Primeiro segundo do dia

No princípio, era o pensamento. Somente. Sem forma nem dimensão. Apenas solto no espaço imaginário onde os pensamentos costumam estar.

Apareceu como quem acaba de entrar em uma ressaca e, como todo pensamento, falou consigo mesmo. Murmurou. Três palavras. E o receptor, dono dessa bagunça toda, quase que interpretou da seguinte forma: “Tenho que levantar”.

Algumas partes do cérebro tentaram avisar outras que ainda não sabiam o que estava acontecendo. Começou um burburinho no lóbulo frontal. No setor mais técnico, no porão, dois neurônios começariam uma briga com as frases “Levantar, agora?” e “Mas acabamos de dormir!” e entrariam em contato com a parte mais instintiva, que cuida das papeladas.

Do lado de fora, João se esforça em abrir o olho e constatar que o dia da grande maioria das pessoas já havia começado. O seu, ainda não.

Aqui, tentaram trabalhar melhor esse pensamento. Precisavam de uma confirmação que a primeira mensagem de três palavras era verdadeira. Conseguiram substituir as três palavras por “que horas são?”. Mandaram sinais para o braço de João que, sonolentamente, puxou o seu celular pelo fio que, violentamente, descreveu uma parábola a partir do chão e estapeou sua cara num golpe.

“Reage! Reage!” gritou algum chefe de sinapses, que fez alguns impulsos elétricos agirem, muito provavelmente contra suas vontades próprias, se as tivessem. “A digital! A digital!” ele gritou.

Do lado de fora, João tentava, sofrivelmente, colocar a digital para desbloquear a tela. A primeira imagem do dia passou pela sua retina, que foi decodificada por alguns outros neurônios que acabaram de bater o ponto, botando seus jalecos rapidamente, e foi interpretada por: 9h40.

João está atrasado. E esse pensamento que apareceu, como quem sai de uma ressaca repentinamente.

“Estou atrasado!”

E João levantou e começou seu dia.