Sobre vizinhos e etiqueta

Uma coisa explícita sobre as regras de comportamento é que elas não são explícitas.

Nós somos seres complicados. E isso é totalmente compreensível, se você levar em conta os milhares de anos que vivemos em civilizações aprendendo a lidar um com os outros. Nós criamos regras muito bem definidas de como devemos nos comportar quando estamos sozinhos, ou, ainda mais, acompanhados de outras pessoas. “A ética“, já dizia a professora de filosofia, “é o conviver dentro de casa“. Isso depois de explicar que “filo sofia” é o amante do conhecimento. No final fica bem claro que não aprendemos coisa nenhuma.

Tudo bem criarmos regras pra sobreviver em grupo. É isso que nos difere dos outros animaizinhos desse planeta enorme. O problema aqui é que as regras não são explícitas nem diretas. Elas não são escritas em um código de regras que se aprende em casa ou na escola. Você vai aprendendo durante a vida. E essas regras de comportamento podem ser diferentes de acordo com o lugar onde você mora, ou a pessoa com quem você está se relacionando. É complicado demais.

Complicado demais, mesmo para seres humanos complexos.

Eu me mudei há mais ou menos dois meses. E a questão aqui é que eu não me apresentei para meus vizinhos na primeira semana em que me mudei. Também não me apresentei nas semanas seguintes. Ele tem uma esposa, duas filhas e um gato. E agora, morando há dois meses aqui e vendo eles todos os dias de manhã e de tarde, fica difícil perguntar o nome deles a essa altura. Fica chato eu perguntar agora.

O ser humano é complicado demais. Essas regras de comportamento. Eu só queria fazer uma amizade…

Se acostumar com o que não gosta

Eu nunca fui muito fã de café. Mas sempre gostei de pão.

Quando falo que o cheiro do café é muito melhor que o gosto, recebo sempre alguns olhares de reprovação. Até da minha querida editora chefe. Talvez meu paladar infantil não se agrade muito do gosto amargo. Mas mesmo assim eu tomo de vez em quando, com ou sem açúcar. Para mim é amargo do mesmo jeito.

Agora, de pão eu sempre gostei mesmo. Tomava café com pão, manteiga e um leite com achocolatado desde criança. Até usava xícaras para tomar leite, assim conseguia molhar o pão dentro da xícara cheia de leite com achocolatado. Eu chamava de “pão molhar”. Sempre fui péssimo com nomes.

Café com pão, de Tom Jobim, era uma das minhas músicas favoritas de quando criança, e isso é assunto para outro texto. Mas a mistura de café com pão enquanto comida nunca me agradou. Ainda mais ultimamente, em que o café não desce mais tão bem, e o pão tem que ser com menos manteiga, caso eu queira viver mais alguns anos. Eu até como, mas se tiver qualquer alternativa, eu prefiro.

Lá no meu serviço dão pão com margarina e café toda a tarde. São uns dez minutinhos que saio do serviço para esfriar um pouco a cabeça para o restante do dia, então eu não ligo. Tomo café com pão. Nem me incomoda, se é só ali no cafezinho da tarde.

Eu trabalho há cinco anos. Tomando um café com pão toda tarde. E nem gosto tanto assim de café com pão.

Eu já tomei mais de mil e trezentos cafés com pão.

É muito fácil se acostumar com o que não se gosta.

O que não se fala

– Há quanto tempo a gente não se vê, Miguel?!
– Fala, Fernando!
– Como é que você tá?
– Ah, eu tô bem. Quer dizer, levando, né…
– Por quê? O que aconteceu?
– Então..as coisas estão bem difíceis desde que a Angela…
– A Angela..o que?
– Ela… você sabe, né. Nós tomamos a decisão junto, mas ela que..
– Separou?
– É
– Poxa vida, cara. Não sabia disso. Há quanto tempo aconteceu?
– Ah, foi um pouco depois da minha vó…
– Hum
– Acontece, né, cara.
– A sua vó o que, Miguel?
– Ela já não tava bem..
– Ela separou também?
– Não, cara. Ela…Tava doente
– Poxa, Miguel.
– Pois é
– Sua vó morreu?
– Foi

Miguel começou a chorar.

