Vida de mosquito

Meu bisavô dizia que todos os homens da nossa família eram dos mais bravos e valentes. Todos eles, sem exceção, já haviam enfrentado o grande…chinelo.

Então ele morreu por uma palma de mão. Nem estava caçando, não. Estava só passeando entre a casa da minha tia e o rancho que ele gostava de passar o fim de tarde. Era uma parede que não pegava sol, e era perfeita, porque passavam cachorros deliciosos depois que anoitecia. Um dia passou alguém, e ele fez barulho demais. Bobeou. Morreu de uma palma de mão.

Meu avô que era valente. Encarava dos piores desafios parar conseguir comida e trazer para casa. Na verdade ele era o que chamamos de ZZzzzz, que, no caso, vai na frente e descobre onde tem comida pra seguirmos depois.

Morreu de veneno. Daqueles SBP, que deixa meio grogue antes de matar de verdade. Ele ainda tentou sair voando, mas não conseguiu. Suas asas estavam molhadas, e estava desorientado. Bateu em um móvel da sala e caiu. Tomou outro spray de veneno. Ficou ali mesmo.

E eu esperava mais do meu pai. Mas os humanos estão melhorando mesmo. Ele morreu de raquete elétrica. Não deu nem tempo de descobrir o que foi. Tá! Morto eletrocutado.
Eu não sei se é o nosso jeito de sentir o tempo passando, ou o que faz parecer que essas histórias aconteceram há muito tempo. Na verdade aconteceram ontem e antes de ontem.

Mas tudo bem. Está na hora do almoço, e preciso achar um ser humano fresquinho que esteja dormindo, para eu voar perto da orelha dele com meus amigos, depois picar a sola do pé, só de brincadeira. Depois vamos passar a tarde descansando na parede da sala, assistindo TV.

Vai ser legal…