Querido Jerry

O dia em que eu fui expulso do meu próprio quarto.

Eu estava prestes a dormir, caindo no sono ao mesmo tempo em que caia uma garoa fina. Aos poucos fui ouvindo um barulho que se parecia com o da garoa, mas muito mais…superficial. E mais próximo que as gotas que lá fora caíam. Levantei, e liguei a lanterna do celular. Apontei para a cômoda, embaixo da cama, a poltrona. Nada.

Devagar, me aproximei do guarda roupas apontando o facho de luz para a fresta que ali existia. E ali estava. Um pequeno roedor fazendo barulhinhos com o plástico, como estivesse se divertindo. E estava, até minha luz atrapalhar sua brincadeira. Ele olhou para mim, para o plástico. Eu olhei pra ele, para a fresta do guarda roupa. Ele correu para o outro lado, e deu a volta no móvel grande, fazendo-se perder de vista. E perdi. A vista, a calma, o sono.

Os momentos seguintes passei tomando um resto de refrigerante, e procurando na internet como fazer uma ratoeira com garrafa pet. Fiz a armadilha para o pequeno camundongo e deixei ali, na fresta do guarda roupa, na esperança que ele cedesse ao delicioso cheiro de um pedacinho de carne dentro da garrafa.

Ali eu não dormiria. U-hum. Não mais.

Eles usavam ratos em tortura na Idade Média. Além disso a peste bulbônica tá aí voltando a todo vapor. Vai que ele vem cheirar meu nariz no meio da noite? Não durmo nesse quarto com esse rato nem morto.

Peguei meu notebook, meu celular e fui pra sala. Dormi no sofá. Fui expulso do meu quarto por um roedor que, nos dias seguintes, movimentou a casa e transformou num período de férias de caça ao rato.

Atenção, nenhum animal foi ferido na transcrição deste texto. Até o momento de publicação, nenhum roedor do esgoto foi capturado.