Demissão

Toc toc – fez a porta quando ele bateu

– Chefe? Me mandou chamar?
– Ah, claro. Pode entrar, Fernando. Senta aí

A sala do chefe era um ambiente levemente desconfortável. O ar-condicionado um pouco frio demais. A cadeira um pouco escorregadia demais. As paredes brancas demais.
Fernando se sentou um tanto desconfortável, pois estava com medo do que viria a seguir.

E veio:
– Então, Fernando. Você ouviu o pessoal falando essa semana. As coisas andam complicadas pra todo mundo. A gente até fez as contas aqui, e o nosso último job não rendeu o quanto a gente esperava. Você sabe o quanto a gente tem consideração por você. E, poxa…tudo o que você fez pelo time durante os últimos anos não tem nem preço. Mas o pessoal do financeiro fez as contas, e decidimos com a diretoria…e estamos te demitindo.
– Como assim, demitindo?
– É isso mesmo. Você está fora da equipe
– Eu não tô entendendo o que tá acontecendo. A gente é uma banda. Você não pode me demitir.
– Na verdade a gente é uma empresa. Eu sou o empresário, e posso sim.
– Eu sou o líder da banda. – disse, aumentando o tom da voz.
– Exatamente. Não. Quer dizer…você era. Estamos contratando outro band leader mais barato.
– Eu sou o vocalista. Minha voz está em todas as músicas! – já gritando e amassando papéis.
– Tsc ah, um botão no computador resolve isso aí.
– Meu rosto está na capa de todos os álbuns!
– Maquiagem digital, Fernando. Qualquer um que a gente pegar com metade do seu carisma vai parecer mais com você do que você mesmo.
– Não é possível. Os outros da banda sabem? Eu vou falar com eles. Nós é que vamos demitir você!
– Já foi tudo conversado com a gravadora, Fernando. Para com exagero. Tava tudo no contrato. – disse, tirando o telefone do gancho – e outra…ninguém sabe o seu nome de verdade. A galera não vai nem reparar.

Disse no telefone:
– Jorge. Vem buscar o Fernando? Ele tá aqui dando trabalho…

Jorge, um segurança enorme todo vestido de preto, entra na sala e leva para fora um Fernando furioso, segurando-o pelos braços.

– Isso não faz o menor sentido! Eu vou falar com meu advogado. Você nunca mais vai ser empresário de banda nenhuma!
– Até mais, Fernando! Boa carreira solo pra você.

Barulho da porta batendo.

O Chefe pegou o telefone novamente.

– Cláudia, manda chamar o baixista? É…ninguém liga pra ele mesmo…Obrigado!