Musa

Um dia desses eu vou ficar sem escrever crônica, e eu vou me esquecer como é que faz.

Eu já falei por aqui como as coisas funcionam. Eu paro, sento frente a uma tela em branco e, quando me dou conta, ela está cheia de palavras que, às vezes, fazem sentido. Nem sempre. Quando fazem, vem pra cá.

A origem das ideias foi romantizada por muito tempo, por muitos tipos diferentes de artistas, meu caro leitor. No começo parece que a inspiração vinha da natureza, mesmo. A poderosa natureza que dava vida a todos os seres, equilibrava a força de todo o planeta, trazia vida aos artistas e depois os matava de infecção.

Depois começou a vir dos deuses, ou alguma coisa assim. As histórias e poemas estavam ficando realmente muito boas quando eles resolveram se aposentar num resort maravilhoso só para deuses.

Estava ficando difícil.

Foi aí que os artistas começaram a se inspirar na bebida. Então as coisas começaram a ficar interessantes, porque, mesmo quando os pubs fechassem, os poetas iriam para as praças continuar bebendo e lamentando a vida. Em algum momento eles fariam poemas e romances muito bons. A bebida não abandona. Mas, assim como a natureza, acaba matando. Até os vinte e dois anos de idade dava tempo de escrever ou pintar alguma coisa que marcasse a história.

Hoje em dia com vinte e dois anos não dá tempo de nada. Este texto, mesmo…eu escrevi ontem, enquanto pensava no que me inspirava a fazer textos.

Com esse negócio de inspiração não dá pra confiar em ninguém. Ou sua musa inspiradora te mata, ou te abandona.

Talvez os publicitários, jornalistas e artistas contemporâneos estejam certos em dizer que não existe isso de musa inspiradora. Você cria a partir do que já leu, assistiu e vivenciou.

Eu, por exemplo, crio basicamente para que minha editora chefe leia e aprove. Terça-feira as 10h15 da manha ele estava aqui, e agora você leu, e ninguém morreu nem foi abandonado por coisa nenhuma.