Coisas que dizemos para o universo

– Tá, tá bom. Pode ir – disse o universo

Lucas se assustou. Não esperava uma voz vindo sabe-se lá de onde respondendo sua afirmação com pouco nexo.

– Oi?
– Pode ir no banheiro. Na verdade eu nem ligo muito.
– Hãn? – Disse Lucas tentando identificar de onde vinha a voz. Todos estavam na cozinha, e ele estava no corredor, em frente ao banheiro.

– Você disse “eu vou no banheiro“. Eu vi. Na verdade eu sempre vejo.
– Falei.
– E você não falou alto o bastante para ser alguém específico, mas também não falou no pensamento. Não foi?
– … É, foi…
– Então – suspirou – imagino que foi para mim.

Lucas começou a procurar nos quartos dos irmãos, mas não achou de onde a voz vinha.
– Você caiu ontem na rua, Lucas

Paralisou.

– Caí?
– Caiu sim.
– Em frente a loja da Márcia.
– Foi mesmo.
– E o que você disse depois de cair?
– É…que…que era uma pedrinha no chão.
– E pra quem você disse isso, Lucas? Foi pra alguém em específico?
– Não, na verdade foi pra…pra, sei lá.
– Pro universo.
– Isso.
– Eu sou o Universo, Lucas.
– Eita – se encolheu no canto do corredor.
– E sabe o quanto eu ligo pra você caindo no chão, indo no banheiro, ou fazendo qualquer coisa errada enquanto dirige?

Lucas se encolheu mais ainda. Parecia ser a primeira pessoa a levar uma bronca do universo, e não sabia como funcionava.

Se fosse igual às broncas da sua mãe, a pergunta era retórica, e se ele respondesse tomaria logo um tapa. E não queria tomar um tapa do universo. Mas ali estava, no corredor, na porta do banheiro.

– Lucas, cê tá bem, meu filho?

Era o pai dele. O universo, pelo visto, tinha ido embora.

– Ah, tudo bem, pai. Eu só vou no banheiro rapidinho…