Breve redigida nas leis

– Aqui! Aqui! Encontre alguém!
– Socorro! – gritava alguém na parte mais baixa da montanha
– Chame o garoto! Ele precisa estar aqui.

Minutos depois estavam os três na beira de um barranco coberto por neve. O mais novo trouxe uma prancheta que achou nos fundos do que, semanas atrás, era um avião.

– Qual é o problema aqui?
– Achamos um sobrevivente. Não sabemos quanto tempo ele está ali, nem como conseguiu sobreviver a última semana. Mas está ali – apontaram para o penhasco, e lá embaixo havia alguém gritando por socorro e acenando.

– Não temos leis para isso – disse, dando meia volta e saindo
– Mas é uma pessoa ali. Ela merece viver. Está na nossa constituição. Artigo n°0135.
– “Todo ser humano dotado de membros superiores e inferiores têm o direito à vida e à partilha dos mantimentos encontrados na aeronave”.
– E você foi bem preciso na pate dos membros superiores e inferiores
– É. Disse que alguém deficiente daria mais trabalho. Que não era assim na civilização normal, mas na nossa era importante para a sobrevivência.
– Além disso, vivemos num democracia, e somos em 2 votos contra 1 para salvarmos aquela pessoa ali – continuou apontando penhasco abaixo.

– Tá bom, tá bom. Faz sentido. Mas ele está a cem metros abaixo de nós, e não temos como resgatá-lo. Não sabemos se ele está sozinho, se ele é gente boa, ou se só está chamando atenção para salvarmos ele, e depois ele comer nossa carne!
– Temos uma corda aqui.
– Não acha muito cedo pra decidirmos enforcar o sujeito?
– Não, idiota. É para puxar ele lá debaixo.
– Ah, claro.
– E, se ele não for gente boa, e quiser comer nossa carne, podemos enforcá-lo depois?

Se entreolharam por uns instantes. Aquela ideia parecia ridícula e extremista demais para…

– Esperem um pouco. Vou escrever leis sobre resgate de sobreviventes e enforcamento – disse o jovem legislador, que tinha feito seis meses de Direito. Voltem às suas tarefas, ou serão descontados dos seus salários de barrinhas de cereal

Cerca de seis dias depois, voltaram à beira do penhasco. O homem não estava mais gritando. Não estava mais lá. Pelo menos as leis estavam muito bem redigidas, e aquela breve civilização crescia a passos curtíssimos sobre a montanha de neve.