Amém, Clarinha

– Primeiramente a gente queria agradecer todo mundo ter vindo. É a primeira vez que a gente consegue juntar toda a família em cinco anos. Até a tia Nice tá aqui! Não é, tia Nice?

Quem estava perto da tia Nice a abraçou ternamente.

– Agora que a comida tá pronta, gostaria que todos dessem a mão, por favor.
Todos deram a mão.
– A Clarinha vai fazer uma oração para nós, depois vamos comer. Todos prontos? Pode, Clarinha.

Clarinha se ajeitou na cadeira. Agarrou a mão do papai e da mamãe dos dois lados. Fechou os olhinhos bem fechados.

– Senhor. Agradecemos ao senhor por estarmos aqui juntos. Mesmo a senhora tendo tirado a vovó da gente ano passado, igual a mãe falou.
Agradecemos a comida, e o senhor ter deixado que as pessoas criassem um frango que incha que nem um peru, e matassem ele sem dor, apesar da vida muito triste que ele teve dentro de uma caixa.
Agradecemos os bois que o senhor deixou que fossem mortos com um tiro na cabeça, e fossem esquartejados para estar em nossa mesa, para o nosso alimento. Agradecemos ainda mais por termos comida, e por estarmos juntos.
Algumas famílias estão separadas pela guerra, fome ou governos muito maus, e muito obrigado por nossa família não ser uma dessas, pelo menos ainda. E muito obrigado por ter me deixado chegar aos nove anos de idade, e a tia Nice aos oitenta.
Pedimos ao senhor que ninguém fique bêbado, quebre as coisas da casa, ou deixe o papai bravo e faça com que ele expulse alguém nos chutes, igual ano passado. Que as piadas do tio Gilson com o sobrepeso da mamãe não façam ela chorar, e que todos fiquem bem até o ano que vem. Amém.

A tia Nice estava escondendo um choro, com a mão na frente do rosto. Após alguns minutos de silêncio, o pai fez um carinho na cabeça de Clarinha.

– Amém…agora vamos comer, pessoal! – disse, tentando animar alguém.

Clarinha piscou para o tio Tiago, que piscou de volta. Ele é o tio que chega com smartwatch de presente, e usa coque samurai desde antes de ser modinha.