Pequeno medo de escrever

Nos últimos meses alguns amigos descobriram que eu tenho podcast, um blog, um livro publicado. Eu fico feliz quando as pessoas que eu convivo acabam conhecendo esse meu lado que acabo não compartilhando tanto na vida social.

E dessa descoberta de muitas pessoas próximas, algumas tem começado a ler o meu romance, Clara. Eu mesmo acabei redescobrindo o livro que escrevi e publiquei neste blog há pouco mais de três anos.

Muita coisa acontece em três anos. E eu nunca imaginei que este blog se tornaria tanta coisa em tão pouco tempo. Mas hoje, quando eu penso em escrever um livro com cem páginas ou mais, não sei se consigo.

Eu me habituei a contar histórias curtas usando poucas palavras, como tenho feito aqui quase toda semana. Romance é um formato completamente diferente. Os personagens têm a chance de serem mais aprofundados, e as tramas mais elaboradas. Foi assim com Clara. Eu só tenho um pouco de receio de começar a escrever algo grande e extenso e acabar me perdendo.

Ao mesmo tempo eu não pretendo me prender nesse medo por muito tempo. Logo logo teremos mais contos e textos mais extensos por aqui. Vou continuar usando este blog como minha área de experimentos, e um lugar para onde vão todos os documentos deletados do Word.

Seja legal com seus vizinhos

A casa estava na fase final da pintura, e eu já trouxe algumas coisas minhas para começar a dormir aqui. Levou uma ou duas noites para que eu deixasse o cantinho do colchão do meu jeito, e me sentisse confortável com a casa nova. Mas logo a primeira noite senti grande diferença com o silêncio do bairro novo (muito diferente dos barulhos do bairro anterior) além da casa ser um pouco mais quente.

Enfim, eu estava na minha casa. Nessas semanas eu ia almoçar na casa dos meus pais, trabalhava e vinha somente para dormir.

Então terminei a compra dos móveis grandes, que agora poderiam ser entregues pela transportadora direto no imóvel, sem maiores complicações. Bom, foi isso o que eu pensei.

Comprei, coloquei o endereço novo. Tudo certo.

Mas, como eu já disse ali em cima, eu estava passando o dia todo fora. Inclusive nos horários em que a transportadora chegava com minha geladeira, a máquina de lavar e tudo o que eu comprava. O entregador, coitado, batia com a cara na porta. O meu cadastro estava desatualizado. Ele ligava para o meu número antigo e ninguém atendia. O que aconteceu?

Aí entra em cena Dona Cida. A grande heroína dessa história toda. Eu cheguei em casa depois das seis da tarde, e ouvi alguém chamando no portão. Ela se apresentou, e disse que vieram entregar uma geladeira e ela recebeu. Se não recebesse, o móvel acabaria voltando para Niterói, e sabe-se lá quando eu conseguiria ir buscar em Niterói.

Dona Cida foi a melhor vizinha que eu poderia ter. Recebeu a geladeira, o ar condicionado, a máquina de lavar. E ainda por cima ela acorda cedo e varre a calçada da casa dela e da minha. “Já fizeram isso por mim, agora eu faço pelos outros também” ela diz.

O aprendizado que fica aqui é de ser legal com os seus vizinhos. Ser legal como a Dona Cida é.

Pedinte atualizado

O moço passava pela calçada movimentada de uma das principais avenidas da cidade quando ouviu uma voz o chamando alguns metros à frente.Bom dia, rapaz – disse o pedinte sentado na calçada.

– Ah, senhor, eu não tenho tempo. Estou atrasado para o serv…

– Só uma ajudinha, rapaz. Qualquer quantia vai me ajudar bastante – disse, apontando para uma plaquinha que chamou a atenção do moço de terno.

– Uma placa impressa em um papel A4 com um código QR.

– O que é isso?

– É o meu PIX. O senhor pode me dar uma ajudinha?

– O senhor aceita esmola…

– …pelo PIX. Exatamente. Hoje em dia quase ninguém tem moeda na carteira, senhor.

