Nascimento da medicina

Os dois estavam sentados no chão, de frente para o corpo. Era uma situação esquisita mesmo ali, para aqueles dois homens do seu tempo, vivendo as suas vidas na tribo.

– É, ele morreu, né
– Como você sabe? Ele pode estar dormindo, sei lá. Ou quando as pessoas quase morrem…
– Não. Ele não está, não. Olha… – disse, levantando as pálpebras. O homem parecia mesmo morto.
– Sei lá, hein. Pode ser que ele esteja…como é que o Mameq falou? …
– Desmaiado.
– Isso. Não gostei muito dessa palavra.
– Também não. Mas ele tá aqui assim faz horas.
– E agora, o que a gente faz?
– É a primeira vez que você vê um desses?
– É. Desse jeito é a primeira vez. Teve o Daok, mas ele foi caçando Mamute, né. Aí morre diferente.
– É.

Os dois pararam, olhando para o corpo.
– O que acontece agora? – Perguntou o mais novo.
– Você tem uma faca?
– O que?! Você vai caçar ele?
– Não, não. Vou só abrir. Ver como é por dentro.
– Como assim, Bal-kuh? Tá ficando maluco?
– Você nunca imaginou como era por dentro? – disse, olhando para o próprio bucho.
– Não. Lógico que não. E você não vai fazer isso com ele. Nós nem sabemos de que tribo ele é, ou o que aconteceu com ele…
Mah-kao, se a gente não fizer…alguém vai fazer um dia
– Não.
– …se é que já não fizeram
– Tá errado.
– É por questão de cultura, Mah-kao.
– Eu não vou participar disso
– Conhecimento. Você não quer sobreviver?

Um silêncio entre os dois.
– Afinal, algum dia alguém vai ter que fazer isso. Vão saber como somos por dentro, fazer…experimentos.
– O que é experimento, Bal-kuh?
Cirurgia. É abrir o bucho com a pessoa viva. Mexer nela por dentro, pra que ela fique mais viva.

Mah-kao fez cara de nojo.
– Vamos. Isso aqui é para o futuro. Logo vamos estar modificando DNA, fazendo implantes no cérebro. Pegue lá a sua faca de pedra.

Mah-kao se levantou. Saiu resmungando…
– Isso vai dar trabalho. Eu já tô até vendo…