O tempo passa que a gente até vê

De repente a vida te dá algumas pistas de que o tempo passou.

E acontece assim, aos poucos. Ela faz isso de forma sutil, pra você não se assustar tanto quando se deparar com essa realidade.

Duas meninas de mais ou menos sete anos de idade jogavam bola na rua pouco movimentada. Cada uma de um lado, na calçada. A frase ecoou na minha alma como se eu tivesse uma caverna nos meus ouvidos: “Espera, Maria Clara. O moço tá passando”.

Meninas educadas, essas. Quando eu era criança, era essa que pedia para esperar alguém passar. Pausava o futebol por educação, pra não acertar ninguém com a bola por acidente. Os outros meninos da rua me ignoravam, e até jogavam a bola por cima de quem estivesse passando, fosse uma senhora, alguém de bicicleta ou até um caminhão.
Depois a brincadeira se institucionalizou na rua, e contávamos pontos de quantos carros fazíamos “chapéu” (jogar a bola por cima).

Acontecia quando eu era criança. Faz quanto tempo?

Faz muito tempo.

Elas me chamaram de “moço”.

Meu Deus…

Essas crianças aqui jogando bola. Talvez elas nasceram depois de eu ter acabado a escola. Dependendo da idade, elas nasceram quando eu já trabalhava. Gente…

Outro dia desses eu assinei um contrato. Quando que eu, criança jogando banco imobiliário, saberia o que era contrato?

A vida sutilmente dá sinais de que você cresceu, que o tempo passou e você envelhece. Se você não repara nas sutilezas, ela vem e dá um tapa na sua cara.