Tempo bom que não volta

O tempo bom é o de antigamente.

Hoje em dia as músicas, os programa de TV e essa internet que os neto vive infurnado não prestam, não. Bom mesmo era os programas de antigamente. A noite a família toda sentada assistindo novela junto, o jornal, sabe? É disso que eu tô falando.

Mas bom mesmo era antes. De pequeno a gente brincava na rua de terra com as criança da rua. Depois dos seis anos ajudava o pai e a mãe na roça, e não via a hora de chegar a noite. Todo mundo em volta do rádio ouvindo as notícia e a novela.

Êta tempo bom. Era bom quando aqui nessas terras não tinha europeu. Tô falando a verdade pra você. E lá na Europa tinha música boa, pintura, uns negócio de semana da arte. Era bom, rapaz.

Quando a gente morava em castelo. Nem era a gente que morava, na verdade. Era o rei, a rainha, o pessoal da família deles. A gente morava no esgoto. Mas era bom. Quem passava dos 17, 18 anos tinha uma vida boa, rapaz. Podia fazer o que quisesse. A vila era unida, e as crianças brincavam tudo soltas nas redondezas.

De primeiro a gente não se preocupava com essas bandidagem e droga que tem por aí, não. A gente tinha é que se cuidar pra não morrer de infecção. Mas era um tempo mais feliz, mais saudável. Era uma simplicidade.

Bom mesmo era quando a gente não tinha domesticado os animais. Minino, a gente tinha que cortar a árvore no braço, fazer o moinho de madeira no prego de ferro e girar com a mão. Ih, rapaz… era uns dez ou quinze escravos pra rodar o moinho. Depois de moído o trigo as mulher fazia pão pra semana inteira.

Mas bão, bão memo…era quando a gente era caçador coletor.

Dias Cinzas

Temos tido dias cinzas ultimamente.

Não somente pelo sentido poético, de dias sem cor e vida. Sem saber ao certo o que vai acontecer no futuro ou sem muita certeza do que está acontecendo atualmente.

Literalmente, o céu tem estado cinza. Em muitas partes do país a previsão do tempo não registrava Nublado ou Ensolarado, mas dizia “fumaça”. Isso é o que todos teremos no céu por alguns dias, até virem as primeiras chuvas da primavera, e nós sabemos o porquê.

Só não sabemos quando vai parar.

Você já ouviu falar do Notion?

Com o passar do tempo eu virei o maníaco da organização. Comecei aprendendo com a minha editora chefe a fazer listas. Ela faz listas para tudo. Resoluções de fim e começo de ano, desejos, tarefas e afazeres, coisas para comprar, livros para ler. Eu passei a amar fazer listas de tudo também.

Depois eu conheci o Trello e OneNote, aplicativos para trabalho em grupo, que sincronizam em todos os dispositivos as notas, fotos, vídeos, links e rascunhos do que você colocar no projeto. Eles eram perfeitos e, junto com o meu bullet journal, eu estava com a organização à frente dos meus olhos.

Sim, eu pesquisei muito sobre bullet journals para fazer o meu. Encontrei blogs que falam só sobre esse tema, e como fazer suas listas, calendários, colagens e diários no formato. Era incrível. Pra mim era perfeito.

Mas, na prática, eu só fazia por poucos meses e parava. Não conseguia manter projetos no Trello dentro do prazo, e abandonava as listas do OneNote. Meu bullet journal? Metade ficou pra 2019, metade pra 2020. Ambos eu parei em maio.

Então eu conheci o Notion. Um aplicativo que junta tudo isso em um só. Eu achei melhor até que o próprio aplicativo do Bullet Journal (já que o Notion é de graça). Com ele você pode fazer listas com pontos, to-do lists para você ticar itens, escrever textos, anexar imagens e vídeos, links com visualização na própria página do aplicativo. Mais ainda, você consegue colocar notas dentro de notas. Eu comecei até a fazer a minha própria wiki, com informações aleatórias e páginas dentro de páginas.

