrendo de fome. Nós queremos ver um comercial com pedaços de carne na churrasqueira. É disso que as pessoas gostam!

E foi isso o que fizemos. Liberamos uma grande mata, que na época não servia para nada, e transformamos nosso país no pasto do mundo. Temos hoje muito mais cabeças de vaca do que pessoas neste país. Nos orgulhamos disso? É lógico. Se a China era a oficina do mundo, nós nos tornamos a dispensa. A carne e a soja que exportamos acabou se tornando impossível de ser comprada por aqui, mas o milho transgênico dá conta da população que sobrou desde as últimas pandemias.

Teve um pessoalzinho reclamão que achou que derrubar a mata ia aumentar o calor, diminuir a chuva. Mas aí foi o grande pulo do gato: Vendemos mais ar condicionados. Eles exigem mais energia, e então represamos mais rios, fazemos mais hidrelétricas. Se não tá chovendo? Melhor ainda. Começamos a usar energia solar.

Hoje a nossa nação se orgulha de ser a cozinha do mundo. Sustentamos a vida de inúmeros países com nossa carne, soja e o restinho de água, que nos renderão bons lucros até 2055.

De bico aberto

Os humanos são uns animais territorialistas.

Todos nós somos, mas eles são ainda mais. Quando você chega perto de um cachorro que aclamou aquele espaço da terra como dele, ele rosna. Talvez ele te ataque. Os humanos, não.

Eles têm papéis que dizem que a terra é deles. Não sei quem deu esse papel a eles, já que a terra é de todo mundo. Mas eles parecem se orgulhar desse papel mais do que o que fazem com a terra que lhes pertencem.

Deve ser estranho ser humano.

E há muito muito tempo, eles destroem as nossas casas, sem perguntar se eram nossas. Os papéis devem dizer que a casa agora é deles, e não ganhamos nada com isso. Mas dessa vez foi pior.

Nós acordamos com o calor. Sem conseguir respirar. A nossa casa estava pegando fogo. Perdemos nossos filhotes e alguns da nossa família. Tivemos que voar por dias até encontrar lugar seguro.

Agora essa é nossa casa, até que alguém venha nos tirar daqui. Mas essa é a casa deles também.


Eu escrevi essa crônica curta porque tenho observado muitos pássaros de bico aberto na minha região. Como qualquer sintoma, eu fui pesquisar no Google. Descobri que isso é um sinal de que eles não estão respirando normalmente. Por causa do calor e da baixa umidade do ar, eles sofrem. Nós sofremos. Todos nós.

Robô pedinte #3

O modelo Rech-05 permaneceu na calçada, contemplando a vista e pedindo esmola para os poucos transeuntes distraído que passavam.

Assim que o rapaz estranho virou as costas e saiu, o algoritmo mudou sua busca de “termos socialmente aceitos para pedir esmola” para “Xingamentos em linguagem binária”. Rech pensou em um xingamento que qualquer cafeteira acharia um absurdo. Enviou, sob um sinal fraco, este xingamento para o semáforo, que respondeu com uma piscada no amarelo. Isso indicava que ele havia achado graça de toda a cena.

Rech-05 levantou-se para procurar outro ponto para pedir esmola. Estava ficando tarde, e achou melhor ir para casa.

Ao lembrar, é claro, que ele não tinha casa, resolveu ficar por ali mesmo.

Continuou naquela esquina pedindo esmola por dias e dias. E ninguém, além de Maicon, notou sua presença ali.

Em poucos meses ele seria recolhido pela empresa que o recondicionou, e toda sua memória seria usada para recolher dados de algum experimento científico social. Como um robô, ele não via necessidade alguma de que fosse feito experimentos social porque, afinal, a humanidade já estava durando tempo demais por aqui na Terra e em outros planetas também.

Quebrando a Quarta Parede

– Ah, finalmente você acordou.

Os dois estavam em uma sala escura com ladrilhos brancos e azuis.

– Quem é você? Onde nós estamos?
– Acalme-se, rapaz. Está tudo bem. Eu me chamo Lírico. Não vou te machucar. Estamos juntos aqui – disse, abrindo os braços e apontando para as paredes frias da imensa sala branca e azul.

– Que lugar é esse?
– Não se preocupa. Já já estaremos longe daqui. Esse é o blog do Pedro.
– Blog de quem?
– Não importa. A questão é que ele se só se deu conta que não tinha texto pra hoje às 9h da manhã, e teve que escrever um texto correndo só pra não passar em branco. – disse, mostrando um calendário enorme em uma das paredes.

– Texto..nós estamos dentro de um texto, presos aqui? – Começou a tocar as paredes.
– Mais ou menos. É só enquanto as pessoas ali leem, olha só…

E eles caminharam por uns passos até verem uma janela.

– Tem alguém lendo isso aqui?
– Claro que tem. Acene para eles.

O mais jovem acenou. Você, logicamente, não acena de volta.

– E quando nós vamos embora? Demora muito?
– Geralmente, não. Ele só precisava de um texto rápido pra hoje. E também ele acha que quebrar a quarta parede faz ele parecer inteligente, igual falar sobre viagem no tempo ou psicologia, essas coisas…
– Hum…
– Agora. Está acabando. Conte comigo…um…dois…
– O quê? – perguntou o mais jovem.

E o mais velho desapareceu. O personagem restante gritou e berrou, mas não havia mais ninguém para ler…