Direito à propriedade

É no trabalho que se põe a prova os limites da civilidade e ética do ser humano. Estou falando, sobretudo, do direito à propriedade.

No começo não existia isso. O pé de maçã estava na terra, que era de todos, então as maçãs eram de todos. Fulano começou a subir no coqueiro, e apanhar um côco, e logo o côco passou a ser dele. Ele não conseguia abrir, e então dividia com Ciclano, que sabia abrir côcos como ninguém. Logo Beltrano estava matando ovelhas, portanto as ovelhas eram dele, e só dele. Ele trocava por maçãs e côcos. Um dia, não se sabe quem, decidiu tomar a terra para si. Cercou-a com pedras e gravetos, delimitando um terreno que ele jugava ser bom para viver. Expulsou Fulano, Beltrano e Ciclano. Agora o pé de maçã, o coqueiro e as ovelhas eram dele.

Ciclano acabou devendo alguma coisa para esse sujeito, e não conseguiu pagar de jeito nenhum. Coitado, agora Ciclano também era dele. Começou a trabalhar pra ele, e servir a ele. Essa pessoa começou a possuir outras terras, negociando com Fulano e Beltrano, até que negociou Ciclano com eles também.

Os humanos foram ficando mais complicados, meu caro. Começaram a possuir mais maçãs e côcos, mais bichos, carros, prédios, ações da Petrobras, celulares e, olha só, pedaços de bolo na geladeira do serviço.

Em cima da geladeira, uma caneta piloto, que escrevia em qualquer potinho de sorteve reutilizado. Lilian, Jaques, Mateus, Wellington e Fernanda guardavam comida na geladeira em potinhos com seus nomes escritos. Estava tudo bem até que Wellington descobriu que Jaques guardava bolachinhas de maizena no seu potinho. Achou que não seria nada demais pegar algumas. Jaques nem ia notar. Lillian e Mateus pensaram o mesmo. Quando chegou pro lanche da tarde, Jaques não tinha mais bolachinhas, e ele foi reclamar para Fernanda, que não sabia de nada.

No final, tudo seria uma grande reclamação que chegaria nos ouvidos dos outros da empresa, que não guardavam comida na geladeira.

Logo o chefe, que possuía a propriedade de cerca de nove horas por dia de todos eles ali, decidiu parar com esse negócio de geladeira e potinhos, suspendendo o horário de lanche da tarde.

Como eu disse, o ambiente de trabalho põe à prova o limite da civilidade e ética.

No final, todos descobriram que não possuíam de verdade nada. Nem côcos, maçãs, ovelhas, potinhos com seus nomes escritos e as horas que passavam trabalhando para tentar possuir alguma coisa