Uma senhorinha com sacolas

Ele entrou e apertou o botão. A música era agradabilíssima, pois o impediria de sair daquele lugar com uma crise existencial, e todos sabiam disso: Música ambiente serve somente pra inibir pensamentos profundos demais. O síndico não queria moradores que pensassem muito enquanto desciam para o térreo. Muito tempo pra pensar em como a viver ali no condomínio era terrível, o que causaria depressão, e pessoas se jogando do quinto andar não é bom pros negócios.

Mas a música ambiente funcionava tão bem. Tanto que ele batucava com as pontas dos dedos nas coxas, encarando os números que logo diminuiriam. Nono andar, oitavo andar, sétimo…

O elevador parou. A porta abriu.

Entrou uma senhorinha com sacolas. Ele não tirou os olhos dos números brilhantes acima. Talvez se fingisse que não a visse, ela não o veria também.

O problema dos elevadores é que você não passa tempo o suficiente neles para fazer uma amizade duradoura. Também não é o tempo de um cumprimento rápido. Então tudo que se seguia era um “e aí” de um lado, um “e aí” do outro ,e depois o silêncio mais constrangedor que duas pedras jamais sentiriam.

Desconfortos sociais são exclusivos dos seres humanos. E o elevador é um espaço construído para o desconforto social. A música é boa, a temperatura também, mas é esse o efeito colateral de se estar tudo bem.

A senhorinha passou os dois primeiros andares ajeitando as sacolas. O próximo andar, desceu olhando para ele, tentando, mentalmente, fazer com que olhasse de volta. O embate mental se prolongou por mais dois andares, até que ela não aguentou todo o peso da necessidade de puxar conversa ali, e soltou um:

– Você não é o filho da Marta?
Ele respirou fundo. Era melhor dizer que não. Nem conheço Marta.
– Sim, sou.
– Aah não acredito! Eu conheço sua mãe desde…

E ouviu-se o “piiiin”. A porta se abriu e mais um diálogo foi perdido, e aquele moço nunca saberia a história de vida daquela senhorinha cheia de sacolas, e vontade de conversar.