Fim da Civilização de Aranhas

O velho aranha já profetizava tudo isso que começou a acontecer. Rolava o boato entre o povo da vila que ele falava a língua dos gigantes. Alguns diziam que era um dom que ele tinha. Outros tinham certeza que ele ficou maluco.

Por três gerações ele passava por entre as teias de todos da vila avisando que o fim chegaria. “Escuto o anúncio de novos gigantes” dizia ele “que provocarão a ira do grande Henrique!” ele gritava.

Grande Henrique, pra você que chegou agora, é o nome do gigante que coabitava o espaço da vila com todas as aranhas. Ele vivia lá no chão. Dormia e lia todos os longos dias de gigante com eles, e nunca os fazia mal. Mas chegariam outros gigantes, pregava o velho aranha, e isso provocaria a fúria do Grande Henrique, que traria um extermínio geral a toda a vila.

Foi ele que avisara que o chão era pra criaturas do chão, protegendo assim seus queridos amigos aranhas de serem pisados por outros gigantes que por ali passavam. O Velho aranha estava sempre olhando pela janela. Ele sabia dizer quando viriam nuvens de pernilongos e sempre acertava, o que deixava as aranhas da vila felizes, e produziam teias maiores para a temporada.

Ele assustava as aranhinhas com histórias terríveis sobre o flagelo das cerdas, e em como os gigantes já tinham dizimado inteiras civilizações de aranhas só com um objeto que eles chamam de vassoura. Ele a descrevia como um animal feroz e tempestuoso, sem olhos, e com muito mais de oito patas, que chegaria para destruir toda a vila de aranhas do quarto.

O velho aranha era um louco. Ele morreu numa tarde de verão, enquanto bisbilhotava os gigantes, com uma chinelada da mãe do Grande Henrique, momentos depois dela dizer “a visita chega amanhã e vai ficar aqui. Você precisa dar uma geral nesse quarto!”, ao que Henrique disse “tá bom, mãe” e voltou a escrever qualquer texto. No dia seguinte houve o fim de toda a civilização de aranhas e o quarto do Pedro ficou limpinho, pronto para receber visitas.