– Caramba. Tudo bem, mano. Vai ficar tudo bem.
– Vai sim. As coisas começaram a mudar depois que eu…
– Eita, Miguel
– Eu…
– Você o quê, Miguel? Caramba!
– Eu não tava indo bem no serviço e…
– Ah, você foi demitido. Eu fiquei sabendo
– Ficou?
– Sim sim, eu encontrei com o Ronaldo
– O Ronaldo?
Fernando tirou um lenço do bolso, suspirando. Seu amigo voltou a chorar.

Ronaldo não estava bem.

E, pelo visto, Miguel também. Mas isso é daquelas coisas de que não se fala.

Reunião para marcar reunião

– Muito bem. Obrigado a todos por terem vindo. Com certeza o futuro dessa empresa está aqui nessa mesa. Nós convidamos todos os chefes de setores e equipe criativa. Estamos todos animados com a volta das atividades, e já pensamos em expandir algumas instalações para atender à nova demanda de mercado. Como vocês sabem, infelizmente tivemos que…

bla bla bla – o Tiago falou baixinho pro Mateus, que também riu baixinho.

– Conseguimos recuperar e aqui estamos novamente. Todos receberam a pauta em seus e-mails? – Todos balançaram a cabeça positivamente. – Muito bem, senhores. Não quero atrapalhar o trabalho de vocês lá embaixo, vamos direto aos tópicos… você recebeu no seu e-mail.

“Claro que não, mas todo mundo tá falando que sim” pensou o Tiago.

– A reunião sobre as compras do mês seguinte, será amanhã às 9 horas. Quem estará presente?

Três levantaram as mãos.

– A reunião da nova campanha?

Outros seis levantaram a mão

Que reunião é essa aqui, Mateus?
É a reunião de reuniões, cara
Que?!
Você não recebeu o e-mail mesmo, né?
– Recebi, mas mandei direto pro arquivo
– Agora levanta a mão junto comigo

– A reunião para agendar a reunião de reuniões?

Mateus levantou a mão. Tiago levantou também.

– Legal, meninos. Vamos precisar de vocês para a reunião de reuniões que poderiam ser e-mail também. Estamos formando a equipe de Call que poderiam ser reuniões.

Mateus levantou a mão.

– Pode falar, Matheus…
– Podemos marcar uma reunião para decidir isso.
– Perfeito. Eu te mando um áudio no telegram pra decidirmos isso.

Tiago não via a hora de tomar um cafézinho.

Felicidade no Abanar do Rabo

A felicidade é complicada, porque não pode ser medida em níveis ou formas.

São muitos elementos envolvidos. A temperatura e pressão, os genes do seu DNA que vieram dos seus pais, junto com a criação que também veio deles (Freud explica isso aí). Tem também impulsos elétricos e sinapses conversando e trocando informações dentro do seu cérebro que podem te deixar feliz ou triste. Além de impulsos elétricos, tem reações químicas que acontecem na sua cabeça, e são alteradas pelo que você come, com quem você conversa e onde você está.

Essa sensação de bem estar é tão complexa quanto o próprio ser humano, e dedicamos nossa existência à busca dela. Mas os cachorros não.

Para o cachorro ficar feliz basta você dar comida pra ele. Ou brincar com ele durante uns minutinhos. Dá pra você medir a felicidade do cachorro pelo tanto que ele abana o rabo. Olha que simples, não é? Pois é.

Ao ir e voltar do trabalho eu passo em frente a uma casa cheia de cachorrinhos da raça shih-tzu. Eles são amigáveis e fofinhos, como todo shih-tzu. Todos ficam deitados na varanda, com a proteção do sol e perto da comida. Todos parecem muito felizes ali. Mas alguns deles (especialmente dois deles) têm a pequena diversão em correr para o portão, latindo pra mim. Eu passo, eles correm, latem, eu vou embora. Eles ficam olhando para a rua. O rabo deles abana, então eu sei que eles estão realmente felizes em fazer isso.

E os que ficam ali deitados? Será que estão tão felizes quanto os que correm, vociferando para alguém que não está nem aí para eles?

Nunca saberemos.

Eu sou mais dos que ficam deitados. E tô aqui bem feliz com isso.