Sessão Ordinária

– Muito bem. Agora, às dez horas e trinta e quatro minuto declaro aberta a sessão do planalto. Esta é a sessão de número mil quinhentos e sessenta e cinco. Com a palavra, o primeiro orador de hoje, Senador Magalhães.

– Primeiramente, eu gostaria de pontuar e desejar, agora no início, que nossa sessão de hoje seja produtiva e engrandecedora.  Que possamos mudar coisas que realmente importam para o nosso país!

Silêncio constrangedor na sessão. Somente o barulho do teclado do escrivão. O senador arrumando os papéis.

– Como assim, deputado?

– Exatamente isso, presidente. Que nossa sessão realmente mude alguma coisa no país. Ficam aqui os meus votos…

Alguém tossiu lá atrás. Algum grupinho próximo ao Senador começou a rir.

– Que história é essa, senador. Não me vem com essa de mudar o país numa hora dessas. Parece que você chegou aqui ontem, pô…

– Justamente, sr. Presidente . A gente vem aqui toda semana, quer dizer…quase toda semana, e ficamos aqui de quatro a oito horas conversando, entendeu, isso aqui poderia ser um e-mail…eu viajo até aqui, gasto dinheiro do meu estado pra vir, e nada muda.

– Concordo com o senador, Presidente! Acho que a gente não precisava vir aqui toda semana! – disse um outro senador.
– Inclusive meu gabinete está trabalhando numa lei que traria um progresso nesse sentido – disse ainda um outro – reduzindo os horários de sessões em 30%

– É disso que eu tô falando, Presidente! Se as reuniões diminuírem, aí é que nada muda mesmo!
– O senhor Magalhães tem mostrado argumentos e propostas incoerentes para as sessões do plenário – disse o segundo Senador.
– Não diria incoerentes, mas diria alucinadas… – Retomou o presidente da sessão – Somos aqui todos eleitos para fingir muito bem que trabalhamos para o povo. A gente faz essas sessões há oito anos, Senador Magalhães. Mudou alguma coisa? Lógico que não. Não é pra mudar.

– É que eu estava lendo uns livros, presidente…

– Não me venha com essa de ler livro! Que ninguém aqui tem paciência pra isso. O senhor, por favor, siga com o discurso preparado por sua banca!

Silêncio novamente no plenário.

– Muito bem. Todos sabemos que essa sessão, bem como todas as outras sessões, é paliativa. Vai cuidar apenas de problemas relacionados a este governo vigente, e mais da metade das leis aqui sancionadas serão revogadas em, no máximo, seis anos. Quantos anos vocês acham que a humanidade vai durar? Cinquenta? Acho muito. Agora passo novamente a palavra ao Senador, Magalhães – concluiu

O presidente deu uma olhadela ao Senador . A sessão se segue…