Proteger para amar

Era inverno de 1998. Um tempo seco, e um vento gelado que levou minha mãe a me amar e proteger, como sempre faria dali pra frente


Estávamos em um evento em São Paulo, numa área aberta, e estava muito frio mesmo. A níveis de São Paulo, então você imagina que é frio de verdade. O vento gelado castigou minha mãe e minha irmã durante boa parte da tarde, além de todas as pessoas que ali estavam. Menos eu.

Eu tinha menos de dois anos de idade, e minha mãe me protegeu por dentro das blusas, e, encoberto pelas roupas e cobertas que me envolviam, me mantive quentinho.

Minha mãe e irmã não tiveram a mesma sorte. Alguns dias depois foram diagnosticadas com pneumonia. Eu só tive uma febre leve. A mãe passou alguns dias internada e as duas se recuperaram. Bom, mais ou menos.

Ainda hoje minha mãe tem uma tosse crônica, que ataca especialmente em tempos secos como esse do inverno. Nas últimas semanas acordei algumas vezes com os barulhos da crise de tosse dela vinda do outro quarto.

Hoje, vinte e dois anos depois, minha responsabilidade é cuidar dela do mesmo jeito que ela cuidou de mim. Então se eu pareço o paranoico do álcool em gel, se uso máscara mesmo quando não precisa, ou até se eu for um pouco deselegante ao pedir a distância recomendada de dois metros, entenda.

Naquele inverno de 98 minha mãe me amou para me proteger.

O amor dela por mim gerou a proteção que eu tive para não ficar doente. Hoje, em 2020, eu preciso proteger para amar. Hoje ela tem esse histórico de pneumonias como fator de risco. Se eu protegê-la de se infectar e sofrer com a doença desse vírus, vou poder amá-la por mais tempo.

É só isso.