Além de ser gratuito, eu achei o Notion mais leve que o Evernote e Trello, e mais rápido que OneNote. Me adaptei rápido às funcionalidades, mesmo sendo todo em inglês. Hoje eu uso pra gerenciar a minha vida, fazer anotações recorrentes e registrar histórias em uma wiki só minha.

Sério, o Notion é muito bom.

Atenção, este não é um post pago. Se você se sentiu ofendido, procure um médico. Obrigado.

Vírus, não. Patógeno globalizado

Em tempos de Covid, “em tempos de Covid” virou o novo “com o advento da globalização”. Até porque, não haveriam tempos de Covid sem o advento da globalização.

E, como seres globalizados, deveríamos nos comportar como tal. Não só aprendendo inglês ou mandarim, mas entendendo que, acima de tudo, seres humanos são humanos onde quer que vivam. E saber que, apesar da cultura que você faz parte pode modificar o modo como você vive, não muda em nada a latitude e longitude do local do seu nascimento.

As fronteiras entre paises pelos quais lutamos, entramos em guerra e nos engalfinhamos em batalhas pífias de nada valem para um vírus. Ele não precisa de passaporte. Não votou a favor ou contra o brexit, e está pouco se lixando para quem você votou nas últimas eleições.

Chamar o patógeno de “vírus chinês” é equivalente a chamar o cão de pastor alemão, o roedor de “porquinho da índia” ou o urso de demônio da Tazmânia. Não, não. O demônio é da Tazmânia, mesmo. Os outros não fazem sentido algum.

Nós atribuímos intenções às coisas. Faz parte do nosso instinto de sobrevivência entender porque a moita está se mexendo, ou de onde vem o rugido dessa onça, e porque elá está chegando tão perto. No fundo, você sabe que não choveu só porque você lavou o carro ou saiu sem guarda-chuva. Choveu porque as massas de ar e água evaporada se tornaram mais densas que o oxigênio e, portanto, precipitaram. A chuva não está nem aí pra você.

Tampouco o vírus. Ele também não liga se você é descendente de português, italiano, angolano ou nigeriano. Não quer nem saber quantos salários mínimos você recebe por mês, ou qual o carro novo que você comprou.

E, nesse sentido, o Sars-cov2 é bem evoluído. Imparcial e sem preconceito. Muito melhor do que você.

Eu sou um lembrete

A partir do dia 20 de abril de 2020 eu passei a sair de máscara preta em lugares públicos ou com maiores aglomerações. Vou repetir: Eu uso uma máscara quando saio de casa. Uma máscara preta.

Algumas pessoas olham ainda com cara de assustadas. Outras olham como se eu fosse maluco alarmista, afinal existem poucos casos na cidade. Existem ainda as pessoas que também usam máscara, e olham com certa empatia e identificação.

Eu não estou usando máscara somente para evitar ser contaminado. Até porque, as máscaras caseiras não tem a mesma eficácia de máscaras de profissionais de saúde. Não estou usando máscara só para não transmitir o vírus a outras pessoas. Se quem estivesse contaminado usasse máscara, com certeza os números seriam diferentes, mas este não é o caso. Estou usando máscara em lugares públicos porque eu sou um lembrete.

Eu sou um lembrete de que a humanidade de janeiro de 2020 já passou, e não vai mais voltar. Os planos, as ideias, os costumes e até mesmo hábitos populares e o contato entre as pessoas não é mais o mesmo, e não será o mesmo de 2019 nunca mais.

Eu sou um lembrete de que estamos num novo normal. Esta não é uma fase que #vaipassar logo, e todos estaremos novamente enchendo estádios e cinemas da mesma forma que fazíamos antes. Eu sou um lembrete que o mundo mudou.

E quem está vivendo suas vidas como se nada tivesse acontecendo, ou continuou normalmente no trabalho, no churrasquinho do fim de semana, na confraternização entre família e colegas, me vê e faz cara de assustado.

Para as inúmeras Dorothy’s e Totós com o qual me deparo na rua, eu uso máscara como um lembrete, caro leitor, de que não estamos mais no Kansas.

O mundo mudou. E não tem mais volta.

#ficaemcasa