Máquinas de Texto

Ele voltou imediatamente na recepção, e perguntou:
– Luana, alguém usou a máquina de textos hoje?
– Usou, por quê?
– Tá meio estranho…

Segurava uma folha de papel com um texto impresso de um lado

– O botão de Faroeste não tá funcionando. Você aperta e ele faz uma Ficção.
– Mas aí que tá. Eu apertei ficção, e olha o que veio…

Entregou o papel para Luana que, enquanto lia, fez uma careta. A mesma que ele fez quando leu.

– Tá vendo? Não tem coerência. Começa falando que aconteceu um assassinato. A pessoa morreu com um veneno extraído de outro planeta. O detetive viaja no tempo pra investigar. Termina com o assassino se apaixonando pelo morto.
– Isso até pode acontecer. O problema é o morto se chamar Jorge.
– O gênero tá errado, né
– E o nome é horrível pra um conto de ficção.
– Nem é ficção.

Quando as máquinas de texto começaram a ser produzidas, o maior problema eram as referências e inspiração.

A ideia já era executada lá fora. Você chega, aperta no botão de Roteiro ou Romance e saía uma novela perfeita para a editora vender, o estúdio filmar, passava na sessão da tarde ou vendia na Avon, e todo mundo ficava feliz. A primeira safra de máquinas usava como referência os clássicos da literatura local. A segunda e a terceira só reproduzia os livros mais novos trocando os nomes dos personagens. As que vieram depois começaram a aprender entre si, e com os poucos escritores de verdade que ainda existiam. E aí que estava o problema.

Não existiam muitos escritores. E os escritores-de-verdade, que já eram outra categoria, estavam em extinção no mercado. E, falando em mercado, as máquinas precisavam ser vendidas. Ninguém mais queria revistas mensais que fingiam saber sobre política. As pessoas queriam histórias originais, saídas fresquinhas da máquina. De preferência do lado da máquina de café.

– De novo, Luana. Vai ter que chamar o técnico aqui pra consertar.
– Ah não! O chefe vai comprar a máquina nova que saiu agora, com botão de Crônica ou Episódio de Sitcom!