Tudo já foi dito

Começou com um filósofo, pensando sozinho, muito provavelmente. Ele não tinha muito mais coisa pra pensar, e acabou chegando nesse ponto. “Tudo já foi dito”. Preferiu não escrever esse pensamento, talvez para não desanimar seus alunos, e ficou por assim mesmo.

Então algum poeta, no meio de alguma crise de inspiração, escreveu. “Tudo já foi dito, escrito e lido”. Inconsequente como só poetas são, acabou publicando isso em algum livro. A princípio ninguém leu, é claro. Mas logo alguém replicou em algum trecho, e viralizou. Virou bagunça.

Os jornalistas não gostaram da ideia. Mandaram cartas para alguma gráfica para reclamar, dizendo que agora seus empregos estavam em risco. Começaram a publicar notícias mais diversas no jornal, como “O look da rainha” ou “Receita do palácio” e quem sabia ler gostava.

A frase já estava aí pelo mundo, e todas as pessoas já sabiam que tudo já tinha sido dito. Mas o engraçado é que continuavam dizendo coisas que, estranhamente, ainda não tinham sido ditas. E ninguém falava sobre isso.

Quando chegaram as maquinas fotográficas é que o negócio ficou feio. Algum chefe de redação mandou botar a frase “Uma imagem vale mais que mil palavras” em algum periódico, e agora que as coisas a serem ditas perdiam ainda mais o valor. As ações das gráficas caíram. Tínhamos máquinas de escrever e impressoras rotativas para correr atrás do atraso.

Então vieram os críticos. O objetivo deles eram dizer coisas novas sobre as coisas já feitas. Comentavam livros e peças de teatro. Não satisfeitos, passaram a criticar coisas não escritas também, como fotografias e artes plásticas, e parece que o jogo virou. Havia alguma arte nova? Novas coisas a serem ditas.

Quando os designers chegaram ninguém entendeu muito bem. Era algo como “tudo foi dito, mas nada foi dito dessa forma”. E, desde então, as coisas continuam sendo ditas e repetidas, só que de formas diferentes. De maneiras diferentes. De jeitos diferentes.

Agora estamos aqui, falando coisas de um jeito só de Pedro. E eu me perguntando se ainda existem coisas a serem ditas às terças e quintas-feiras também.

Não sei. “Só sei que… hm… isso já foi dito bastante também.