– Hum…

– Tem gente que nem com carteira anda mais..

– Uhum…

O moço estava entregue. Já estava atrasado mesmo, e aquilo ali não levaria a lugar algum, mas queria continuar ouvindo aquele pedinte moderno.

– E além do mais, a gente tem que acompanhar, né. Não vou chegar ali pra comprar meu hamburgão com nota velha. A roupa eles nem ligam mais. Mas depois que mudaram as notas de real, rapaz..tá difícil

– Entendi…mas é que eu tô mesmo atrasado.

– Ah, não tem problema. Não mesmo. Se você quiser eu passo Picpay

– Oi?

– Só procurar lá depois @medigodaruavinte. Beleza?

– Tá..tá bom…

– Obrigado

– De nada

E saiu o moço de terno, pasta de couro, e um ponto de interrogação imaginário enorme sobre sua cabeça.

Um marco na vida é só um dia comum

Depois de alguns dias de pintura, a casa estava pronta para receber móveis e começar a ficar ainda mais com a nossa cara. Cada parede, e cada cantinho teve o nosso cuidado ao pintar, lixar, limpar. Tudo isso levou cerca de três dias. Pois é, a casa não é muito grande.

Depois de um dia de serviço e pintura, eu tomei banho na casa dos meus pais. Troquei de roupa e coloquei coisas dentro do Palio 97 (vulgo Joaninha). Um colchão de casal, Algumas lâmpadas, cadernos e canetas. Um violão e as coisas que eu levaria para o trabalho no dia seguinte.

Eu estava fazendo minha mudança da casa dos meus pais. E me dei conta disso enquanto colocava as coisas no carro. Estava dando “boa noite” para meus pais, e saindo para a minha casa. Enquanto estava descarregando tudo, e colocando as poucas coisas no lugar, eu senti algo inédito.

Eu estava mesmo na minha casa. Todos os últimos meses se passaram como um filme na minha cabeça. A casa que não deu certo. Os dias de chuva, andando pela cidade a procura de uma casa para alugar. Encontrar essa em que estou escrevendo este texto. Pintar e arrumar cada cantinho.

Ainda além disso tudo, estar saindo da casa dos meus pais para a minha casa. Vinte e três anos dormindo sob o mesmo teto que eles, acordando e convivendo com eles. Uma nova fase da minha vida se iniciara naquela noite.

E era uma noite normal. A lua não estava nem nascente nem cheia. O tempo estava calmo e com uma leve brisa. Para a grande maioria das pessoas aquela noite, tão cheia de significados para mim, era só uma noite.

Assim eu percebi que, para o mundo, um marco na sua vida é só uma noite comum.

Pobre moço da lancha

Não se pode julgar uma pessoa sem saber da sua história, e de tudo o que ela percorreu para estar ali.

O moço fez umas brincadeiras com a atendente do posto, e parecia ser uma pessoa legal. Mas estava muito estressado. E, depois de contar sua história ali para a atendente,  eu agora me compadeço completamente dele.

Ele não é da cidade, mas estava em um rancho com uns amigos. Reclamava da incompetência dos companheiros, que vieram para a cidade e abasteceram os dois jet ski, e um motor da lancha. Tudo certo. Mas não sabiam do fato de que a lancha possui dois motores. Agora apenas um dele estava abastecido. Por isso ele estava aqui, enquanto todos estavam no churrasco, na piscina ou andando de jet skis, abastecendo um tambor para completar o combustível da lancha.

Que problema terrível e irremediável. Eu mesmo, nunca me veria em uma situação tão perturbadora dessas. Ele ainda comprou um energético, e pagou uma quantia que seria uma grande fração do meu salário.

Ouvi toda essa história enquanto calculava quantos centavos era o mililitro da guaraná, pra saber de compensava levar Schweppes. Não compensava, mas levei. E agora me sinto comovido com a triste história do moço que não tinha combustível nos dois motores da sua lancha.

Coitado.