O tempo passa que a gente até vê

De repente a vida te dá algumas pistas de que o tempo passou.

E acontece assim, aos poucos. Ela faz isso de forma sutil, pra você não se assustar tanto quando se deparar com essa realidade.

Duas meninas de mais ou menos sete anos de idade jogavam bola na rua pouco movimentada. Cada uma de um lado, na calçada. A frase ecoou na minha alma como se eu tivesse uma caverna nos meus ouvidos: “Espera, Maria Clara. O moço tá passando”.

Meninas educadas, essas. Quando eu era criança, era essa que pedia para esperar alguém passar. Pausava o futebol por educação, pra não acertar ninguém com a bola por acidente. Os outros meninos da rua me ignoravam, e até jogavam a bola por cima de quem estivesse passando, fosse uma senhora, alguém de bicicleta ou até um caminhão.
Depois a brincadeira se institucionalizou na rua, e contávamos pontos de quantos carros fazíamos “chapéu” (jogar a bola por cima).

Acontecia quando eu era criança. Faz quanto tempo?

Faz muito tempo.

Elas me chamaram de “moço”.

Meu Deus…

Essas crianças aqui jogando bola. Talvez elas nasceram depois de eu ter acabado a escola. Dependendo da idade, elas nasceram quando eu já trabalhava. Gente…

Outro dia desses eu assinei um contrato. Quando que eu, criança jogando banco imobiliário, saberia o que era contrato?

A vida sutilmente dá sinais de que você cresceu, que o tempo passou e você envelhece. Se você não repara nas sutilezas, ela vem e dá um tapa na sua cara.

Fuga da realidade

Viver nem sempre é tão legal.

Às vezes temos que lidar com experiências ruins, como dores e doenças. Há muito tempo eram esses os motivos de usarmos ervas ou componentes da natureza que nos tiravam de nós mesmos, nos deixando num estado diferente da sobriedade. Ainda na mesma época, ou talvez antes, descobrimos a cerveja. O processo de fermentação da cevada fazia com que aquele líquido deixasse as pessoas mais…felizes. Talvez um pouco fora de si.

Estar fora de si é muito melhor, mesmo que não se tenha dor ou não esteja doente. Você não questiona as coisas que costuma questionar, e não pensa da forma crítica que te fez chegar até aqui como sociedade. E, falando em sociedade, estamos todos deprimidos coletivamente.

A cerveja passou a não funcionar tão bem. Fermentamos outras coisas para ficar doidões. Drogas naturais, drogas sintéticas. O cigarro alivia ansiedade. As drogas sintéticas são quase um gatilho social. O tabaco é quase terapêutico, se não acabasse com os seus pulmões. Estamos constantemente fugindo da realidade, porque “a realidade é uma droga”. Criamos outros mundinhos na nossa mente, fugindo da sobriedade de viver. E é claro que criamos mundos muito melhores do que este em que vivemos de fato.

Agora nós temos portais para esses mundinhos. Eles são todos telas de vidro que emitem imagens. Você está lendo este texto em um desses portais, agora. Talvez vai acabar esse texto e passar para uma rede social, onde várias pessoas felizes postam sobre suas vidas maravilhosas em telinhas. É sempre um mundo melhor, onde você fica feliz e mais sociável.

E o seu cérebro vicia tanto quando com a cerveja, o álcool, a droga natural, a sintética. Só outro tipo de droga para fugir da realidade.

Tempo bom que não volta

O tempo bom é o de antigamente.

Hoje em dia as músicas, os programa de TV e essa internet que os neto vive infurnado não prestam, não. Bom mesmo era os programas de antigamente. A noite a família toda sentada assistindo novela junto, o jornal, sabe? É disso que eu tô falando.

Mas bom mesmo era antes. De pequeno a gente brincava na rua de terra com as criança da rua. Depois dos seis anos ajudava o pai e a mãe na roça, e não via a hora de chegar a noite. Todo mundo em volta do rádio ouvindo as notícia e a novela.

Êta tempo bom. Era bom quando aqui nessas terras não tinha europeu. Tô falando a verdade pra você. E lá na Europa tinha música boa, pintura, uns negócio de semana da arte. Era bom, rapaz.

Quando a gente morava em castelo. Nem era a gente que morava, na verdade. Era o rei, a rainha, o pessoal da família deles. A gente morava no esgoto. Mas era bom. Quem passava dos 17, 18 anos tinha uma vida boa, rapaz. Podia fazer o que quisesse. A vila era unida, e as crianças brincavam tudo soltas nas redondezas.

De primeiro a gente não se preocupava com essas bandidagem e droga que tem por aí, não. A gente tinha é que se cuidar pra não morrer de infecção. Mas era um tempo mais feliz, mais saudável. Era uma simplicidade.

Bom mesmo era quando a gente não tinha domesticado os animais. Minino, a gente tinha que cortar a árvore no braço, fazer o moinho de madeira no prego de ferro e girar com a mão. Ih, rapaz… era uns dez ou quinze escravos pra rodar o moinho. Depois de moído o trigo as mulher fazia pão pra semana inteira.

Mas bão, bão memo…era quando a gente era caçador coletor.

Sobre Tweets e Explosões

Há pouco mais de um mês, houve uma explosão em Beirute.

E isso me dá muito assunto sobre muita coisa. Primeiramente, o meu atraso e total displicência ao escrever sobre atualidades. Na verdade, eu não gosto de datar textos com informações que são somente relevantes no momento, e no futuro as pessoas que lerem vão se perguntar “do que ele está falando?”.

Além disso, nós vimos mais uma vez como estamos conectados, e como nada mais passa despercebido. Uma explosão próximo a um porto no Oriente Médio? Tweets no mesmo minuto. Vídeos sendo subidos no Youtube, antes mesmo que qualquer jornal pudesse noticiar. Se você quiser ver a explosão do porto, de um prédio à distância, de uma loja mais perto, dentro de uma igreja? Você consegue com apenas uma busca. Por dia o Youtube recebe, em média, cinco anos de conteúdo em minutos de vídeo. Isso te dá uma ideia do quanto estamos arquivando nossas vidas em servidores em algum lugar do mundo.

E, por último, meu compromisso ao lidar com esse blog é muito maior do que certas autoridades lidando com materiais explosivos em grandes quantidades, então…eu venho pesquisando muito sobre o Líbano e conflitos do Oriente Médio. É quase como ler livros de ficção científica sobre sociedades de outros planetas. Uma realidade completamente diferente da que vivemos na América do Sul.

É por isso que eu percebi ser impossível escrever sobre tudo. Ou você faz bem feito e embasado em pesquisas e fatos, ou você abre um Twitter.

Dias Cinzas

Temos tido dias cinzas ultimamente.

Não somente pelo sentido poético, de dias sem cor e vida. Sem saber ao certo o que vai acontecer no futuro ou sem muita certeza do que está acontecendo atualmente.

Literalmente, o céu tem estado cinza. Em muitas partes do país a previsão do tempo não registrava Nublado ou Ensolarado, mas dizia “fumaça”. Isso é o que todos teremos no céu por alguns dias, até virem as primeiras chuvas da primavera, e nós sabemos o porquê.

Só não sabemos quando vai parar.