Cadeado no portão

– Alê! Alê! … Magrelo, chama o Alê aí – gritou, sussurrando
– Fala.
– O portão ta trancado!
– Quê?!
– O portão…vem aqui
– O que que tem?
– Cadeadão grossão aqui. Acho que Dona Cida não quer que a gente assalta ela, não
– E daí?
– Climão, né? Ela faz todo esforço, a gente chega e assalta.
– É…
– O que tu acha, Magrelo
– Se precisar eu pulo o muro
– Não, magra! Tá maluco! Dona Cida pôs cerca elétrica
– Choque é fraquinho
– O problema não é nem isso, cara – argumentou o Zê – imagina o tanto que Dona Cida gastou nessa cerca. Pra nóis chegar, quebrar no peito sem nem consideração, tendeu…
– Fica chato a gente roubar assim.
– Fica
– Verdade memo
– Liga pro chefe

– Marcão, tem problema aqui.
– Fala.
– Tem cadeado na porta da Dona Cida.
– E daí?
– Desculpa perguntar, assim…mas era dívida com o filho dela? Era o quê?
– Comprou tevê nova, bichão. 50 polegadas. A velha nem enxerga. O moleque não tá mais com a gente. Tem coisa aí.
– Hum…
– Qual é o problema, Zê?
– Já falei, chefe. O portão tem um cadeadão aqui.
– E não dá pra quebrar?
– Dá sim. Até dá.
– Então me ligou por quê?
– Ah, patrão. Cê sabe…tava vendo com os meninos aqui, fica chato, sabe?
– Hum…
– Ela gastou no cadeado. Gastou na cerca elétrica. Gastou na tevê. Aí a gente chega e rouba. Tendeu? A velhinha vai ficar bolada…
– Vai mesmo.
– Pois é.
– E daí?
– A gente tava pensando aqui, em dar uma desistida.
– Faz assim, aguenta aí que vou ligar pro advogado…

– Zê? Tá na linha ainda?
– Opa, fala, chefe.
– Deixa um bilhete. Diz que fica pra próxima
– Valeu, chefão!
– Falou